Xi Jinping propõe “quatro pioneiros” para orientar o BRICS ampliado
Por José Reinaldo — Brasil 247
247 – A agenda dos “quatro pioneiros” orientará as propostas do BRICS ampliado para inovação, paz, diálogo entre civilizações e reforma da governança global após a 18ª Cúpula do bloco, realizada em Nova Délhi. As prioridades foram apresentadas pelo presidente da China, Xi Jinping, como uma diretriz para a próxima década de cooperação entre os países do grupo.
A avaliação foi publicada em editorial do jornal chinês Global Times, que atribuiu à iniciativa a capacidade de reforçar o peso político e econômico do BRICS em um cenário marcado por tensões geopolíticas, protecionismo e dificuldades de coordenação multilateral. A cúpula terminou com a aprovação da Declaração de Nova Déli, documento que reúne os principais consensos alcançados pelos integrantes.
Em seu discurso, Xi defendeu que o BRICS assuma quatro funções centrais: promover o desenvolvimento impulsionado pela inovação, preservar a paz e a estabilidade, estimular o aprendizado entre civilizações e atuar pela reforma da governança global.
Segundo o editorial, os quatro eixos — desenvolvimento, segurança, civilização e governança — formam um roteiro para a atuação do grupo em sua terceira década. O jornal sustenta que a plataforma precisa transformar sua expansão política em projetos concretos capazes de beneficiar mercados emergentes e países em desenvolvimento.
Inovação ocupa o centro da estratégia
O desenvolvimento tecnológico aparece como a primeira prioridade da agenda. A avaliação apresentada pelo Global Times é que a inovação científica passou a exercer influência decisiva sobre a competitividade, a produtividade e a distribuição do poder econômico mundial.
Ao mesmo tempo, parte dos integrantes do BRICS ainda enfrenta limitações no domínio de tecnologias estratégicas e na capacidade de converter pesquisa científica em inovação industrial. Nesse contexto, Xi apresentou cinco frentes de cooperação: inteligência artificial de código aberto e inclusiva, facilitação do comércio e dos investimentos, indústria digital, manufatura inteligente e formação de profissionais em ciência e tecnologia.
A China anunciou a intenção de liderar a criação de uma comunidade de inteligência artificial de código aberto no âmbito do BRICS. O país também pretende promover uma plataforma de computação em nuvem voltada ao ecossistema digital do bloco.
Segundo o editorial, essas iniciativas buscam ampliar o acesso dos países do Sul Global às novas tecnologias e reduzir desigualdades decorrentes da concentração de conhecimento, infraestrutura e capital nas economias mais avançadas.
O texto também afirma que o 15º Plano Quinquenal chinês deverá funcionar não apenas como uma estratégia interna de desenvolvimento, mas como uma base para novos projetos de cooperação internacional. Pequim pretende associar suas metas econômicas e tecnológicas a parcerias com os demais integrantes do BRICS.
Declaração defende diplomacia e rejeita coerção unilateral
A Declaração de Nova Déli enfatizou a solução pacífica de disputas internacionais por meio do diálogo, da consulta e da diplomacia. O documento também registrou oposição a medidas coercitivas unilaterais consideradas incompatíveis com o direito internacional.
Para o Global Times, o posicionamento ganha relevância justamente porque os integrantes do BRICS possuem interesses nacionais, sistemas políticos e avaliações geopolíticas diferentes. A existência dessas divergências não impediu a formação de consensos em torno do fortalecimento do multilateralismo e da rejeição a instrumentos unilaterais de pressão.
“O multilateralismo vivo não silencia vozes divergentes”, afirma o editorial. “Permite que países com diferenças tenham tanto a vontade quanto a capacidade de se coordenarem em questões importantes e encontrarem o maior consenso possível.”
O jornal argumenta que a diversidade do bloco pode ser uma fonte de força política quando acompanhada de mecanismos permanentes de negociação. A capacidade de acomodar diferenças, segundo essa visão, distingue o BRICS de alianças baseadas em alinhamentos políticos rígidos.
Cooperação econômica avança para pagamentos e cadeias produtivas
Ao longo de duas décadas, o BRICS estruturou sua atuação sobre três pilares: articulação política e de segurança, cooperação econômica e financeira e intercâmbio entre as sociedades de seus integrantes.
Uma das principais iniciativas desse processo é o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD). Segundo os dados apresentados pelo editorial, a instituição já aprovou mais de 140 projetos, com financiamento total próximo de US$ 44 bilhões.
A declaração aprovada em Nova Déli recomenda a continuidade dos trabalhos para desenvolver sistemas de pagamentos internacionais mais rápidos, baratos, acessíveis, eficientes, transparentes e seguros. O tema tornou-se estratégico diante da expansão do comércio entre os integrantes e da busca por alternativas que reduzam custos e vulnerabilidades nas transações transfronteiriças.
O documento também propõe aprofundar a cooperação em zonas econômicas especiais, cadeias de valor e padrões produtivos. A intenção é conectar investimentos, capacidade industrial e mercados consumidores dos países do bloco, ampliando o impacto econômico da articulação política.
Na avaliação do Global Times, esses mecanismos mostram que o BRICS pretende ir além de declarações diplomáticas. “O ‘BRICS ampliado’ não é um fórum de debates. É uma plataforma da qual os mercados emergentes e os países em desenvolvimento realmente se beneficiam”, afirma o texto.
Expansão elevou alcance do bloco
O editorial associa o crescimento do BRICS a uma concepção de cooperação aberta e não subordinada a alianças fechadas. Nesse processo, destaca a participação chinesa na formulação do modelo “BRICS Plus”, na incorporação de novos integrantes e na defesa de uma cooperação de maior qualidade dentro do grupo ampliado.
Ao completar 20 anos, o BRICS procura adaptar sua estrutura a um número maior de participantes e parceiros. A ampliação aumenta sua representatividade, mas também exige maior capacidade de coordenação entre economias com dimensões, prioridades e níveis de desenvolvimento distintos.
Para o jornal chinês, o desafio será preservar a diversidade do bloco enquanto se constroem resultados comuns nas áreas de tecnologia, infraestrutura, comércio, finanças e governança internacional. O editorial considera que a efetividade da próxima década dependerá principalmente da execução das propostas anunciadas e da consolidação de instrumentos permanentes de cooperação.
China assumirá presidência em 2027
A China ocupará a presidência rotativa do BRICS em 2027 e sediará a 19ª Cúpula do grupo. Será a quarta vez que o país conduzirá os trabalhos do bloco.
O Global Times relembra que, em 2011, durante uma presidência chinesa, a África do Sul foi convidada a participar da articulação. Em 2017, Pequim promoveu o formato “BRICS Plus”, destinado a aproximar outros mercados emergentes e países em desenvolvimento. Em 2022, a China defendeu uma nova etapa de expansão e aprimoramento da cooperação.
Com a próxima presidência, Pequim deverá priorizar a aplicação das cinco iniciativas apresentadas por Xi em Nova Délhi e aprofundar a integração tecnológica e econômica. O encontro de 2027 também servirá para medir quanto da agenda dos “quatro pioneiros” avançou da formulação política para projetos concretos dentro do BRICS ampliado.
Fonte: Brasil 247