Marx e o Setembro Amarelo, por Marcelo Karloni

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Marx e o Setembro Amarelo

“…Nada é fácil de entender “(Renato Russo):

por Marcelo Karloni

No Brasil, a taxa de suicídio no ano de 2024 alcançou a marca de cerca de 7,9 óbitos a cada 100 mil habitantes. Isso representa, em relação ao ano anterior, uma redução em torno de 1,9%. De fato, em escala mundial, essa taxa experimentou redução significativa de 36% entre os anos 2000 e 2019. [1]

Entretanto, o suicídio segue figurando entre as 3 primeiras causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos. 727 mil pessoas por ano em todo o mundo encerram suas vidas tendo como causa a consumação da ideação suicida. Isso equivale a uma tentativa consumada com resultado de óbito a cada 43 segundos no mundo. Entre os adolescentes de 15 a 19 anos, o suicídio foi a segunda principal causa de óbito entre meninas (após condições maternas) e a terceira principal causa entre meninos (após lesões na estrada e violência interpessoal). [2]

Há um aspecto dessa ocorrência que merece atenção, especialmente por revelar questões importantes para quem busca compreender os limites e o alcance das determinações sociais do suicídio. Essa discussão ganha ainda maior relevância durante a campanha do Setembro Amarelo, realizada em setembro em diferentes partes do mundo: 73% dos casos têm ocorrido em países de baixa e média renda. Na região das Américas, houve um incremento de 17% na taxa entre os anos de 2000 e 2019. [2]

As causas da ocorrência do suicídio são alvo de investigação desde muito tempo. Há tanto uma perspectiva de caráter, pode-se dizer, biomédico quanto outra, influenciada pela leitura das ciências sociais, que são adotadas para compreender o fenômeno. Perspectivas essas que divergem quanto à importância e mesmo validade da campanha do Setembro Amarelo. [2]

Ao apresentar a ocorrência do suicídio como consequência da depressão ou de fatores de adoecimento individual, a abordagem biomédica finda por isolar do resto das condições sociais objetivas adoecedoras do sujeito que o comete. Questões como trabalho, renda, desigualdade, discriminação e miséria, findam por surgir como meras externalidades e não como variáveis com potencial de adoecimento do indivíduo. As determinações sociais do adoecimento seriam segundo a perspectiva biomédica algo de menor peso e influência nas taxas de suicídio. [2]

Assim, o sofrimento de milhares de trabalhadores empobrecidos no Brasil e na América Latina, especialmente quanto às suas condições de vida e trabalho, poderia ser suportado sem ter como final a desistência da própria vida, conforme “força” ou “resiliência” individual. Não é o falar sobre o suicídio o grande problema em setembro, mas o risco de transformar os efeitos sociais de questões adoecedoras em um problema de ordem individual. [2]

Na investigação dos males da recém-nascida sociedade industrial europeia, Emile Durkheim tratará o suicídio como fato social. Dirá que no ato mais privado do indivíduo, ali está presente a sociedade. Situa assim o conjunto de escolhas tomadas por cada sujeito na ordem capitalista industrial moderna, como produto de determinações sociais que são externas ao indivíduo, com poder de coerção sobre ele e comum a todas as sociedades. Avança Durkheim quando descreve os três principais tipos de suicídio (o egoísta, o anômico e o altruísta), tendo como fundamento da distinção entre os três, a coesão social. Sua obra, O suicídio, fundamentará, portanto, a própria noção de fato social como força que determina as escolhas individuais. [2]

O sofrimento psíquico, portanto, segundo essa leitura, seria de natureza pública e como tal deveria ser alvo de intervenções do Estado e da sociedade como um todo e não apenas algo a ser tratado individualmente em consultório tão somente. Há padrões de ocorrência, há regularidade e há tendências verificáveis nos estudos de Durkheim nas estatísticas europeias assim como hoje se pode atestar. [2]

É essa abordagem que abre possibilidades de perguntas como: “Que sociedade desejamos construir?” ou ainda “Que modelo de vida se deseja legar ao povo brasileiro? Adoecedora ou promotora da saúde?”. Não é a negação da dimensão clínica, afinal, o suicídio dá-se independentemente da classe social. Não é uma classe adoecida, portanto, é o conjunto delas – seja trabalhadora, seja burguesa – que está doente. Nesse ponto, é fundamental ler Marx.

