As corporações de mídia brincam de novo com o fogo do fascismo
Por Moisés Mendes — Brasil 247
É errática, por vocação, a caminhada das corporações de mídia até aqui, quando estamos a três semanas do primeiro turno em 4 de outubro. É confusa porque parte das organizações ainda aposta no imponderável da alternativa da terceira via ou em algum milagre que possa livrá-los de Lula e de Flávio Bolsonaro.
Mas como será a postura das corporações no segundo turno, considerando-se os muitos fatores envolvidos, entre os quais a submissão crônica a algumas das principais pautas da extrema direita, disfarçadas como bandeiras liberais?
O jornalismo, que às vezes escapa do controle dos que tentam mantê-lo sob um comando quase absoluto, como aconteceu na ditadura, andará com as próprias pernas? O jornalismo raiz será mais forte do que o colaboracionismo e a covardia de patrões cada vez menos jornalistas?
Os menos pessimistas podem acreditar que sim. As corporações já não estão conseguindo controlar a guerra pela busca de informações no que ainda resta de redações, não só pela primazia do furo do vazamento.
Não há chuchu na feira nem jornalismo sem competição. E agora os inquéritos até aqui protegidos por André Mendonça e pela polícia de Tarcísio de Freitas serão finalmente expostos em praça pública.
Globo, Folha e Estadão terão que optar, em algum momento, pela preservação do que ainda acham que vendem. Venderão informação que contribua para a democracia, ou mais acomodação e mais acovardamento diante de um golpe?
A Globo vende jornalismo e entretenimento. Os outros dois vendem o que estiver à mão, geralmente oferecido por algum vazador, no amplo mercado da produção de conteúdo com matéria-prima cedida e consentida de dentro das estruturas de Estado. E sempre preservando, como vêm fazendo, a audiência conservadora.
É essa a audiência que há muito tempo sustenta a grande imprensa na difícil travessia dos meios analógicos para o mundo virtual. A escolha prioritária hoje é pela fidelização desse público, que até anos atrás poderia ser considerado apenas conservador, mas hoje tem conexões declaradas ou dissimuladas com a extrema direita.
Globo, Folha e Estadão continuarão brincando com o fogo do fascismo no segundo turno, na tentativa de proteger a premissa de que devem dar tratamentos equivalentes, em nome da democracia e das liberdades, a um democrata e ao herdeiro do golpismo?
Os jornalões continuarão vendendo escolhas difíceis, tratando Lula e Flávio Bolsonaro como iguais, sabendo que um procura preservar as conquistas pós-ditadura e o outro deseja destruir o que o permite participar de uma eleição? As corporações tentarão nos enganar com essas falsas equivalências?
É o dilema que talvez não consuma os donos das mídias e das suas chefias, mas mexe com seus quadros. Porque é impossível amordaçar, a partir dos sinais emitidos pelos donos, os profissionais que buscam informação para sobreviver num mundo ocupado nas periferias pelos veículos chamados de independentes, progressistas ou mesmo de esquerda.
O meio ambiente do jornalismo é hoje, pelo acirramento dessa competição com os pequenos, mais complexo do que o de 2018, quando a grande imprensa antilulista contribuiu para a ascensão do novo fascismo com o formato do bolsonarismo.
Globo, Folha e Estadão conseguirão controlar seus times viciados em vazamentos ou soltarão a mão da direita que se abraçou a um Bolsonaro qualquer como única forma de se livrar de Lula?
No segundo turno, os jornalões correrão o risco de serem engolidos pela extrema direita, como foram até aqui as velhas lideranças conservadoras da política tradicional, e não só o centrão e seus vendilhões?
O mais ingênuo e desligado dos brasileiros sabe que um segundo governo de extrema direita será muito mais devastador do que o primeiro. Sabe que Flávio será um Jair Bolsonaro aperfeiçoado, dedicado a corrigir os defeitos e erros do pai.
E sabe, pelas lições de Trump, que o fascismo retorna ao poder para exercê-lo pela radicalização de posições já extremadas. A grande imprensa brasileira terá que decidir, no segundo turno, se continuará pulando a fogueira do bolsonarismo.
Fonte: Brasil 247