O conto de fadas da Segurança Pública de Tarcísio

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Por Mário MauriciBrasil 247

A Segurança Pública é hoje, segundo as pesquisas de opinião, a maior preocupação de quem vive no Estado de São Paulo. Área de pior avaliação de todas, à frente dos problemas de Saúde, Economia e Desemprego, a segurança preocupa pelo crescimento vertiginoso de crimes como tentativa de homicídio, agressões, feminicídios e roubo de celulares. Boa parte desses crimes foram registrados em câmeras de vigilância que revelam diversas cenas de violência extrema.

Mas em vez de enfrentar o problema e apresentar propostas para superá-lo, o governador Tarcísio de Freitas pinta um quadro colorido, um verdadeiro “conto de fadas”, no qual a segurança em São Paulo é boa. Uma narrativa que contrasta profundamente com o medo crescente que invade a vida das pessoas. Medo de sofrer violência, medo de morrer, medo de ter o celular roubado e, para as mulheres, muito medo de serem violentadas.

Por trás dos roubos de celulares, está uma cadeia extensa de criminalidade que precisa ser combatida e se soma ao aumento vertiginoso dos crimes praticados no meio digital. Mesmo o roubo e furto de celulares, realizados de forma violenta nas ruas, têm como objetivo maior o acesso aos aplicativos bancários armazenados nos aparelhos. Essa migração para a esfera digital dos crimes patrimoniais, estelionatos, chantagens, extorsões, ligações telefônicas e propaganda enganosa modifica a forma da violência, mas não a sensação de medo e vulnerabilidade.

Tudo isso se combina à ascensão do crime organizado, que não só multiplicou sua capacidade financeira, como diversificou as frentes de atuação com presença direta no tráfico de drogas, armas e crimes digitais. O crime organizado passou a ocupar espaços nas instituições públicas, conseguiu eleger políticos alinhados e criou mecanismos cada vez mais sofisticados para a lavagem de dinheiro operada por instituições, inclusive, da Avenida Faria Lima criadas ou contratadas para esse fim.

É esse conjunto de problemas que reforça a percepção de insegurança nas pessoas, colocando-o como o problema de maior gravidade. Enfrentar a violência e o crime organizado nesse cenário exige medidas que atuam diretamente sobre as conexões dessa rede criminosa. Políticas articuladas, que envolvam diversos órgãos estatais e a participação dos governos federal e estaduais, para combater as quadrilhas e esquemas criminosos.

A operação Carbono Oculto, que a Polícia Federal realizou na Avenida Faria Lima, foi uma mega ofensiva que desarticulou um esquema de lavagem de dinheiro do PCC e contou com a participação da Receita Federal e do Ministério Público de São Paulo. Como bem disse à época Fernando Haddad, trata-se de uma operação que chegou ao andar de cima da lavagem de dinheiro, estrangulando a rede financeira da criminalidade.

Por parte do Governo Lula, há também o programa Celular Seguro, de combate aos roubos e furtos de aparelhos e ao mercado ilegal de celulares. O programa cria uma ferramenta que bloqueia imediatamente o aparelho e dificulta que quem rouba possa utilizá-lo em seguida. Isso também gera obstáculos à revenda dos celulares roubados. E quem vai comprar um celular usado também pode consultar o número de registro para saber se o aparelho tem algum registro de roubo, furto ou extravio.

É esse tipo de medida que a população espera. Política que deve ser associada ao aumento da presença e da eficiência policial nas ruas, sem truculência e sem desvios de orientação que levam ao policial, lá na ponta, a ultrapassar os limites de sua atividade.

Mas, além de não adotar medidas concretas e de combate à criminalidade, a gestão Tarcísio ainda criou obstáculos para uma ação de Segurança Pública conjunta com o governo federal. Junto com outros governadores da oposição bolsonarista, Tarcísio trabalhou contra a aprovação da PEC da Segurança Pública, proposta que tem o objetivo de aumentar a integração e a coordenação entre União, Estados e municípios no combate à criminalidade. Pelo texto, o governo federal passa a ter um papel mais claro, importante e estruturado nas ações nacionais de segurança, que hoje são definidas pela Constituição como papel dos governadores.