O que diz Marx sobre o suicídio? A obra do filósofo alemão é pouco conhecida, na verdade. A maioria, por exemplo, das críticas aos seus escritos vem de pessoas que nunca leram sequer uma página do Capital. O que também podemos lamentar não é somente essa ignorância sobre Marx, mas o fato de que há muitas outras obras do mesmo que são pouco conhecidas até por quem o estuda. Há uma específica que pode ser considerada uma das mais importantes para entender realmente a sociedade capitalista em sua dimensão privada.

Antes, é importante dizer que Marxestá fazendo essa crítica não apenas à classe burguesa. Ele está de fato fazendo uma crítica a todas as classes. Não é, segundo Marx, na subjugação de uma classe pela outra que teremos a sonhada revolução, mas, sim, no fim de todas as classes, posto que todas vivam em agonia, ainda que alguns poucos em abundância.

É no exame dessa obra específica, Sobre o Suicídio, que o mesmo Marx adentra em quatro dramas pessoais e verdadeiros registrados em boletins da polícia de Paris. publicado em 1846, para somente em 1932 receber outra edição.

É curioso o interesse de Marx pelo tema. Ele examina arquivos de um arquivista policial aposentado sobre 4 casos de suicídio em Paris, 3 deles envolvendo mulheres. O arquivista é Jacques Peuchet, que na época teve atenção despertada pelo aumento dos casos de suicídios na França e em Paris.

No ensaio aparece o caso de uma jovem levada pelos pais ao suicídio. O segundo caso é também de uma jovem da Martinica, que vivia trancada entre quatro paredes por seu marido. O terceiro caso é também o de uma mulher em um episódio de aborto. Uma mulher que enfrenta o dilema posto por uma família com regras religiosas rigorosas. Importa aqui também recordar que já houve quem dissesse que Marx não tratou da questão de gênero em seus escritos. Esse fato será desmentido após leitura desse ensaio.

O que há de fundo no mesmo é que a crítica à sociedade burguesa presente em toda sua obra é também uma crítica a um tipo de opressão que mesmo após o fim do absolutismo segue na ordem do dia, a opressão de gênero. Observem que, no fim da sociedade de classes, é que teríamos também o fim de toda forma de opressão. É talvez por isso que haja uma identificação tão grande entre valores patriarcais e de classe. Entre fascismo e adoecimento.

Estamos hoje, especialmente no Brasil, tendo de lidar exatamente com ambas. Por um lado, enfrentamos uma questão de saúde pública com desdobramentos em sua múltipla dimensão – como a mental – e, por outro, com o autoritarismo que assedia as instituições.

Não é novidade a atualidade de Marx, mas é indiscutível que após a leitura desses 3 casos de suicídio, essa se veja renovada. Segundo essa compreensão, discutir suicídio e adoecimento mental sem revelar a perversidade do modo de produção capitalista e das relações que o mesmo engendra é um mero paliativo.

Há dois casos no relato de Marx que podem nos ajudar a compreender melhor o porquê de a questão do suicídio obedece a determinações que são também sociais.

O caso da jovem mulher que engravida antes da realização de seu casamento examinado por Marx e relatado por Peuchet é o que fecha o ciclo da descrição da ocorrência de suicídio entre mulheres parisienses. Essa jovem, ao procurar ajuda médica e confessar ao médico estar em profundo sofrimento decorrente de uma pressão moral e juízos sociais que adviriam quando assumisse a gravidez, dá início ao relato.

O médico está disposto a dissuadi-la da sua ideação suicida. A narrativa que se segue, no entanto, é que a despeito de todo o esforço, as normas sociais burguesas fundadas na ideia de moral, honra e, mesmo na condição de mulher, são forças sociais que neutralizam qualquer tipo de aconselhamento prestado individualmente.

Segundo Marx, 15 dias após o encontro, jornais da cidade confirmam a morte daquela jovem. O que parece ser uma decisão de natureza estritamente individual, para Marx pode ser relacionado às relações sociais de opressão que se dão naquele microcosmo da sociedade capitalista em Paris.

