Raoni me disse: ‘Você não pode parar, não pode deixar os brancos mudarem seu pensamento’
Por Flavia Coimbra — SUMAÚMA
Uma pausa para desesquecer que esquece do milagre
Qual o remédio para quem tem febre de exploração?
Qual o médico que trata a dor de desmatamento?
Quem pega urbanização sente o quê?
Depois de ‘mandar à merda esta vida de merda’, o autor de ‘Macunaíma’ navegou os rios Amazonas e Madeira ‘até dizer chega’. No diário de viagem transformado em livro, o sentimento transborda e a Natureza arrebata
Cacique Raoni é exemplo e inspiração para novas lideranças indígenas, como Beto Marubo, que precisam levar adiante sua luta. Foto: Ana Paula Sabino
Beto Marubo, do Vale do Javari, conta como os encontros com o cacique o inspiraram na luta e lembra o dia em que, junto a outras lideranças, sugeriu a Lula que subisse a rampa com Raoni para a posse de seu terceiro mandato como presidente
Conheci Raoni numas reuniões promovidas pela Funasa [Fundação Nacional de Saúde] para falar sobre o aumento das doenças prevalentes nas comunidades indígenas em meados da década de 1990. Na época, meu irmão, uma antiga liderança do Movimento Indígena do Vale do Javari, explicou-me quem era aquele líder indígena. Achei impressionante o botoque que ele usava. Lembrei-me do povo Matis, que habita a minha terra e usa alguns adereços nos lábios. Naquele momento, Raoni pareceu-me alguém que tinha a consciência sobre a sua importância no movimento indígena e que tinha o respaldo de outras lideranças das mais diversas regiões do Brasil.
Em outro momento, meu tio Darcy Marubo me apresentou a Raoni numa reunião que aconteceu na antiga sede da Funai, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas, em Brasília. Explicou a ele que o Movimento Indígena do Vale do Javari estava me treinando para um dia assumir responsabilidades no Movimento Indígena. Lembro-me de que a discussão naquela ocasião era sobre a importância da proteção dos territórios. Foi a primeira vez que ouvi o cacique Raoni falar algumas palavras em português: “Você vai ser importante para a sua família, para a sua terra, não pode parar, não pode deixar os brancos mudarem seu pensamento”. Aquelas palavras nunca mais saíram das minhas lembranças.
Raoni, mesmo que de longe e sendo a personalidade que já era no mundo inteiro, tornou-se um dos referenciais da minha vida enquanto liderança do Movimento Indígena do Vale do Javari. Suas falas, seus pronunciamentos e articulações ecoaram mundo afora e foram fundamentais para que as nossas reivindicações e as nossas realidades fossem apresentadas e ouvidas nos mais diversos lugares do planeta.
Em 2023, voltei a falar pessoalmente com o cacique Raoni, por ocasião da nomeação da parenta Joenia Wapichana para a presidência da Funai, com a presença de outras parentas, como Maial Paiakan. Antes da reunião com o então recém-eleito presidente da República, Lula, o cacique Raoni me procurou no saguão do hotel e voltou a me cobrar, pedindo que não cometesse erros na minha atuação como liderança indígena. Ressaltou que ele estava muito velho e que as novas lideranças teriam a responsabilidade de dar prosseguimento às lutas que ele e outros antigos líderes iniciaram havia décadas. E disse: “Você é um desses que estou falando”.
Na reunião com o presidente Lula, o cacique Raoni demonstrou mais uma vez, com toda lucidez, a sua importância para aquele momento no início de governo e também para a história. O presidente Lula fez o convite, pessoalmente, para a parenta Joenia Wapichana assumir a Funai. Na ocasião, Raoni pediu ao presidente que desse uma atenção especial à Funai e que a instituição fosse fortalecida. Pediu ainda que o presidente Lula não deixasse a parenta Joenia Wapichana sozinha na presidência da Funai. Explicou que ela iria sofrer muita perseguição de todos aqueles que não gostavam dos povos indígenas e precisaria de uma atenção especial do presidente da República. Nesse mesmo dia, eu, a parenta Joenia e as demais presentes sugerimos ao presidente que no dia da posse ele subisse a rampa do Palácio da Alvorada com o cacique Raoni, que tinha sofrido inúmeros ataques do governo Bolsonaro, inclusive diante do auditório das Nações Unidas. Tentaram de todas as formas manchar a história e o legado dele para os povos indígenas e para os brasileiros. Bem, como é sabido, a nossa sugestão foi aceita e proporcionou uma das cenas mais marcantes da história atual do Brasil.
Depois de sofrer muitos ataques no governo Bolsonaro, Raoni sobe a rampa do Planalto na posse do presidente Lula. Foto: Ricardo Stuckert/Agência Brasil
Acredito que, assim como tantas outras lideranças do movimento indígena atual, o cacique Raoni tem sido uma das principais referências de luta – e o seu legado tem promovido mudanças importantes na forma como nós, povos indígenas, interagimos com o mundo. A principal delas foi ter trazido para si a responsabilidade de levar às principais lideranças políticas e personalidades do mundo os nossos anseios, as nossas lutas. Esse espaço criado com essa iniciativa pelo cacique Raoni tem promovido a participação de diversas lideranças indígenas, que têm reivindicado e apresentado as questões dos povos para além do nosso país.
Nos últimos anos, a atuação do cacique Raoni foi centralizada na proteção do meio ambiente e das Terras Indígenas, contra o garimpo dentro dos territórios e pelo fortalecimento das comunidades indígenas em suas áreas. Esses são temas comuns a todas as comunidades indígenas, o que demonstra, mais uma vez, seu legado e uma visão atualizada sobre o atual cenário político, econômico e geopolítico nos dias atuais.
Conforme descrito neste texto, os momentos que tive com o cacique Raoni foram e ainda são importantes para a minha motivação pessoal e o aprimoramento das minhas lutas enquanto liderança indígena da minha região do Vale do Javari. Esse importante líder nos trouxe para o centro dos debates sobre os assuntos que nos afetam, quebrou paradigmas e abriu as portas para novas lideranças seguirem seu legado. Os povos indígenas vêm exercendo um importante papel de conduzir as discussões de seus interesses nos mais diversos espaços de incidências, seja em nível nacional ou internacional. Em que pese a assimetria de poder, que ainda persiste, no embate da apresentação de nossas reivindicações com o poder dominante, vale destacar que algumas das mais importantes conquistas já demonstram certa mudança.
Quando Lula convidou Joenia Wapichana para presidir a Funai, Raoni pediu ao presidente que não a deixasse sozinha em meio a perseguições políticas. Foto: Ana Paula Sabino
Beto Marubo (Wino Këyashëni no idioma Marubo) nasceu na aldeia Maronal, do povo Marubo, localizada na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas. Ele é um dos principais defensores dos direitos dos povos em isolamento voluntário do Brasil.
Texto: Beto Marubo
Edição: Talita Bedinelli
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem: Plínio Lopes e Soraia Joffely
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Tradução para o castelhano: Julieta Sueldo Boedo
Tradução para o inglês: Diane Whitty
Edição em inglês: Jonathan Watts
Montagem de página e acabamento: Flávia Coimbra
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de redação: Eliane Brum
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Fonte: SUMAÚMA
