Sem verde não existe azul. Sem azul não existe verde
Por Flavia Coimbra — SUMAÚMA
Uma pausa para desesquecer que esquece do milagre
Qual o remédio para quem tem febre de exploração?
Qual o médico que trata a dor de desmatamento?
Quem pega urbanização sente o quê?
Depois de ‘mandar à merda esta vida de merda’, o autor de ‘Macunaíma’ navegou os rios Amazonas e Madeira ‘até dizer chega’. No diário de viagem transformado em livro, o sentimento transborda e a Natureza arrebata
Cacique Raoni, ‘o homem que personifica o espírito das florestas’, recebe Paul Watson em sua aldeia no Rio Xingu, em 2025. Foto: Gert-Peter Bruch/Planète Amazone
Um veterano ativista pela vida marinha reflete sobre a importância das florestas e de seu mais célebre defensor, cacique Raoni Mẽtyktire
Na COP21, que aconteceu em Paris em 2015, tive a chance de discursar ao lado do cacique Raoni Mẽtyktire. Ele falou em defesa da Amazônia, do povo Kayapó e das florestas do mundo. Eu estava ali para falar em defesa da vida e da diversidade no oceano. Juntos, tratamos da necessidade de proteger os dois pulmões do nosso planeta: o verde da floresta e o azul do oceano.
A humanidade existe e sobrevive graças à diversidade ecológica e à interdependência das espécies nas florestas e no oceano. O fitoplâncton – conjunto de organismos aquáticos do oceano – produz cerca de 70% do oxigênio no ar que respiramos. Os outros 30% vêm das florestas terrestres.
Se o oceano morre, todos morremos! Se a floresta morre, todos morremos! Essa foi nossa mensagem conjunta naquela ocasião.
Quando uma árvore é derrubada na Amazônia, ou quando uma baleia é morta no oceano, temos o prenúncio da nossa extinção coletiva. A rica tapeçaria da diversidade aquática e arbórea está se desfazendo muito rápido diante dos nossos olhos, neste incrível planeta que todos chamamos de casa.
Paul Watson e cacique Raoni na COP21, onde discursaram em defesa das florestas e dos oceanos. Foto: Gert-Peter Bruch/Planète Amazone
Nossa mensagem tem sido clara e consistente ao longo das últimas décadas. Estive com o cacique Raoni e com Paulinho Paiakan – liderança Kayapó – em Altamira, no Rio Xingu, em 1989, para fazer oposição ao projeto da barragem de Belo Monte [que até então se chamava Kararaô]. Falei junto com Raoni na Rio-92 [a Cúpula da Terra do Rio, que estabeleceu o sistema de COPs da ONU], na COP21, em Paris, e na COP30, em Belém. Em outubro de 2025, viajei a convite dele para a aldeia Mẽtyktire, no Rio Xingu, a fim de conviver um tempo com esse homem que personifica o espírito das florestas.
Foi lá que ele me contou a história de quando viu pela primeira vez um homem branco. Era final da década de 1940. Raoni, ainda adolescente, estava em Mato Grosso, bem no meio da floresta, quando cruzou com um homem a cavalo. Sua primeira reação foi de espanto. Disse que nunca tinha visto um bicho daqueles. Parecia um animal, mas como ele nunca tinha topado com nenhum cavalo ou homem branco, achou que estava diante de uma criatura extraordinária.
Com essa história, me lembrei dos relatos dos gregos antigos, de quando avistaram pela primeira vez os arqueiros citas a cavalo. Os gregos nunca tinham visto nenhum arqueiro a cavalo, e foi assim que os tais invasores acabaram dando origem ao mito do centauro.
O centauro de Raoni não era um arqueiro; estava com uma arma, outra coisa que ele nunca tinha visto. Seu espanto foi breve, porque o homem a cavalo sacou a arma e começou a atirar. Instintivamente, Raoni arremessou sua lança e atingiu o homem, que caiu no chão. O bicho sem cabeça fugiu para dentro da floresta. Portanto, conforme me contou, seu primeiro encontro com o homem branco foi com um sujeito que tentou matá-lo.
A história da humanidade é a história de culturas em conflito, de colonizadores e colonizados, mas acima de tudo é uma história de sobrevivência diante de terríveis adversidades e tecnologias invasoras.
A segunda vez que Raoni viu um homem branco foi em 1954, quando um marco territorial foi erguido às margens do Xingu. Foi o início da invasão Kubẽ [invasão dos brancos] e da destruição da Amazônia.
