Artur Henrique: quando uma vida se confunde com a luta dos trabalhadores, por Maria Luiza Falcão
Por Maria Luiza Falcão Silva — GGN
Artur Henrique: quando uma vida se confunde com a luta dos trabalhadores
Por Maria Luiza Falcão
A morte de Artur Henrique da Silva Santos, nesta segunda-feira, 14 de setembro, aos 65 anos, deixa uma lacuna dolorosa no movimento sindical brasileiro. Ex-presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), eletricitário, sociólogo, gestor público e militante de esquerda, Artur pertenceu a uma geração que não fez da política uma carreira individual, mas uma forma de compromisso coletivo.
Há dirigentes que passam pelas instituições. Outros ajudam a construí-las, imprimindo nelas sua visão de mundo e sua capacidade de transformar reivindicações dispersas em força organizada. Artur Henrique pertenceu a esse segundo grupo. Sua trajetória foi inseparável da defesa do trabalho, da democracia e de um projeto de desenvolvimento capaz de repartir seus frutos com quem efetivamente produz a riqueza nacional.
Sua morte não representa apenas a perda de um ex-presidente da CUT. O Brasil se despede de um homem que compreendeu, desde muito cedo, que nenhum direito dos trabalhadores surgiu da generosidade das elites. Cada conquista inscrita na legislação, cada aumento real do salário mínimo, cada redução de jornada e cada avanço da proteção social resultaram de organização, negociação, mobilização e luta.
Da fábrica à presidência da CUT
Nascido em São Paulo, em 26 de junho de 1961, filho único de um casal de portugueses, Artur era técnico em Eletrotécnica e formado em Sociologia pela PUC-Campinas. Começou sua militância na Companhia Paulista de Força e Luz, a CPFL, durante a década de 1980. Foi na vida concreta dos eletricitários, diante das relações de poder existentes no local de trabalho, que se formou como dirigente sindical.
Presidiu o Sinergia Campinas, integrou a direção do Sindicato dos Trabalhadores Energéticos do Estado de São Paulo, foi diretor de Formação da CUT-SP e secretário nacional de Organização da Central. Não chegou à direção nacional por atalhos ou indicações de gabinete. Percorreu o caminho característico dos grandes dirigentes populares: começou na base, conheceu a realidade cotidiana dos trabalhadores e aprendeu a transformar insatisfação em consciência, consciência em organização e organização em capacidade de intervenção política.
Em 2006, foi eleito presidente nacional da CUT durante o 9º Congresso da entidade. Sua chapa recebeu 69% dos votos dos cerca de 2,5 mil delegados presentes. Em 2009, foi reconduzido ao cargo, permanecendo à frente da maior central sindical brasileira até 2012. Sua eleição e sua reeleição expressaram o reconhecimento de uma liderança capaz de formular, dialogar e preservar a unidade sem apagar as diferenças internas. A própria CUT destacou essa trajetória em sua homenagem oficial.
Artur presidiu a CUT durante um período decisivo da história recente do país. O Brasil vivia os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e o início do governo Dilma Rousseff. O movimento sindical deixou de ser tratado apenas como força de resistência e passou a participar mais diretamente da disputa pelos rumos do desenvolvimento nacional.
Isso não significava submissão ao governo, muito menos abandono da autonomia sindical. Significava reconhecer que a classe trabalhadora não deveria apenas protestar contra políticas desfavoráveis: precisava disputar a formulação das políticas públicas, influenciar as decisões nacionais e colocar o trabalho no centro do projeto de país.
Desenvolvimento com distribuição de renda
À frente da CUT, Artur Henrique defendeu algumas das principais bandeiras do movimento sindical de seu tempo: a valorização permanente do salário mínimo, o fim do fator previdenciário, a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas sem redução salarial, a ampliação dos direitos sociais e um modelo de desenvolvimento baseado na geração de empregos e na distribuição de renda.
Essas pautas revelavam uma compreensão que continua atual: crescimento econômico sem justiça social pode enriquecer empresas, bancos e acionistas, mas não constrói uma nação. Desenvolvimento verdadeiro precisa melhorar a vida das maiorias, fortalecer os serviços públicos, reduzir desigualdades e ampliar a participação democrática.
A política de valorização do salário mínimo, construída por meio da pressão e da negociação das centrais sindicais com os governos Lula, foi uma das mais importantes experiências distributivas daquele período. Seus efeitos ultrapassaram os trabalhadores empregados: alcançaram aposentados, pensionistas, beneficiários da assistência social e milhões de famílias cuja renda acompanha o piso nacional.
Artur compreendia que salário não é apenas custo para a empresa, como insiste o pensamento econômico conservador. Salário é renda, consumo, arrecadação, dinamização do mercado interno e dignidade. É parte essencial de uma estratégia de desenvolvimento assentada na capacidade produtiva do país e na incorporação social de sua população.
Sua atuação também possuía dimensão internacionalista. Depois de deixar a presidência da CUT, trabalhou na área de relações internacionais da Central, participou de iniciativas sindicais na América Latina e na América Central e colaborou com o Instituto Lula na formulação de políticas de cooperação trabalhista nas Américas. Sabia que, diante de empresas transnacionais e de mercados financeiros globalizados, a solidariedade entre trabalhadores não poderia ficar confinada às fronteiras nacionais.