O outro caso, cujo nome é descrito como Tarnau, ilustra ainda com maior precisão a questão. Esse sujeito, ao perder suas possibilidades de trabalho, busca ingressar em outras atividades para sustento de sua família. Mas fatores como idade, pouca instrução e condições econômicas da época surgem como impeditivas.

Ao não conseguir prover o seu sustento e de sua família, o mesmo entra, segundo descrição de Marx, em desespero e deixa a mulher e duas filhas de 16 e 18 anos. Passa a considerar a si mesmo como um peso, que seria eliminado com o fim de sua existência. Tragicamente, após seu suicídio, a família recebe uma ajuda de 600 francos. É uma ajuda individual, pontual e de natureza caritativa que se dá em um contexto produzido por condições sociais mais amplas e profundas.

Na ausência de algo melhor, o suicídio para esse trabalhador desempregado, tornou-se o último recurso contra os “males da vida”. Não é suficiente, portanto, indagar o porquê da ocorrência do suicídio, mas avançar para indagar quais seriam as relações sociais que produzem uma vida na qual a morte vira o último recurso. Ao passo que para a jovem o que se destaca é a opressão de gênero e controle social para esse trabalhador, são as condições estruturais de desemprego, precarização da vida nas cidades e completa inexistência de proteção social.

Há um número no Brasil atual que merece ser visto nessa discussão. Segundo o IBGE, o conceito de desalento é uma dimensão importante a ser considerada quando se fala em trabalho. O conceito está em torno da ideia de que são pessoas que estão fora da força de trabalho, gostariam de trabalhar, estão disponíveis para trabalhar, mas não procuram trabalho por não acreditar mais que encontrariam colocação no mercado de trabalho. [3]

Esse universo, em 2023, no Brasil, era de 3,9 milhões de pessoas. Não serão aqui explorados os efeitos imediatos no adoecimento psíquico desses sujeitos. Pelo menos não agora, mas cumpre, todavia, perguntar o que ocorre quando um país ou sociedade qualquer, além de impedir o acesso ao trabalho, torna ao indivíduo a expectativa de que seja irrealizável? Ou ainda, quando esse sujeito deixa de procurar emprego por não mais acreditar que consegue, a sociedade brasileira está diante de uma escolha individual ou lidando com uma estrutura que produz a perda da esperança? [3]

Não creio que haja muitas outras formas melhores de discutir desesperança, suicídio e projeto de sociedade do que essa no Setembro Amarelo. O ato é individual, mas suas determinações são também sociais e estruturais. Negar isso é responsabilizar o sujeito por uma questão que é de natureza civilizatória e, portanto, pública. [3]

Professor Marcelo Karloni é doutor em Dinâmicas Territoriais do Desenvolvimento e Regionalizações pela UFPE e membro da Rede Brcidades.

Fontes dos dados citados

[1] DAILY JOURNAL. Indicadores do Brasil: taxa de suicídios. Série 1980–2024. O indicador apresenta 7,9 óbitos por 100 mil habitantes em 2024 e variação de -1,9% frente a 2023. A página informa como base o Ipea – Atlas da Violência, com dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM)/Ministério da Saúde. https://dailyjournal.news/indicadores/brasil/taxa-suicidios

[2] WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Suicide worldwide in 2021: global health estimates. 2025. Fonte para os dados mundiais: 727 mil mortes por suicídio em 2021; terceira causa de morte entre 15 e 29 anos; 73% dos suicídios em países de baixa e média renda. Para a redução global de 36% entre 2000 e 2019 e o aumento de 17% nas Américas no mesmo período, ver também a atualização da OMS de 2021. https://www.who.int/publications/i/item/9789240110069

[2a] WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). One in 100 deaths is by suicide. 17 June 2021. Fonte para a redução global de 36% entre 2000 e 2019 e o aumento de 17% na Região das Américas. https://www.who.int/news/item/17-06-2021-one-in-100-deaths-is-by-suicide

[3] INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). PNAD Contínua – Indicadores, janeiro-março de 2023. Fonte para o contingente de aproximadamente 3,9 milhões de pessoas desalentadas no trimestre janeiro-março de 2023. https://ftp.ibge.gov.br/Trabalho_e_Rendimento/Pesquisa_Nacional_por_Amostra_de_Domicilios_continua/Mensal/Fasciculos_Indicadores_IBGE/2023/pnadc_202303_Publicacao.pdf

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Fonte: GGN

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