Que jornada impressionante! Raoni nasceu num mundo centrado na cultura Kayapó, em que as pessoas viviam em harmonia com a floresta tropical e com todas as espécies a seu redor. Depois, por meio de uma criatura fantástica e de aparência mística, com quatro pernas e duas cabeças, ele foi apresentado a uma cultura que lhe era estranha, e acabou se tornando a principal referência para o seu povo e para as florestas em todo o planeta.
Raoni foi criado dentro das tradições e dos conhecimentos do seu povo e, quando criança, não poderia imaginar que um dia sairia da floresta. Mas o fato é que ele saiu e embarcou numa busca que o apresentou a líderes mundiais, príncipes, rainhas, cientistas, lideranças indígenas e milhares de ativistas ambientais. Com o tempo, Raoni se tornou um defensor não apenas de sua casa e de seu povo, mas também da harmonia com a Natureza e com as questões ecológicas.
Muita coisa mudou no nosso mundo nos últimos oitenta anos, mas principalmente para as sociedades indígenas, que se viram apartadas de modo cruel e brutal da diversidade e da interdependência da Natureza.
Raoni logo entendeu que a base da sociedade moderna e industrializada é a mídia. Em 1989, quando vi centenas de guerreiros Kayapó marchando no primeiro Encontro das Nações Indígenas do Xingu, em Altamira, fiquei encantado com as penas, as pinturas corporais de guerra e os arcos e flechas, mas na mão de muitos deles havia algo que parecia fora de lugar e que constitui a arma mais poderosa da era midiática: filmadoras portáteis.
Essas câmeras de vídeo estavam lá para registrar as falas dos políticos e dos construtores de barragens. Além disso, traziam algo a mais: uma estratégia midiática inteligente.
Numa grande assembleia que incluía soldados armados, centenas de guerreiros indígenas e representantes da mídia internacional, uma mulher Kayapó de 19 anos avançou em direção à mesa onde estavam sentados os defensores da megabarreira ecologicamente destrutiva. Furiosa, de peito nu, ela correu empunhando um facão na mão direita.
Seu nome era Tuire Kayapó. A lâmina fria e lisa de seu facão se deteve depois de roçar de leve o rosto assustado do então coordenador-geral da presidência da Eletronorte, José Antonio Muniz Lopes. Ela desferiu um golpe simbólico destinado a expor e envergonhar o inimigo.
Tuire Kayapó empunha seu facão contra a construção da futura usina hidrelétrica de Belo Monte. Foto: Antonio Scorza/AFP
A partir desse momento midiático, o protesto ganhou repercussão internacional, paralisando o desenvolvimento da barragem por duas décadas. Foi uma ação agressiva, mas sem violência, e extremamente eficaz no sentido de instigar a mídia.
Tuire Kayapó, Paulinho Paiakan e o cacique Raoni são rostos e símbolos da resistência contra a ameaça ecológica que atinge a biodiversidade na Amazônia.
Graças à liderança e experiência deles, hoje há muitos jovens indígenas no Brasil e mundo afora que se inspiram nessa paixão, coragem e imaginação para defender e proteger tanto a herança de seu povo quanto a integridade ecológica do mundo em que vivemos.
Em Mato Grosso e na COP30, em Belém, tive o prazer de conhecer várias pessoas que herdaram a paixão e a energia de Raoni e Tuire. Guerreiros corajosos, como Davi Kopenawa, Alessandra Munduruku, Ngrenhkarati Xikrin e Alice Pataxó.
Conheci Alice Pataxó quando ela foi visitar meu navio, o John Paul DeJoria, em Belém, em novembro de 2025. Sua aldeia costeira é tanto do oceano quanto da floresta, e ela falou sobre viver em harmonia com esses dois elementos. Eu venho escrevendo sobre biocentrismo, embora nunca tenha vivido essa realidade. Conversando com Alice, enxerguei nela uma mulher que nasceu e foi criada com um conhecimento intuitivo e empírico sobre a perspectiva biocêntrica – algo que nossa espécie como um todo precisa adotar para sair da rota destrutiva do antropocentrismo, essa ideia de que os seres humanos são superiores, dominantes, únicos e cheios de direitos e privilégios. Acontece que não somos, e aceitar essa realidade significa abraçar toda a Natureza, abrindo a mente para a verdade e a beleza de compartilhar nosso precioso planeta com nossos parentes no mundo animal e vegetal, onde tudo está interligado.
