Irapuan Costa Junior e a Celg: quando dois anos valeriam por muitos

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Por RedaçãoJornal Opção

Irapuan Costa Junior e a Celg: quando dois anos valeriam por muitos

Salatiel Soares Correia

Especial para o Jornal Opção

Este artigo nasceu de uma indagação feita por um amigo a este escriba. Perguntou-me ele:

— Salatiel, Irapuan Costa Júnior foi presidente das Centrais Elétricas de Goiás por apenas dois anos. A CELG teve presidentes que permaneceram seis, oito anos ou até mais no comando da empresa. Como pode ele ter realizado, em tão pouco tempo, aquela que você considera a melhor gestão de toda a história da companhia?

Boa pergunta. E boa pergunta merece resposta.

Vamos, pois, aos argumentos.

O primeiro deles é relativamente simples: o tempo de um administrador não se mede apenas pelo calendário, mas pelas transformações que ele é capaz de produzir. Há dirigentes que permanecem muitos anos no poder e deixam poucas marcas. Outros passam rapidamente e mudam o rumo de uma instituição. Irapuan Costa Júnior pertence, a meu juízo, a essa segunda categoria.

Sua passagem pela presidência da CELG ocorreu entre 1971 e 1973. Foram aproximadamente dois anos, mas anos de extraordinária intensidade administrativa. Irapuan compreendeu que a CELG não poderia ser apenas uma empresa executora de obras. Precisava ser uma instituição capaz de pensar o desenvolvimento energético de Goiás com antecedência, competência técnica e visão estratégica.

Irapuan Costa Junior (centro) com José Carlos de Almeida e Alfredo Moutinho dos Reis | Foto: Reprodução

Essa distinção é fundamental.

A gestão Irapuan não se limitou a administrar a CELG. Ele reorganizou a capacidade da empresa de planejar e executar.

Consolidou e fortaleceu sua estrutura técnica, valorizando engenheiros, técnicos e profissionais especializados. Planejamento, engenharia, financiamento e expansão do sistema passaram a fazer parte de uma mesma visão empresarial. Dessa maneira, consolidava-se uma verdadeira tecnoestrutura dentro da companhia.

Não se tratava simplesmente de construir uma subestação aqui ou uma linha de transmissão acolá. Era necessário perguntar onde Goiás estaria dez ou vinte anos depois, quanto de energia demandaria, onde estariam os novos mercados consumidores e quais investimentos precisariam ser preparados antecipadamente.

Irapuan pensava dessa maneira.

Um dos maiores exemplos dessa visão encontra-se na expansão de Cachoeira Dourada, empreendimento fundamental para a história energética de Goiás. A terceira etapa da usina representava muito mais do que aumento da capacidade de geração. Significava criar condições para atender ao crescimento do mercado goiano e, simultaneamente, produzir excedentes de energia que poderiam ser comercializados fora do Estado.

Aqui é importante fazer uma precisão histórica. A terceira etapa seria concluída e inaugurada posteriormente, quando Irapuan já ocupava o Governo de Goiás. Entretanto, sua passagem pela CELG esteve diretamente relacionada ao encaminhamento da expansão, inclusive à busca de alternativas para seu financiamento.

Irapuan não via em Cachoeira Dourada apenas uma usina. Via energia para um Estado que cresceria. Não via numa linha de transmissão apenas torres e cabos. Via regiões sendo incorporadas ao desenvolvimento. Não via no planejamento apenas números e projeções. Via o Goiás que ainda estava por vir

Diante das dificuldades para obter recursos pelos caminhos convencionais, Irapuan procurou novas fontes de financiamento, inclusive no mercado financeiro internacional. Era uma demonstração de que enxergava a CELG não apenas como uma concessionária estadual, mas como uma empresa que precisava mobilizar capital para financiar sua própria expansão.

Com a ampliação de Cachoeira Dourada, Goiás passou a dispor de energia para sustentar seu mercado interno e comercializar excedentes. Isso possuía significado econômico muito maior do que simplesmente acrescentar megawatts ao sistema. Energia abundante significava criar infraestrutura para a industrialização, a urbanização, a modernização da agricultura e o desenvolvimento econômico.

Outra frente importante foi a própria capitalização da companhia. A CELG buscou recursos no mercado de capitais e colocou ações na Bolsa de Valores de São Paulo. Para uma empresa estadual goiana daqueles tempos, tratava-se de movimento empresarial relevante e revelador da mentalidade de sua administração.

Há ainda outro capítulo que precisa ser lembrado: o Vale do Araguaia.

Ernesto Geisel e Irapuan Costa Junior, na década de 1970 | Foto: Reprodução

Os anos de atuação de Irapuan no setor elétrico e, posteriormente, no Governo de Goiás estiveram associados à ideia de levar infraestrutura energética ao Vale do Araguaia. O Plano de Eletrificação do Vale do Araguaia, ganharia materialização posterior, já durante seu governo estadual. Portanto, não seria historicamente correto atribuir sua execução integral aos dois anos de presidência da CELG. Mas seria igualmente equivocado separar completamente o projeto da concepção de desenvolvimento que marcou sua trajetória.

Para Irapuan, eletrificação não constituía um fim em si mesma.Era instrumento de desenvolvimento e de integração econômica do território.

Levar energia para regiões ainda pouco integradas significava abrir caminhos para a produção, estimular novos investimentos, favorecer o crescimento das cidades e incorporar áreas economicamente distantes ao processo de desenvolvimento de Goiás. Energia, nesse sentido, transformava-se em política de desenvolvimento regional.

