Alemanha: Volkswagen vende uma fábrica a um fundo israelense para produzir armamentos
Por Elsa Lifour — Esquerda Diário

Enquanto Ben-Gvir e Katz anunciam um novo salto em sua política genocida em Gaza, a gigante automotiva Volkswagen cede uma de suas fábricas alemãs a um fundo israelense. Em Osnabrück, as linhas de montagem agora produzirão equipamentos militares para um dos três maiores grupos militar-industriais israelenses.
Texto publicado originalmente em Révolution Permanente em 08/09.
Esta segunda-feira, 7 de setembro, a Volkswagen anunciou um acordo sobre uma “possível venda” de sua fábrica de Osnabrück no estado federado da Baixa Saxônia — que cumpre hoje um papel central na indústria bélica alemã — ao fundo de investimento israelense Aurelius. A fábrica irá gradualmente abandonar a produção automotiva para se dedicar à fabricação de sistemas de defesa aérea, cuja produção ficará sob responsabilidade do fabricante israelense da “Cúpula de Ferro”, Rafael Advanced Defence Systems.
Um acordo em benefício de um dos responsáveis pelo genocídio em Gaza
Esse acordo se firma em meio à crise da indústria automobilística europeia, e em particular da alemã. O modelo alemão, sustentado durante anos pela energia russa barata e pelas enormes exportações, viu-se duramente golpeado pela guerra na Ucrânia e o fim do acesso ao gás russo a baixo custo. Usando o argumento da “competição internacional”, a patronal leva adiante ondas de demissões históricas, que estão destruindo milhares de vidas. A Volkswagen anunciou na semana passada a supressão de 50.000 postos de trabalho adicionais entre agora e 2030 — com isso, o total de demissões previstas chegaria a 100.000.
Neste contexto de crise econômica e rearmamento em escala europeia, a patronal vê na conversão de fábricas civis em instalações militares uma nova oportunidade, enquanto a justifica aos trabalhadores apelando para as ondas de demissões que estão ocorrendo. O acordo sobre a fábrica de Osnabrück é uma demonstração disso, já que está previsto que a fábrica deixe de produzir carros em 2027. A fábrica será cedida ao fundo de investimento Aurelius e ao estado federado da Baixa Saxônia, que já fecharam um acordo com Rafael Advanced Defence Systems para fabricar componentes e sistemas de defesa.
Esse gigante público das armas é um dos três maiores grupos militares israelenses. Seu faturamento disparou nos últimos anos, com um faturamento de mais de 5 bilhões de euros, 21,5% a mais que o ano anterior, dos quais quase metade da atividade é realizada com clientes internacionais.
As ambições de Rafael não se detêm aí. O CEO da empresa, Yoav Tourgeman, apresentou o acordo como o início de “uma relação industrial de longo prazo com nossos sócios alemães, com a ideia de que a tecnologia seja produzida integralmente na Alemanha, para proteger a Alemanha e a Europa”.
O Catar, acionista da Volkswagen com 17% do grupo, manifestou fortes objeções frente a uma cooperação direta entre o grupo israelense e o alemão. A estrutura financeira em que participa o fundo de investimentos Aurelius serviu como cobertura para ocultar a participação do grupo Rafael, um dos grandes beneficiados pelo genocídio em Gaza, ante o temor de Doha pelas repercussões que isso possa ter na população catari — majoritariamente solidária com o povo palestino.
Reconversão militar, rearmamento massivo: uma oportunidade de negócio para os mercadores da morte
Esse acordo não é um caso isolado. Reflete uma profunda transformação do aparato produtivo alemão em um contexto de crise e remilitarização. Já no verão de 2024, a fábrica de partes automotivas Continental anunciou um acordo com Rheinmetall, o maior produtor europeu de munições. A empresa franco-alemã KNDS, uma sociedade franco-alemã em plena expansão, aposta em um modelo industrial “híbrido” capaz de combinar a produção civil com a militar, e vê suas encomendas crescerem em 40%, até alcançar os 11,2 bilhões de euros.
Outros projetos também poderiam ser realizados. Vários milhares de picapes Volkswagen Amarok podiam ser transformadas em veículos militares. A empresa polonesa de defesa WB Group também poderia adaptar veículos da MAN, a marca de caminhões pertencente à subsidiária da Volkswagen, Traton.
Essa mudança conta com forte apoio do governo alemão, que está investindo bilhões na indústria de defesa desde que o teto orçamentário para gastos militares na Alemanha foi removido. As ambições de Friedrich Merz, chanceler da Alemanha, são explícitas: transformar a Bundeswehr no “exército convencional mais poderoso da Europa”. Em um contexto de crescentes tensões inter-imperialistas, o objetivo dos líderes alemães é tanto reconstruir um exército nacional poderoso quanto promover os interesses dos industriais alemães.
