PF aponta pedido de apoio do PCC a Vorcaro durante prisão em SP

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Por Leonardo LucenaBrasil 247

247 – Integrantes da chamada “Turma”, grupo investigado pela Polícia Federal por suspeita de atuar em ações clandestinas relacionadas ao caso Banco Master, teriam buscado apoio do PCC para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro durante o período em que o ex-banqueiro permaneceu preso em São Paulo. As  conversas mostram uma tentativa de acionar integrantes da facção para prestar assistência a Vorcaro dentro da unidade prisional. O relato foi divulgado nesta segunda-feira (14) na coluna de Natália Portinari, no Portal Uol. 

O ministro do Supremo Tribunal Federal retirou o sigilo do caso Master, o que revelou novos detalhes das investigações. Os diálogos envolveram Luiz Phillipi Mourão, conhecido como Sicário, e Manoel Mendes Rodrigues, o Manolo Dom, bicheiro do Rio de Janeiro apontado pela investigação como integrante da “Turma” e destinatário de recursos de Vorcaro. As mensagens datam de novembro de 2025, quando o ex-controlador do Banco Master estava no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Guarulhos (SP).

O ex-banqueiro foi detido em 17 de novembro de 2025 pela Polícia Federal e transferido para o CDP sete dias depois. Em 29 de novembro, ele deixou a prisão mediante uso de tornozeleira eletrônica, mas voltou a ser preso. Em 5 de março de 2026, Vorcaro foi para a Penitenciária II de Potim (SP). No dia seguinte, ele deixou o estado para cumprir pena no Distrito Federal após investigadores apontarem risco de interferência nas apurações da Compliance Zero, da PF, que investiga um esquema bilionário de fraudes financeiras.

A documentação analisada pela PF sobre o suposto elo entre Vorcaro e o PCC registrou uma mensagem atribuída a Mourão na qual ele apresenta Vorcaro como alguém próximo ao grupo e pede apoio para o empresário. “Ele é amigo nosso e apoia nossa quadrilha e a nossa regional (da facção) em diversos sentidos”, diz uma das mensagens atribuídas a Sicário.

Considerado uma espécie de “braço direito” de Vorcaro, Sicário tentou suicídio numa cela penitenciária em Minas Gerais. Conforme investigadores, o ajudante do ex-banqueiro seria responsável pelo monitoramento e obtenção de informações sigilosas de pessoas consideradas adversárias dos interesses do empresário.

Presente em mais de 20 estados brasileiros, o PCC nasceu no estado de São Paulo em 1993 e é a principal facção criminosa do Brasil junto com o Comando Vermelho (CV), que nasceu no estado do Rio de Janeiro durante os anos 80. 

Grupo discutiu contato com liderança em São Paulo

Nas conversas, Manolo demonstrou preocupação com a adaptação de Vorcaro ao ambiente prisional. Ele afirmou que poderia procurar contatos em São Paulo para buscar apoio ao ex-banqueiro.

“Se precisar eu dou um pulo em São Paulo e vou falar com os caras do meu ramo de lá. Eles vai direto no 01 do time. 3 letras”, escreveu Manolo.

Em outro momento, ele enviou um áudio no qual comentou a reação de Vorcaro à prisão. “Eu tava olhando aqui, negócio de medo dele né, que ele deu chilique e o caralho… Isso é normal porque, porra, moleque não é do teu mundo né, não é do meu mundo. O negócio dele é ver estrela porra”, afirmou.

Segundo o conteúdo analisado pela Polícia Federal, Manolo também disse que conhecia o “01” de São Paulo, expressão que, no contexto das mensagens, aparentemente fazia referência a uma liderança regional do grupo criminoso. Ele afirmou que pretendia pedir que essa pessoa orientasse outros presos sobre Vorcaro.

A intenção, segundo a mensagem, era avisar que “esse amigo que tá lá é amigo, é parceiro, pra dar uma assistência pro moleque lá dentro, entendeu?”. “Aí o partido, aí o resultado vem de cima”, acrescentou Manolo.