Talvez esteja aí uma das características que melhor expliquem Irapuan Costa Junior.

Ele não enxergava apenas a obra. Enxergava aquilo que a obra poderia produzir ao seu redor.

Ao deixar a presidência, a CELG havia adquirido dimensão e reconhecimento que ultrapassavam as fronteiras de Goiás. Registros e depoimentos sobre aquele período situam a companhia entre as empresas de destaque do setor elétrico nacional, chegando a ser apontada como a sexta entre cerca de sessenta  e quatro empresas integrantes daquele universo empresarial.

Esse dado é particularmente significativo porque Goiás ainda estava muito distante do peso econômico que adquiriria posteriormente. Fazer uma concessionária de um Estado do Centro-Oeste alcançar posição de destaque no sistema elétrico brasileiro dizia muito sobre a qualidade de sua engenharia, de seus profissionais e de sua administração.

Naturalmente, a história da CELG não foi construída por um único homem.

A companhia teve outros presidentes de grande capacidade. Otto Nascimento e Joaquim Guedes de Amorim Coelho, entre outros, merecem lugar de destaque na memória da empresa e deram contribuições importantes para sua consolidação.

Entretanto, em minha avaliação, Irapuan Costa Júnior ocupou uma posição singular.

Irapuan Costa Júnior e Salatiel Correia | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

E a razão não está simplesmente no número de obras realizadas.

Está na sua extraordinária capacidade de associar engenharia, planejamento, administração e imaginação política.

Irapuan possuía uma qualidade rara: conseguia olhar para uma empresa de energia e enxergar além dos limites da própria empresa. Onde outros poderiam enxergar uma usina, ele enxergava o  desenvolvimento. Onde poderiam enxergar uma linha de transmissão, ele percebia a possibilidade de integrar economicamente uma região. Onde poderiam enxergar apenas uma estrutura administrativa, ele percebia a necessidade de formar quadros técnicos capazes de pensar o futuro.

É isso que chamo de visão estratégica. E aqui retorno à pergunta do amigo que provocou este artigo:

— Como um homem que permaneceu aproximadamente dois anos na presidência pôde deixar marca tão profunda, enquanto outros permaneceram muito mais tempo?

A resposta, a meu juízo, tornou-se clara.Porque tempo de permanência no poder e grandeza administrativa são coisas diferentes.

Presidentes que permaneceram muitos anos no comando da empresa tiveram, evidentemente, mais tempo para realizar. Mas o tempo, sozinho, não produz grandeza administrativa. É necessário saber o que fazer com ele.

Irapuan tinha algo que não se adquire simplesmente ocupando uma cadeira de presidente: cultura, capacidade técnica, imaginação política e visão de futuro.

Existe uma distância enorme entre o administrador que simplesmente executa ou acompanha obras e aquele que compreende por que elas devem ser feitas, de onde virão os recursos, como se integram a um projeto maior e quais transformações econômicas poderão produzir vinte ou trinta anos depois.

Os primeiros podem ser excelentes executores.Os segundos são construtores de instituições e de futuro.

Por isso, sem diminuir a contribuição dos muitos homens competentes que passaram pela presidência da CELG, mantenho a resposta ao amigo que me fez a pergunta que deu origem a estas linhas:

Irapuan Costa Júnior foi, a meu juízo, o mais importante presidente da história das Centrais Elétricas de Goiás.

Sua importância não pode ser medida apenas pelas obras realizadas durante os dois anos em que ocupou a presidência. Deve ser medida, sobretudo, pela direção que imprimiu à companhia. Fortaleceu sua inteligência técnica, valorizou o planejamento, procurou novas formas de financiamento e compreendeu que uma empresa de energia deveria estar a serviço de algo muito maior: o desenvolvimento de Goiás.

Mario Bhering, Leonino di Ramos Caiado e Irapuan Costa Junior na Eletrobrás | Foto: Reprodução

Depois da CELG, sua trajetória alcançaria outros espaços da vida pública. Seria governador de Goiás, senador da República e exerceria outras funções relevantes. Mas já na CELG estava presente uma característica que acompanharia sua vida pública: a capacidade de transformar conhecimento técnico em projeto de desenvolvimento.

É por isso que os seus dois anos valeram por muitos.

Há dirigentes que passam oito anos por uma instituição e deixam obras.

Outros permanecem dois e deixam um rumo.

Irapuan Costa Júnior deixou um rumo.

Como já escrevi em outras oportunidades, considero Irapuan um dos mais talentosos gestores públicos que Goiás produziu. E, ao encerrar estas linhas, volto a uma comparação que há muito me acompanha.

Guimarães Rosa definiu Juscelino Kubitschek como “o poeta da obra pública”.

A expressão é extraordinária porque o poeta vê aquilo que os outros ainda não conseguem enxergar. Onde muitos veem apenas concreto, aço, máquinas e números, ele antecipa a transformação que poderá nascer dali.

Foi essa, a meu ver, uma das grandes qualidades de Irapuan.

Ele não via em Cachoeira Dourada apenas uma usina. Via energia para um Estado que cresceria. Não via numa linha de transmissão apenas torres e cabos. Via regiões sendo incorporadas ao desenvolvimento. Não via no planejamento apenas números e projeções. Via o Goiás que ainda estava por vir.

Salatiel Soares Correia é engenheiro, administrador de empresas, mestre em Energia pela Unicamp. Membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. É autor de Uma falência Mais que anunciada: o Caso da Celg e a Energia na Região do Agronegócio. É colaborador do Jornal Opção.

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Fonte: Jornal Opção

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