Gert-Peter Bruch, cineasta francês e ativista pela proteção da floresta, trabalhou com o cacique Raoni por muitos anos e percebeu como ele conseguiu mostrar para o mundo que os povos indígenas ainda existem, que estão vivos e suas culturas continuam fortes. Não são meras relíquias do passado. “A partir de sua presença, sua voz e sua luta, ele levou os povos indígenas ao debate global, com uma poderosa mensagem: se quisermos salvar a humanidade, os povos indígenas precisam ser incluídos.”
Nathalie Gil, diretora-executiva do Sea Shepherd Brasil, trabalha há muitos anos na Amazônia, defendendo os botos e os peixes-boi. Um dia ela me disse: “Muitas vezes, em conversas sobre os animais ou ecossistemas ligados às nossas campanhas, percebi que a ciência estava apenas começando a confirmar relações e padrões que eles já entendiam há muitas gerações por conta de sua experiência de vida”.
Assim como Nathalie, ambientalistas de todo o planeta estão reconhecendo a necessidade e a importância de trabalhar em parceria com as comunidades indígenas.
Mais do que qualquer outra coisa, o cacique Raoni tem sido um influente mensageiro xamânico, alguém que fez um alerta severo ao mundo para além da floresta: “Se vocês continuarem destruindo minha floresta, virão grandes ventanias, a terra vai arder, os desertos vão substituir as florestas e o mundo inteiro vai sofrer”.
Não precisamos de pesquisas para enxergar a verdade nessa declaração; não precisamos de mais acúmulo de dados nem de novas análises acadêmicas. Não precisamos de conferências climáticas e debates entediantes que não levam a lugar nenhum, a não ser à próxima conferência, a mais falação e falta de ação. As leis da Natureza são fáceis de entender: diversidade, interdependência e limite [tudo que existe é finito]. Quando roubamos de outras espécies, a diversidade diminui e a interdependência também, o que pode levar ao colapso.
Nosso mundo encontra-se à beira do desastre ecológico. Quantas árvores precisam cair e quantas baleias precisam morrer para que a árvore seguinte e outra baleia sejam a gota d’água?
Não podemos dizer que foi por falta de aviso. Décadas atrás, um grande homem, um xamã visionário, surgiu dos santuários sagrados da Amazônia com uma mensagem de esperança e ressurreição. Se a biodiversidade na floresta e no oceano sobreviver, também sobreviveremos.
Fomos avisados. Vamos escutar ou não?
Cacique Raoni, uma vida de luta pelas florestas e pela Amazônia. Foto: Pablo Albarenga/SUMAÚMA
Texto: Paul Watson
Edição: Jonathan Watts
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem: Plínio Lopes
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Tradução para o castelhano: Meritxell Almarza
Tradução para o português: Debora Fleck
Montagem de página e acabamento: Flávia Coimbra
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de redação: Eliane Brum
Impactado aos 18 anos por uma entrevista de Raoni na França, o ambientalista Gert-Peter Bruch criou uma ONG a pedido do cacique e participou ativamente das turnês europeias do líder brasileiro
A princesa Esmeralda da Bélgica, ambientalista e ativista pelos direitos humanos, dá seu testemunho sobre o encontro transformador entre dois líderes de mundos distintos
Artistas indígenas de diferentes etnias celebram a vida, a força, a resistência e a sabedoria do grande diplomata dos povos
Em imagens, momentos em defesa da Natureza de uma das lideranças indígenas mais importantes do Brasil e do mundo
Xamã do povo Yanomami relembra convívio com cacique Kayapó e diz que batalhas em defesa da Floresta continuam
Beto Marubo, do Vale do Javari, conta como os encontros com o cacique o inspiraram na luta e lembra o dia em que, junto a outras lideranças, sugeriu a Lula que subisse a rampa com Raoni para a posse de seu terceiro mandato como presidente
Lucia Alberta Baré, atual presidenta da Funai, reflete sobre a liderança do cacique, que esteve em sua posse em abril de 2026
Em uma biografia desenhada, a história da principal liderança indígena no Brasil
Sobrevivente do ‘empreendimento de ódio’ chamado Brasil, o grande líder indígena atravessa quase um século de luta pela brasilidade
© Direitos reservados. Não reproduza o conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação sem autorização escrita de SUMAÚMA
Usamos cookies para melhorar sua experiência de navegação.
Você pode ver nossa política clicando aqui.
This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.
Strictly Necessary Cookie should be enabled at all times so that we can save your preferences for cookie settings.
Fonte: SUMAÚMA
