Master estruturou produção de documentos falsos no esquema de fraudes, aponta PF
Por Leonardo Lucena — Brasil 247
247 – A Polícia Federal identificou indícios de que funcionários do Banco Master participaram da produção e manipulação de documentos usados para sustentar operações de cessão de créditos ao Banco de Brasília (BRB). O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou na última sexta-feira (11) o sigilo das principais investigações sobre o caso do Banco Master.
Entre os materiais analisados pelos investigadores está uma apresentação interna encontrada no acervo digital do Master. O documento, produzido pelo banco e apreendido na Operação Compliance Zero, descreve etapas que iam da extração de dados de clientes à geração, assinatura e envio de arquivos.
A apresentação interna do Master detalha o papel de diferentes áreas do banco na geração dos arquivos. Em uma etapa, dados de clientes do CredCesta, programa de crédito consignado ligado ao banco, foram usados para criar em massa Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), procurações e termos de consentimento.
Segundo a PF, parte desses documentos teria servido para comprovar os créditos vendidos ao BRB. Em um caso citado pela investigação, o gerente Allan da Silva Machado teria usado uma planilha e a mala direta do Word para gerar 2.700 procurações. Essa ferramenta permite preencher automaticamente um mesmo modelo com dados de diferentes clientes.
Os arquivos foram armazenados em uma pasta chamada “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”. Para a PF, é provável que esse lote tenha originado procurações incluídas em uma amostra de 1.785 contratos enviada ao BRB como prova de créditos supostamente originados pela Tirreno.
Objetivo do esquema
Deflagrada inicialmente em 2024, a Operação Compliance Zero investiga a emissão de títulos de créditos falsos por instituições que integram o Sistema Financeiro Nacional. Elas são suspeitas de criar falsas operações de créditos, simulando empréstimos e outros valores a receber. Após o Banco Central aprovar a contabilidade, as instituições substituíam estes créditos fraudulentos e títulos de dívida por outros ativos, sem a avaliação técnica adequada.
O Master emitia Certificados de Depósitos Bancários (CDB), tipo de aplicação que funciona como renda fixa, com rentabilidade definida previamente. O CDB é tido como um investimento seguro porque tem cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
O banco de Vorcaro oferecia retornos bem acima da média do mercado. É comum instituições pagarem CDBs que representam 100% da taxa de juros, o Master prometia rentabilidade de até 140%. Esta estratégia aumentava o risco para os credores e transferia parte da conta ao FGC.
Na prática, o investidor empresta dinheiro ao banco e recebe depois o valor aplicado acrescido de juros. O Banco Master emitiu R$ 50 bilhões em certificados de depósito bancário (CDBs) prometendo juros acima das taxas de mercado e sem comprovar que tinha liquidez, ou seja, que conseguiria pagar esses títulos no futuro.
Para sustentar a aparência de solidez, o banco teria registrado aplicações em ativos inexistentes e comprado “créditos” de empresa sem capacidade de pagamento. Depois, teria revendido esses créditos ao BRB, que desembolsou R$ 12,2 bilhões sem documentação adequada, em uma operação que, segundo as investigações, ajudou a socorrer artificialmente o caixa do Master.
Mais detalhes
Segundo a PF, o material mostra a participação de funcionários de diferentes níveis hierárquicos, incluindo diretores, gerentes, equipes de tecnologia e áreas operacionais. Para os investigadores, os elementos reforçam a suspeita de que parte dos créditos comprados pelo BRB do Master estava ligada a operações irregulares.
A apuração investiga uma fraude bilionária em carteiras de crédito cedidas pelo Banco Master ao BRB. Parte dos créditos consignados aparecia como originada pela Tirreno, empresa apontada como responsável pela formação de carteiras posteriormente repassadas ao Master e vendidas ao banco público.
A investigação aponta indícios de que essas operações não tinham o lastro informado e de que documentos teriam sido produzidos depois para comprovar parte dos créditos negociados.
“Tem que dar um jeito”
O relatório também descreve tentativas de ocultar informações em comprovantes de transferência ligados aos créditos investigados.
Mensagens reproduzidas na apresentação mostram que Allan da Silva Machado pediu à funcionária da tesouraria Romy Goerck Gentina Klenquen comprovantes sem dados que permitissem identificar contratos e transações.
“Este aparece o número de contrato… Não quero o número de contrato nem o histórico”, afirma Allan. “Então não tem o que fazer. Um ou outro eu consigo ajustar daquela outra forma, mas impossível em 2700 comprovantes”, responde Romy. “Tem que dar um jeito”, diz Allan. “Pois é”, conclui Romy.
