PF vê possível elo de Toffoli com R$ 35 milhões repassados por Vorcaro

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Por Vinícius NunesCarta Capital

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Relatório aponta que o ministro pode ter sido beneficiário final de fundo ligado a resort da família. A investigação também reuniu registros de encontros e mensagens sobre julgamento no STF

A Polícia Federal identificou elementos que levantam a suspeita de que o ministro Dias Toffoli , do Supremo Tribunal Federal, tenha sido o beneficiário final ou o proprietário de fato de um fundo que recebeu 35 milhões de reais de Daniel Vorcaro , ex-controlador do Banco Master . A informação foi antecipada por reportagem da revista piauí , divulgada nesta sexta-feira 11, e depois tornada pública com a disponibilização parcial, pelo ministro André Mendonça, de parte do conteúdo das investigações. Conforme o texto,  o dinheiro foi destinado ao fundo Arleen, que tinha participação no Tayayá Aqua Resort , empreendimento ligado a Toffoli e à família dele no Paraná. Parte dos recursos acabou transferida para uma holding nas Ilhas Virgens Britânicas.

A suspeita consta de um relatório de 196 páginas elaborado pela PF a partir do conteúdo do celular de Vorcaro, apreendido em novembro de 2025 . Segundo os investigadores, elementos analisados em conjunto apontariam para a possibilidade de Toffoli ter figurado como “beneficiário final” ou “proprietário de fato” do Arleen e de seus ativos. A própria PF, porém, ressalvou que o caso ainda demandava aprofundamento e que os elementos não eram suficientes para conclusões definitivas.

A origem da suspeita está em uma sequência de operações envolvendo o Arleen. O fundo, que pertencia a Vorcaro, era sócio do Tayayá. Em 2025, passou para as mãos do empresário Alberto Leite, dono da empresa de segurança FS Security e apontado no relatório como amigo de Toffoli.

Depois da mudança de controle, o regulamento do Arleen foi alterado para permitir investimentos no exterior. Em dezembro daquele ano, cerca de 34 milhões de reais foram transferidos para a Egide I, holding registrada nas Ilhas Virgens Britânicas. Para a PF, documentos e comunicações analisados sugerem o uso de pessoas intermediárias e estruturas no exterior.

O relatório afirma que “foram identificados diversos elementos de informação que, analisados de forma conjunta, apontam no sentido de que o ministro José Antonio Dias Toffoli possa ter figurado como beneficiário final ou proprietário de fato do FIP Arleen, bem como de seus ativos”.

A relação financeira com o resort já havia aparecido em mensagens de Vorcaro antes de a PF formular essa hipótese. Em maio de 2024, o banqueiro cobrou do cunhado, Fabiano Zettel, informações sobre um aporte no Tayayá. “Você não resolveu o aporte do fundo Tayayá? Estou em situação ruim”, escreveu. Meses depois, voltou ao assunto: “Aquele negócio do Tayayá não foi feito?”. Ao explicar onde estava o dinheiro, Zettel respondeu: “No fundo dono do Tayayá. Transfiro as cotas dele”. Na sequência, informou os valores: “Pagamos 20 milhões lá atrás. Agora mais 15 milhões”.

O conjunto das mensagens indica, portanto, que os 35 milhões de reais eram tratados por Vorcaro como aportes relacionados ao empreendimento. A PF passou a investigar se a estrutura societária utilizada para movimentar esses recursos ocultava a participação efetiva de Toffoli.

O relatório também reuniu outros elementos sobre a proximidade entre Toffoli e Vorcaro. Segundo o documento, foram identificados ao menos 12 registros de encontros presenciais planejados ou realizados entre os dois entre o fim de 2023 e o início de 2025, em Brasília, São Paulo e Londres. Também foram contabilizadas 167 ligações feitas por aplicativo entre os aparelhos dos dois .

Um dos encontros ocorreu em Londres, em abril de 2024, durante o Fórum Jurídico Brasil de Ideias. O evento reuniu autoridades brasileiras e teve participação de Toffoli. 

A PF encontrou ainda indícios de que Vorcaro acompanhava diretamente assuntos relacionados ao Tayayá e chegou a procurar Toffoli quando houve atraso na transferência de recursos. 

A investigação também apontou uma segunda frente de suspeitas: uma possível influência de Vorcaro sobre a atuação de Toffoli em um processo envolvendo precatórios do setor sucroalcooleiro – o mesmo caso que teria sido assunto entre Mendonça e Vorcaro em um encontro em março de 2025, em São Paulo.

O caso envolvia a destilaria Alcídia, do grupo Atvos, e poderia afetar uma carteira de precatórios do setor que superava 10 bilhões de reais no Banco Master. Antes do julgamento, Toffoli havia adotado posição favorável à União em um processo semelhante.

A mudança provocou reação dentro do banco. O ex-ministro Fábio Faria, que atuava como interlocutor de Vorcaro, escreveu: “Matou a gente”. Em seguida, Vorcaro afirmou: “Toffoli virou o voto” e “Tô tratando aqui”. O diretor jurídico do Master, André Kruschewsky, ofereceu ajuda para tentar retirar o processo de pauta: “Se precisar de ajuda, para tirar de pauta, avisa!”.

O julgamento acabou adiado depois de pedido de vista de Kassio Nunes Marques . Quando o caso foi retomado, em 1º de outubro de 2024, Toffoli votou a favor da usina. A tese da Alcídia prevaleceu por 3 votos a 2. A PF afirmou que as mensagens anteriores ao julgamento têm “especial relevância”, mas ressaltou que o caso ainda “demanda aprofundamento analítico, não sendo no presente momento suficientes para conclusões definitivas”.

O gabinete de Toffoli nega as suspeitas. O ministro afirmou que “jamais manteve ou teve direta ou indiretamente recursos no exterior” e que “jamais realizou qualquer operação direta ou indiretamente nas Ilhas Virgens Britânicas”. Também negou ter recebido valores de Vorcaro e rejeitou a existência de alteração indevida de voto no caso dos precatórios.

Em relação ao Tayayá, a defesa de Toffoli afirmou que a empresa Maridt, da qual o ministro é sócio, vendeu parte de sua participação no empreendimento ao fundo Arleen em 2021 e não realizou posteriormente outras negociações com o fundo. Segundo o gabinete, “os valores jamais totalizaram 35 milhões” e todas as movimentações foram declaradas à Receita Federal e à Junta Comercial.

Toffoli deixou a relatoria do caso Banco Master em fevereiro deste ano, depois que surgiram suspeitas envolvendo sua atuação no processo. André Mendonça foi sorteado para assumir a condução das investigações. A PF, por sua vez, informou em dezembro de 2025 que, após analisar os elementos reunidos até então, não havia encontrado indícios de crimes praticados por pessoas politicamente expostas ou autoridades com prerrogativa de foro.


Vinícius Nunes

Repórter de CartaCapital baseado em Brasília. Cobre os Três Poderes. Já trabalhou em Jovem Pan, Poder360, UOL, Blog do Noblat, JOTA e SBT News.

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Fonte: Carta Capital

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