IA eleva produtividade em 40%, mas ainda não garante vantagem competitiva. mostra estudo
Por Allan Ravagnani — Carta Capital
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Levantamentos da PwC e do McKinsey mostram avanço da tecnologia nas empresas, mas especialista aponta o próximo desafio dos negócios
Empresas com maior exposição a ferramentas de inteligência artificial registram produtividade 40% superior às que usam menos a tecnologia. O dado aparece em um levantamento internacional divulgado em setembro de 2026 sobre o mercado de trabalho global.
Outro estudo, ligado à consultoria McKinsey, mostra que mais de 70% das competências buscadas hoje pelos empregadores seguem em uso mesmo em áreas com maior potencial de automação.
Os números fazem parte do Global AI Jobs Barometer 2026, produzido pela PwC, e de uma pesquisa do McKinsey Global Institute. Juntos, os dois levantamentos apontam mudança na forma como a inteligência artificial passa a ser tratada dentro das empresas.
Para Juliana Velozo, especialista em estratégia, inteligência artificial e comportamento humano nos negócios e vice-presidente sênior de mercado para varejo e saúde na América Latina na Thoughtworks, os números marcam a linha entre empresas que apenas adotam a tecnologia e aquelas que conseguem convertê-la em vantagem competitiva.
“Durante muito tempo, a discussão esteve concentrada em onde a inteligência artificial poderia gerar eficiência e essa pergunta continua em pauta. Mas existe outra que precisa entrar na agenda das lideranças: o que conseguimos imaginar e executar agora que antes era muito mais difícil ou até inviável? É quando a tecnologia entra nessa segunda discussão que ela deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a fazer parte da estratégia do negócio”, afirma.
O dado da McKinsey ajuda a entender esse movimento. Se mais de 70% das competências atuais seguem em uso mesmo em atividades mais expostas à automação, a mudança não acontece pela substituição do conhecimento já existente por novas habilidades tecnológicas. O que muda é o nível de combinação entre essas capacidades.
Conhecimento de negócio, capacidade analítica, julgamento, comunicação, experiência acumulada e leitura do cliente continuam parte da rotina das empresas. Ao mesmo tempo, passam a conviver com exigências como formular problemas, trabalhar ao lado de sistemas de inteligência artificial, avaliar respostas com senso crítico e identificar limites da tecnologia.
Essa mudança já aparece na dinâmica do mercado. À medida que a IA assume tarefas operacionais e de entrada, atividades que antes serviam como espaço de aprendizado passam a exigir mais repertório e capacidade de decisão desde o início. O desafio recai tanto sobre o profissional quanto sobre a organização, que passa a precisar de mais preparo para converter essas capacidades em resultado.
“Não é uma competência deixando de existir para outra ocupar o lugar. Estamos falando de combinações novas. Um profissional que conhece profundamente um mercado ou um cliente passa a conseguir testar hipóteses, analisar informações e construir soluções de uma maneira que antes não era possível. O desafio da empresa é entender como transformar essa capacidade ampliada em uma forma melhor de operar e competir”, explica Juliana.
Na prática, isso vai além de usar inteligência artificial para produzir um relatório mais rápido, resumir documentos ou automatizar uma etapa administrativa. A tecnologia permite redesenhar processos inteiros, ligar áreas que antes trabalhavam de forma isolada, melhorar decisões e criar produtos que antes não seriam viáveis economicamente.
Uma empresa pode adotar dezenas de ferramentas de inteligência artificial e ainda manter praticamente intacta sua forma de operar. Nesse caso, a tecnologia avança, mas o negócio permanece no mesmo lugar.
Para Juliana, a diferença está entre usar uma tecnologia nova para acelerar processos já existentes e aproveitar essas capacidades para repensar como o negócio gera valor. Na visão dela, eficiência deve ser ponto de partida, não de chegada, e cabe às lideranças identificar o que a IA permite redesenhar, criar ou executar de forma diferente.
À medida que ferramentas de inteligência artificial se tornam mais acessíveis e passam a estar disponíveis também para concorrentes, a tecnologia isolada tende a deixar de representar diferencial. A vantagem passa a estar na capacidade de cada empresa de combiná-la com o que já construiu, como conhecimento de mercado, dados, histórico com clientes e capacidade de execução.
“A IA tende a estar cada vez mais disponível para todos. O diferencial não será simplesmente ter acesso à tecnologia, mas saber o que fazer com ela. As empresas que conseguirem transformar essas novas capacidades em decisões melhores, inovação e novas formas de gerar valor estarão mais preparadas para construir o próximo ciclo do negócio”, afirma Juliana.
O relatório da PwC reforça que o salto de produtividade tende a se manter enquanto as empresas conseguirem unir a tecnologia à experiência que já têm no negócio.
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Fonte: Carta Capital