Mensagem citava a “sintonia Tiradentes”

Após a conversa, Mourão redigiu uma mensagem que, segundo o relatório, seria encaminhada a contatos ligados ao PCC e também alcançaria Vorcaro na prisão. “No envio sintonia Tiradentes”, aparece no cabeçalho da comunicação. O PCC utiliza o termo “sintonia” para identificar estruturas internas de comando e organização.

Na sequência, Mourão escreveu: “Nós da Tiradentes estamos enviando esse breve, para pedir um apoio para o companheiro Daniel Bueno Vorcaro, que se encontra no R.O. da unidade, ele é amigo nosso e apoia a nossa quadrilha e a nossa regional”.

Depois de receber o texto, Manolo encaminhou a mensagem a um advogado e pediu que ele a levasse a contatos ligados ao crime organizado, conforme o relatório da PF citado pelo UOL.

O advogado perguntou em qual unidade Vorcaro estava e disse que poderia “entrar” no caso, mas precisava receber instruções.

Manolo respondeu: “Ainda não. Primeiro ele tem que entender que tem uma força por trás que pode ajudar ele”.

PF registrou transferência de R$ 10 mil a advogado

Segundo a investigação, Manolo transferiu R$ 10 mil ao advogado na tarde seguinte à troca de mensagens. No mesmo período, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região concedeu habeas corpus a Vorcaro. O ex-banqueiro deixou a prisão após a decisão.

O relatório não afirma de forma conclusiva que a articulação descrita nas mensagens resultou efetivamente em proteção por integrantes do PCC dentro da prisão. A PF avalia que os diálogos podem indicar uma tentativa de mobilizar pessoas ligadas à facção em favor de Vorcaro.

Mourão também mencionou contato com autoridade penitenciária

As mensagens ainda mostram que Mourão afirmou que tentaria procurar o secretário de Administração Penitenciária de São Paulo. O relatório da Polícia Federal não concluiu se ele efetivamente realizou esse contato.

Manolo permanece preso e é investigado por suspeita de organizar ações violentas atribuídas pela PF a ordens de Vorcaro.

Mourão morreu após uma tentativa de suicídio depois de ter sido preso preventivamente pela Polícia Federal, segundo informações citadas pelo UOL e por relatório policial.

A apuração sobre as conversas integra o conjunto de investigações relacionadas ao Banco Master, aos negócios de Daniel Vorcaro e à atuação de pessoas apontadas pela Polícia Federal como integrantes da chamada “Turma”.

Esquema do Master

Criada em 2024, a Operação Compliance Zero investiga a suspeita de que instituições do Sistema Financeiro Nacional tenham emitido títulos de crédito fraudulentos. De acordo com a apuração, essas empresas teriam lançado operações de crédito inexistentes, simulando empréstimos e outros valores a receber. Após a validação contábil pelo Banco Central, esses créditos e títulos de dívida suspeitos eram substituídos por outros ativos sem a análise técnica adequada.

O Banco Master obtinha recursos por meio da emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), aplicações de renda fixa com remuneração definida antecipadamente. Esse investimento costuma ser visto como seguro porque conta com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Sob o controle de Daniel Vorcaro, o banco oferecia rendimentos muito superiores aos praticados no mercado. Enquanto instituições costumam pagar CDBs próximos de 100% da taxa de juros de referência, o Master chegou a oferecer rentabilidade de até 140%. Essa política aumentava o risco para os credores e fazia com que parte de uma eventual perda fosse absorvida pelo FGC.

Na prática, o investidor empresta dinheiro à instituição financeira e recebe, no vencimento, o valor aplicado acrescido dos juros contratados. O Master emitiu R$ 50 bilhões em CDBs com remuneração acima das taxas de mercado sem demonstrar que possuía liquidez suficiente para pagar esses papéis no futuro.

Para sustentar uma aparência de solidez financeira, o banco teria registrado aplicações em ativos inexistentes e comprado créditos de uma empresa sem capacidade de honrar suas dívidas. Depois, teria repassado esses créditos ao BRB, que desembolsou R$ 12,2 bilhões sem a documentação necessária. Segundo as investigações, a operação ajudou a reforçar artificialmente o caixa do Master.

Fonte: Brasil 247

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