Antes de virar tendência, pousada em Maragogi já praticava sustentabilidade
Por Márcio Diniz — Catraca Livre
A sustentabilidade passou a ocupar um espaço cada vez maior nas escolhas dos viajantes e nas estratégias da hotelaria. Segundo o 11º Relatório de Viagens e Sustentabilidade da Booking.com, 95% dos viajantes brasileiros consideram importante viajar de forma mais sustentável, enquanto 77% dizem que pretendem adotar esse tipo de comportamento nos próximos 12 meses.
Antes de o tema ganhar a dimensão atual, porém, algumas hospedagens brasileiras já desenvolviam práticas ambientais e sociais incorporadas ao cotidiano.
Em Maragogi, no litoral norte de Alagoas, a Pousada Camurim Grande construiu sua trajetória a partir da relação com o território onde está instalada.
Inaugurada em 2011, a pousada nasceu a partir da antiga casa de Marcelo Lacerda e Cristiana Freire, construída em uma península entre o Rio Maragogi e o mar. O imóvel era usado pela família como refúgio e recebia amigos, velejadores e outros viajantes. Com a transformação do espaço em hospedagem, a paisagem que fazia parte da história da propriedade também passou a orientar sua ocupação.
Nos 6,5 hectares da área, manguezais, coqueirais e parte significativa da vegetação original foram preservados. As 20 acomodações —entre chalés, bangalôs, casas e uma cabana— foram distribuídas pelo terreno com o objetivo de reduzir as intervenções sobre as características naturais da área, que reúne cerca de 800 metros de orla e o encontro entre rio, mangue e mar.
Da preservação à operação
A preocupação com o ambiente não ficou restrita à ocupação do terreno. Ao longo dos anos, mais de 800 árvores foram plantadas na propriedade, enquanto outras medidas passaram a integrar a rotina da pousada, como o uso de energia solar, compostagem, reciclagem e manutenção de uma horta orgânica.
No Spa Verde Camurim, a relação com a produção local também aparece na operação. Parte dos produtos utilizados nos tratamentos é feita na própria propriedade pela saboaria Verde Camurim, que produz artesanalmente sabonetes, óleos essenciais e outros preparos a partir de ingredientes naturais e orgânicos.
As iniciativas não surgiram, portanto, como um pacote criado para responder a uma demanda recente do mercado. Foram sendo incorporadas ao funcionamento da pousada ao longo de sua trajetória, acompanhando a relação dos proprietários com a área e com os recursos disponíveis no entorno.
Essa mudança de perspectiva também acompanha uma transformação na própria hotelaria. Práticas que antes dependiam das decisões de cada empreendimento passaram, nos últimos anos, a ser reunidas em programas e parâmetros específicos para o setor.
Um exemplo é o Hotel Sustainability Basics, do World Travel & Tourism Council (WTTC), lançado em 2022. O programa estabelece 12 ações relacionadas a eficiência energética e hídrica, redução de resíduos e emissões, proteção da natureza e apoio às comunidades locais. Em 2026, a iniciativa já havia sido adotada por mais de 8 mil hotéis em 85 países.
Sustentabilidade além do meio ambiente
Na Camurim Grande, a relação com o território também envolve a comunidade de Maragogi. As ações desenvolvidas pela pousada incluem iniciativas voltadas à valorização da cultura regional e à aproximação com pequenos produtores.
Uma das iniciativas sociais é a creche construída no município a partir de um projeto idealizado por Marcelo Lacerda. Atualmente, o espaço atende centenas de crianças em ações relacionadas a educação, alimentação, acolhimento e bem-estar social.
A gastronomia também mantém uma ligação com o entorno. O uso de ingredientes frescos e referências da culinária regional aproxima a experiência oferecida aos hóspedes da produção e da cultura do lugar onde a pousada está instalada.
Esse conjunto de iniciativas amplia o conceito de sustentabilidade dentro da propriedade. A questão deixa de estar restrita à economia de recursos ou à preservação ambiental e passa a envolver também a maneira como o empreendimento se relaciona com moradores, fornecedores e características culturais da região.
Práticas que ganharam novos critérios
A diferença entre o que era feito há alguns anos e o que se espera atualmente da hotelaria está também na forma de medir e comunicar resultados.
Preservar uma área verde, plantar árvores, separar resíduos ou utilizar energia solar podem ser decisões adotadas espontaneamente por um empreendimento. Com a consolidação do debate sobre ESG e o aumento da preocupação dos viajantes, essas ações passaram a fazer parte de metas, indicadores e programas que buscam estabelecer parâmetros para o setor.
Na Camurim Grande, parte dessas escolhas começou antes dessa formalização. A preservação da vegetação existente, a redução das intervenções no terreno, o plantio de árvores, a adoção de soluções ambientais e as iniciativas voltadas à comunidade foram construídas ao longo dos 15 anos de funcionamento da pousada.
O cenário atual acrescenta outro desafio para empreendimentos que já mantêm esse histórico: demonstrar os resultados das ações. À medida que sustentabilidade passa a influenciar decisões de viagem e critérios da própria indústria, torna-se cada vez mais relevante não apenas adotar práticas ambientais e sociais, mas acompanhar seus efeitos e dar transparência aos resultados.
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Fonte: Catraca Livre