Alemanha, aliado incondicional de Israel
Enquanto Itamar Ben-Gvir e Israel Katz apresentaram seu plano para “esvaziar Gaza” esta semana, após declarações que pediam diretamente o assassinato de dezenas de palestinos todas as noites, o suculento acordo assinado entre o mercador da morte israelense e a gigante automobilística alemã revela, mais uma vez, a cumplicidade do governo alemão no genocídio na Palestina.
Desde o início do genocídio na Palestina, a Alemanha — o segundo maior exportador de armas para Israel — demonstrou seu apoio incondicional ao Estado sionista, reprimindo duramente qualquer voz de apoio ao povo palestino.
A ilusão do militarismo como saída para a crise: um perigo mortal para os trabalhadores
Há vários anos, a Volkswagen anuncia planos massivos de demissões, fazendo pesar sobre os trabalhadores a ameaça do fechamento de fábricas e da perda de seus postos de trabalho. Diante do desmoronamento do modelo industrial alemão, a reconversão militar se apresenta como uma tábua de salvação para o emprego. Em suma, as classes dominantes chantageiam os trabalhadores: ou as demissões, ou o rearmamento.
Ao mesmo tempo, esse rearmamento generalizado vem acompanhado de ataques brutais contra os serviços públicos, a saúde e a educação. Sobretudo, essa chantagem não oferece nenhuma saída progressista para os trabalhadores e constitui um perigo mortal para a nossa classe. A corrida armamentista empreendida pela burguesia não implica apenas um ajuste sobre os serviços públicos, mas também uma militarização das mentes, seja por meio da repressão, da propaganda militarista ou da chantagem das demissões. Enquanto na Ucrânia são centenas de milhares de trabalhadores ucranianos e russos que pagam com a vida a guerra reacionária travada pela Rússia, é sempre a nossa classe que serve de bucha de canhão para os interesses da burguesia. Como explicava Ernest Mandel, a indústria militar tem a característica fatal de ter que “consumir” — além de certo limiar — os estoques que produz, ou seja, de empurrar estruturalmente para a guerra, porque, caso contrário, desmorona sobre si mesma: não se trata de um aumento de emprego sem contrapartida, mas de uma aposta na escalada bélica e na morte para os trabalhadores.
Por isso, tanto na Alemanha quanto na França, diante dos planos de militarização que as classes dominantes pretendem nos impor e diante do genocídio na Palestina, é preciso opor um plano de luta à altura da situação. E isso passa pela defesa dos nossos postos de trabalho, impondo a medida de emergência vital que é a proibição das demissões.
Uma reivindicação que vai contra a linha defendida atualmente pelas direções sindicais alemãs, como a condução do sindicato IG Metall, que apoia a transição para a indústria de defesa em nome da preservação da atividade, sem questionar em momento algum o caráter mortífero dessa produção. Paralelamente, organizações de esquerda como o Die Linke, apenas algumas semanas após as eleições federais, já avalizaram o plano de remilitarização histórica da Alemanha, traindo as aspirações antibélicas de seu eleitorado.
Diante dos becos sem saída e das ilusões transmitidas por essas orientações das burocracias sindicais e dos partidos institucionais, os trabalhadores devem se organizar por baixo, com os métodos do movimento operário, para impor a proibição das demissões. Somente uma forte oposição dos trabalhadores e de seu campo social, nas ruas e por meio da greve, poderá impor a correlação de forças necessária para arrancar essa reivindicação. Mas, diante da crise econômica, ecológica e da inflação galopante que volta a aparecer, é preciso ir além e impor a nacionalização sob controle operário de todo o ramo automotivo e da defesa, para pôr fim a uma corrida armamentista que só pode desembocar em uma catástrofe de enormes proporções.
A nacionalização sob controle operário do ramo automotivo e de defesa permitiria reconvertê-lo para satisfazer necessidades sociais úteis: em vez de fabricar mísseis para Israel, a infraestrutura de ponta de Osnabrück poderia ser usada para desenvolver o transporte público ou meios para combater incêndios, em um verão no qual os mega-incêndios devastaram a Europa.
Somente construindo uma mobilização antimilitarista, que se apoie na força combinada de uma juventude que se recusa a se alinhar com um futuro de guerra — como mostram as greves escolares que surgiram em mais de 100 cidades alemãs contra o serviço militar e a militarização — e de um movimento operário que se opõe às demissões e à reconversão militarista da economia, poderemos impor uma produção a serviço da vida dos trabalhadores, e não dos lucros da indústria da morte.
Fonte: Esquerda Diário