A força das redes femininas na corrida de rua

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Foto: Divulgação/Olympikus
A força das redes femininas na corrida de rua

Grupos de mulheres praticam corridas, apoiam umas às outras e formam redes seguras para a prática esportiva


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Frente de esportes da Mídia NINJA. Articulamos atletas, técnicos, treinadores, jornalistas especializados, torcidas, torcedores e todo tipo de entusiasta

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14 de setembro de 2026

18:01

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Por Renan Paiva

Elas combinam o ponto de encontro na véspera. Chegam antes de o sol nascer e saem juntas. A rota já foi decidida em grupo, e ninguém corre sozinha: se alguém cansa, alguém volta junto. No fim, tiram fotos, tem café e conversa que não é sobre o pace.

A cena se repete todo fim de semana em dezenas de cidades brasileiras. É uma das razões pelas quais as mulheres se tornaram metade dos corredores do país e maioria nas provas com direito a medalhas. As redes femininas de corrida pegaram um esporte que sempre foi solitário e transformaram em prática coletiva. No caminho, criaram comunidade e um jeito próprio de ocupar a rua.

Por que elas correm juntas

A principal barreira dos homens para correr é falta de tempo. A das mulheres é o medo, e a palavra esconde coisas bem específicas: assédio, perseguição, violência sexual.

A fisioterapeuta Gessica Santin, da Universidade Federal do Paraná, ouviu mais de 400 corredoras em sua dissertação de mestrado. Mais de 60% já tinham sofrido algum tipo de assédio durante os treinos. Buzinas, comentários, mulheres seguidas na rua, mulheres fotografadas sem consentimento. O resultado é uma rotina de adaptação constante: troca de trajeto, troca de horário, bairros que ficam fora do mapa, a decisão de não sair sozinha.

O medo não é exagero. Um levantamento do Ipsos-Ipec mostrou que a rua é o principal lugar de assédio contra mulheres no Brasil, à frente do transporte público e do trabalho.

Como a rede funciona

A rota é definida com antecedência e evita áreas de risco. O horário é fixo, o que garante que sempre tenha gente. Se uma precisa reduzir o ritmo, outra reduz junto. A localização fica compartilhada, e em muitos grupos alguém assume a tarefa de conferir se todas chegaram em casa.

Existe também uma camada de formação. Corredoras experientes orientam quem está começando sobre ritmo, respiração, tênis, hidratação e prevenção de lesões. Fora dessas redes, esse tipo de conhecimento costuma estar trancado em assessoria paga. O ambiente também é menos intimidador que o dos grupos organizados em torno de performance, onde a iniciante desiste na terceira semana.

Correr em bando muda ainda a equação da visibilidade. Uma mulher sozinha às seis da manhã é uma exceção vulnerável. Trinta correndo juntas já são parte da paisagem, e quem passa se acostuma a ver mulheres ocupando aquele espaço.

Quem está na frente

No Rio, o Arte Corre Crew mostra o que muda quando a liderança é de quem historicamente ficou de fora. O grupo foi fundado em 2023 e tem o comando formado majoritariamente por mulheres negras: são quatro delas à frente, e um homem. Juce Ramos, de 39 anos, é uma das lideranças. Corre desde 2017 e descreve o coletivo como um encontro de gerações, com corredoras de todas as idades ocupando o asfalto juntas.

Também no Rio, as Chapadinhas de Endorfina saíram de uma comunidade online para treinos presenciais voltados às mulheres. A proposta é política mesmo sem usar a palavra: tirar a atividade física do território da estética e da punição e devolvê-la ao do prazer, o que não é pouco para corpos que passam a vida sendo medidos.

Em São Paulo e em outras capitais, o movimento aparece em formatos variados. Tem crew que mistura corrida com cultura e identidade, assessoria que abriu turma feminina, grupo de bairro que nasceu de um chamado no WhatsApp. As inscrições feitas em grupo viraram um canal relevante nas provas do país, segundo a Ticket Sports, e o estudo da Olympikus registrou queda no número de corredores que treinam sozinhos.

O que essas redes constroem

O efeito vai além da segurança do trajeto. Ao criar espaços próprios, mulheres passaram a ocupar posições de liderança num mercado esportivo dominado por homens. Organizam provas, comandam assessorias, definem calendário, negociam patrocínio.

Colocaram na mesa temas que antes não se discutia em grupo de corrida: assédio na rua, machismo em prova, a diferença entre correr por saúde e correr como punição estética. E mudaram o sentido da própria prática, que deixou de ser só busca por tempo.

Para muitas, o treino é o único compromisso da semana que é só delas. Num país onde a jornada dupla ou tripla é a norma, o tempo livre feminino costuma ser o primeiro a ser cortado.

A rede não substitui a cidade

Existe um limite nessa história. Essas redes são uma solução que as mulheres construíram para um problema que não é delas.

A pesquisa da UFPR mostra que quem corre nas ruas ainda é, em boa parte, mulher branca, com escolaridade e renda altas, moradora de região central. Nos bairros periféricos, corredoras quase não aparecem. Correr exige tempo livre, rua iluminada, calçada inteira e praça cuidada, e o Estado distribui essa infraestrutura de forma desigual pelo território. O esporte que supostamente não precisa de nada precisa de cidade.

A própria pesquisadora aponta o caminho institucional: segurança urbana, iluminação, revitalização de espaços públicos, programas gratuitos de incentivo em bairros periféricos. E acrescenta um argumento que costuma ficar de fora do debate esportivo. Quando o medo impede uma mulher de se exercitar, isso também é questão de saúde pública.

Celebrar as crews femininas sem cobrar o poder público seria transformar a autodefesa organizada em desobrigação do Estado. Elas fizeram a parte delas, e fizeram bonito: criaram comunidade onde havia isolamento.

O resto depende de quem tem orçamento e mandato. Correr na própria cidade, a qualquer hora, sem calcular rota de fuga, não deveria precisar ser uma conquista coletiva.

Serviço

Como encontrar ou criar uma rede feminina de corrida:

  • Buscar no Instagram e no Strava por termos como “crew feminina”, “corrida mulheres” e o nome da sua cidade.
  • Procurar assessorias esportivas com turmas ou projetos voltados a mulheres.
  • Perguntar em lojas de artigos esportivos e academias, que costumam ser os pontos de encontro ou divulgar esses grupos.
  • Começar um grupo próprio com amigas ou colegas de trabalho, com rota fixa, horário combinado e o básico: ninguém corre sozinha, ninguém fica para trás, localização compartilhada.

Fonte: Mídia NINJA

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