Representante dos trabalhadores no Conselhão
Artur Henrique também foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (CDES), o chamado Conselhão, durante os governos Lula e Dilma Rousseff. Criado no primeiro governo Lula como espaço de diálogo entre trabalhadores, empresários, movimentos sociais e outros setores da sociedade civil, o CDES representava uma inovação democrática: reconhecer que as grandes decisões econômicas não deveriam permanecer confinadas aos gabinetes do governo, às diretorias dos bancos ou às mesas do mercado financeiro.
No Conselhão, Artur levou a voz organizada dos trabalhadores para o debate sobre o desenvolvimento brasileiro. Não estava ali para compor uma fotografia de conciliação social, mas para disputar prioridades e defender uma concepção de crescimento econômico associada à valorização do trabalho, à distribuição de renda e à ampliação dos direitos. Em uma de suas intervenções, advertiu contra a transformação da estabilidade monetária em dogma absoluto, como se proteger o valor da moeda fosse mais importante do que gerar empregos, elevar salários e combater a desigualdade.
Sua presença no CDES sintetizava uma convicção que atravessou toda a sua vida pública: os trabalhadores não podem ser chamados apenas para pagar a conta das crises ou executar decisões tomadas por outros. Devem participar da definição dos rumos do país. Para Artur, o diálogo social não significava apagar os conflitos de classe, mas reconhecê-los e criar condições democráticas para que o poder econômico não tivesse sempre a palavra final. Há registros de sua atuação no Conselhão durante o governo Lula e também na primeira plenária do órgão realizada no governo Dilma.
O sindicalista na gestão pública
Em 2014, Artur Henrique assumiu a Secretaria Municipal do Desenvolvimento, Trabalho e Empreendedorismo de São Paulo, durante a gestão de Fernando Haddad. Levou para o poder público a experiência acumulada nas negociações sindicais e na elaboração de políticas voltadas ao emprego, à inclusão produtiva, à economia solidária e ao desenvolvimento local.
Essa passagem pela administração municipal mostrou outra dimensão de sua trajetória. Artur sabia que governar em favor dos trabalhadores exige mais do que boas intenções. Exige planejamento, capacidade administrativa, diálogo social e instrumentos públicos capazes de produzir oportunidades concretas.
Sua experiência na Prefeitura de São Paulo foi posteriormente sistematizada no livro Desenvolvimento, Trabalho e Inovação: a experiência da cidade de São Paulo. Era a reflexão de quem não separava teoria e prática, formulação política e execução administrativa.
Mas seria injusto resumir Artur Henrique aos cargos que ocupou. Como registrou a Federação Nacional dos Urbanitários, sua importância estava também na capacidade de formulação e execução, na lealdade aos companheiros e na solidariedade que marcava suas relações pessoais e políticas. A nota da FNU recorda especialmente suas raízes entre os eletricitários.
Um legado que interpela o presente
Artur parte em um momento no qual o mundo do trabalho enfrenta transformações profundas. A precarização é apresentada como modernidade. A ausência de direitos recebe o nome sedutor de empreendedorismo. Trabalhadores submetidos a jornadas exaustivas são chamados de “parceiros” por plataformas que controlam seus horários, sua remuneração e até sua permanência no emprego por meio de algoritmos.
Ao mesmo tempo, voltam ao centro da agenda nacional bandeiras pelas quais Artur lutou durante décadas. A redução da jornada, o fim da escala 6×1, a proteção aos trabalhadores de aplicativos, o fortalecimento da negociação coletiva e a recuperação do poder de compra dos salários demonstram que a luta sindical não perdeu sua razão de existir. Ao contrário: tornou-se ainda mais necessária.
Os adversários do sindicalismo gostam de apresentar os direitos trabalhistas como obstáculos ao crescimento. Tentam apagar a história para convencer as novas gerações de que férias, descanso semanal, previdência, décimo terceiro salário e limites à jornada nasceram naturalmente. Não nasceram. Foram conquistados por homens e mulheres que se organizaram e enfrentaram interesses poderosos.
É por isso que recordar Artur Henrique não pode ser apenas um exercício de saudade. Sua memória precisa ser transformada em compromisso político. Homenageá-lo significa defender os sindicatos contra as campanhas de desmoralização, reconstruir a capacidade de organização nos locais de trabalho e encontrar novas formas de representar aqueles que vivem sob relações laborais fragmentadas e precárias.
Significa também reafirmar que democracia não se resume ao direito de depositar o voto na urna. Não existe democracia plena onde o trabalhador pode escolher o presidente da República, mas não tem voz diante do empregador; onde possui formalmente liberdade política, mas vive sob o medo permanente do desemprego, da fome e da perda de direitos.
Artur Henrique dedicou sua vida a ampliar essa democracia: a democracia que entra nas fábricas, nas empresas, nos serviços públicos e nas relações de trabalho; que transforma a maioria social em força política; que faz do desenvolvimento um processo de emancipação, e não um privilégio reservado aos mais ricos.
Sua ausência será sentida pela família, especialmente por sua filha Isabella, pelos amigos, pelos eletricitários, pela CUT, pelo Partido dos Trabalhadores e por todo o campo democrático e popular. Mas uma vida dedicada às causas coletivas não termina quando seu protagonista parte. Ela continua nas instituições que ajudou a construir, nas conquistas que ajudou a arrancar e nas gerações que seu exemplo ainda poderá formar.
Artur Henrique deixa o mundo dos vivos, mas permanece na história das lutas sociais brasileiras. E, para quem fez da própria existência uma trincheira em defesa da dignidade humana, não há homenagem mais justa do que manter a luta em movimento.
Artur Henrique, presente! Hoje e sempre.
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Fonte: GGN