Para a PF, a troca de mensagens indica tentativa de manipular comprovantes de transferência. O relatório classifica o episódio como uma “provável emissão de comprovantes de transação manipulados”.
Retirada de datas
Outra frente analisada pela Polícia Federal envolve mensagens sobre a exclusão de data e horário dos termos de consentimento dos clientes.
Em uma conversa, Allan da Silva Machado encaminha um documento a Moacir Lourenço da Silva Junior, da área de tecnologia, e orienta: “Precisamos excluir a data”.
Segundo os investigadores, a retirada dessa informação dificultaria a identificação do momento em que o cliente teria formalizado seu consentimento.
Em outro exemplo citado pela PF, um documento indicava celebração em 21 de janeiro de 2025, mas a assinatura eletrônica só ocorreu em 20 de junho do mesmo ano, cerca de cinco meses depois.
Para a investigação, a remoção desses dados ajudava a ocultar inconsistências e reforça a suspeita de que documentos tenham sido gerados posteriormente para comprovar créditos negociados com o BRB.
Auditoria da Deloitte
As inconsistências também chegaram à Deloitte, empresa responsável pela auditoria externa das carteiras.
Segundo o relatório da PF, após cobranças dos auditores sobre divergências nos contratos, o coordenador de controles Fabrizio Pereira Alencar, do Master, questionou o diretor Alberto Felix de Oliveira Neto sobre como responder. “Estão nos cobrando”, afirmou Fabrizio.
Os documentos mostram que, depois das cobranças da Deloitte, Alberto Felix orientou o funcionário a atribuir as divergências a um “erro operacional”.
“Esse tem que falar que foi erro operacional na seleção”, escreveu o diretor.
Segundo a PF, a conversa ocorreu após a Deloitte enviar e-mail ao Master sobre irregularidades na documentação apresentada à auditoria. Os contratos citados, de acordo com a investigação, eram da carteira da Tirreno e correspondiam ao período de dezembro de 2024 a março de 2025.
Apuração interna virou evidência
A apresentação encontrada pela Polícia Federal recebeu o título “Investigações internas – Banco Master”. Segundo os investigadores, o próprio banco produziu o documento para registrar comportamentos inadequados identificados entre funcionários.
Na prática, o Master conduziu uma apuração interna sobre condutas que poderiam causar danos financeiros, reputacionais e à integridade da instituição.
O material registrava os participantes, suas funções e mensagens trocadas durante o processo. Também descrevia a geração e a manipulação de CCBs, procurações e termos de consentimento, a retirada de datas, tentativas de alterar comprovantes e orientações sobre respostas à Deloitte.
A PF encontrou a apresentação no acervo digital entregue pelo liquidante do banco, responsável por administrar o Master durante o processo de liquidação. Para os investigadores, o material passou a reforçar a suspeita de que documentos ligados às cessões ao BRB eram produzidos ou manipulados dentro da própria instituição.
PF vê padrão de gestão fraudulenta
Para a Polícia Federal, os episódios descritos no laudo não representam falhas isoladas. A perícia analisou R$ 47,78 bilhões em operações entre o BRB e o Banco Master. Desse total, R$ 31,74 bilhões correspondiam a negócios em que o Master vendia carteiras de crédito ao banco público.
Os peritos identificaram uma sequência de práticas repetidas ao longo das operações, como pagamentos feitos antes da conclusão das análises técnicas, pareceres finalizados depois da liberação do dinheiro e compras divididas em valores menores para permanecer dentro do limite de decisão da diretoria.
A análise também apontou falta de avaliação ampla e independente sobre os riscos de negociar com o Master, concentração excessiva das compras em uma única instituição e continuidade dos pagamentos mesmo depois de alertas financeiros e de problemas nas carteiras.
Na avaliação dos peritos, as compras seguiram adiante enquanto etapas criadas para medir riscos, autorizar operações e controlar a saída de dinheiro eram contornadas ou concluídas apenas depois dos pagamentos.
A repetição desse padrão levou a perícia a afirmar que havia elementos técnicos e documentais suficientes para caracterizar “gestão fraudulenta” no processo de compra das carteiras do Master.
“A utilização reiterada da forma para encobrir ou neutralizar a substância decisória […] configura, sob a perspectiva técnico-pericial, padrão compatível com gestão fraudulenta, e não apenas com gestão temerária”, afirma o laudo.
Fonte: Brasil 247