Ao apresentar seu programa de governo, Tarcísio vai na contramão dessas expectativas e defende a continuidade da mesma política que usou até aqui e que, como revela o sentimento da população de São Paulo, gera medo e insatisfação. No “conto de fadas” de Tarcísio, expresso em seu programa de governo, tudo está melhorando e o sentimento das pessoas demora a mudar. Ou seja, a responsabilidade pela sensação de insegurança não é dele, mas das pessoas que são as vítimas da criminalidade.

Se jogarmos lupa nos casos de estelionato, por exemplo, cuja maioria é de crimes digitais, vamos ver que quase dobraram em dois anos: saíram de cerca de 459 mil, em 2023, para mais de 830 mil, em 2025. O mesmo se verifica com os furtos e roubos de celulares: subiram de quase 240 mil para mais de 270 mil. As lesões corporais, por sua vez, também aumentaram: de mais de 196 mil para cerca de 240 mil. As tentativas de homicídio subiram 37%, saindo de 2.767 para 3.785. E os feminicídios subiram 76,5% no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo dados do Instituto Sou da Paz, ou 93,5% em relação a 2022, quando Tarcísio foi eleito governador. Isso significa que a cada 25 horas, uma mulher é vítima de violência no Estado de São Paulo.

A gravidade e a quantidade inaceitável dos crimes citados, e de seus impactos na vida das vítimas e de toda a sociedade, não autorizam um governador sério a pintar um cenário positivo no atual momento. É brincar com a insegurança que as pessoas vivenciam todos os dias. 

Tarcísio fala de uso da tecnologia, mas desde que assumiu o cargo trabalhou contra o uso das câmeras nos uniformes dos policiais, ferramenta importante para uma política de segurança eficiente e comprometida com as pessoas. Isso porque sua gestão incentiva a violência policial e não possui uma política consistente e articulada para enfrentar o crime organizado.

Não podemos esquecer que, em vez de dar um salto na Segurança Pública, a gestão Tarcísio mostrou-se leniente com a presença de suspeitos de ligações com PCC na cúpula das polícias. Também não melhorou a estrutura e as diretrizes das forças de segurança, levando a Polícia Civil, por exemplo, a lidar com um quadro de precariedade em termos de salários, efetivo e equipamentos. A capacidade de investigação policial e a instrução adequada dos processos criminais ficam severamente comprometidas.

Mas o povo de São Paulo tem alternativa. O programa de governo de Fernando Haddad traz ideias para enfrentar o crime organizado, a partir de uma abordagem de integração das forças policiais, coordenação com os órgãos estaduais de controle e parceria com a União, como consta na PEC da Segurança. A proposta de Haddad é criar a Agência Estadual Antifacção, com a participação das cúpulas das polícias estaduais, da receita estadual e do Ministério Público de São Paulo. A agência atuará em conjunto com a PF, a Receita Federal, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) e o Banco Central.

O crime organizado atua hoje em diversos espaços muito além das prisões, da periferia das cidades e das ruas. Opera em portos, aeroportos, na distribuição de combustíveis e no mercado financeiro, para a lavagem do dinheiro arrecadado no tráfico de drogas e na comercialização ilegal de armas e munições. Afinal, foi no vácuo dessa ausência de articulação que o PCC e outras facções criminosas cresceram.

Por isso, Tarcísio ser contra a PEC da Segurança é o mesmo que ser contra combater a criminalidade. Ao recusar a ação integrada, a cooperação entre os órgãos estatais e sabotar a PEC da Segurança, Tarcísio mostra que não é coincidência a infiltração do crime organizado na cúpula das polícias e no alto escalão de seu governo, como nas fraudes bilionárias do ICMS na Secretaria da Fazenda. Como bem disse Haddad, Tarcísio perdeu o controle da segurança no Estado de São Paulo.

Afinal, quando se dá espaço para o crime organizado avançar e não existem políticas articuladas para enfrentá-lo, as quadrilhas aproveitam e ocupam. Está na hora de promover um choque de realidade e parar de produzir “contos de fada” para fingir que está tudo bem. A situação exige responsabilidade.

Fonte: Brasil 247

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