Mendonça queixa-se de ‘arapongagem’ da PF, mas já espionou opositores

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Por Gustavo Freire BarbosaCarta Capital

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Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Coautor de “Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução”.

Em 2020, o então ministro da Justiça de Bolsonaro monitorou mais de 500 servidores públicos integrantes do movimento “Policiais Antifascismo”

Em 2020, o jornalista Rubens Valente revelou que o Ministério da Justiça e da Segurança Pública estava investigando mais de 500 servidores públicos integrantes do movimento “policiais antifascismo” . O inquérito continha nomes, fotografias, endereços de redes sociais e outros dados coletados através da Secretaria de Operações Integradas (Seopi) e de setores de inteligência do ministério.

Nas investigações estavam os servidores “mais atuantes”, separados por estado. Tal dossiê chegou a ser repassado a órgãos públicos e de segurança como Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Casa Civil da Presidência da República, Agência Brasileira de Inteligência, Força Nacional e três “centros de inteligência” vinculados à Seopi no Sul, no Norte e no Nordeste.

O motivo do monitoramento foi a publicação do manifesto Policiais antifascismo em defesa da democracia popular , assinado por servidores da área de segurança, incluindo policiais civis, militares, penais, rodoviários, peritos criminais, papiloscopistas, escrivães, bombeiros e guardas municipais. Nos autos do inquérito, registrou-se que “além desses servidores foi possível identificar alguns formadores de opinião, professores, juristas e o atual secretário de estado de articulação da cidadania do Pará [sic], defensores desse movimento”.

O ministro da Justiça à época, era — vejam vocês — André Mendonça, o mesmo que, alegando ter sido alvo de arapongagens, contribuiu para a maior crise da história do STF ao afastar os delegados Andrei Rodrigues e Leandro Almada dos cargos de diretor-geral e diretor de Inteligência da Polícia Federal. 

Na semana anterior, Mendonça declarou guerra contra Alexandre de Moraes ao tirar do sigilo um relatório da PF e expor as relações do colega com Daniel Vorcaro. Em resposta, Moraes o inseriu no Inquérito das F ake News . Enquanto isso, vazou que Mendonça não parece ser um completo desconhecido do banqueiro, pois teria se encontrado com ele ao menos uma vez no seu instituto, o mesmo que teve seus cofres abastecidos por contratos públicos suspeitos cujos valores estão longe da modicidade. O meio de campo foi feito pelo advogado Ciro Rocha Soares, lobista que chegou a levar o ministro ao alfaiate do ex-dono do extinto Banco Master, registrar a visita com um retrato e enviá-lo ao chefe.

A crise atingiu seu ápice com o afastamento dos delegados por Mendonça — até Flávio Dino atender ao pedido de Rodrigues e, um dia depois, reintegrá-los aos cargos. O tiroteio fez com que Fachin tomasse as rédeas e trouxesse o processo para si, mantendo Rodrigues e Almada em suas diretorias, tirando o Inquérito das Fake News  de Moraes e marcando sessão extraordinária para a próxima terça-feira 15 com o objetivo de decidir se Moraes será ou não investigado.

Os holofotes sobre Mendonça no STF talvez só não sejam maiores que na época em que decidiu perseguir policiais de esquerda.  Em 20 de agosto de 2020, o STF suspendeu liminarmente qualquer ato do Ministério da Justiça e da Segurança Pública que tivesse por objetivo produzir ou compartilhar informações sobre a vida pessoal, as escolhas pessoais e políticas e as práticas cívicas de cidadãos e servidores públicos identificados como integrantes do movimento político antifascista.

Na ocasião, o ministro Luiz Fux — que nesta semana fechou com Kassio Nunes Marques e Mendonça na Segunda Turma para manter os afastamentos de Rodrigues e Almada — decidiu que “uma investigação enviesada, que escolhe pessoas para investigar, revela uma inegável finalidade intimidadora do órgão de investigação, inibe servidores públicos e professores e difunde a cultura do medo”.

Por 9 votos a 1, o STF decidiu contra Mendonça, declarando inconstitucionais as investigações contra opositores e divergentes. Atualmente, os três integram o núcleo mais próximo ao bolsonarismo na Corte. Também dividem o mesmo guarda-chuva: o filho de Kássio recebeu 6,6 milhões de reais do Master por uma consultoria e o filho de Fux bate ponto em eventos sociais de Vorcaro, com quem já degustou vinhos em Nova York .

Mendonça acusa a Polícia Federal de fazer o que ele fez contra quem pensava diferente. Acabou barrado por seus futuros colegas. Há cinco anos, suas arapongagens ocorreram em nome de Jair Bolsonaro. Em 2026, afirma ser vítima para tentar favorecer Flávio Bolsonaro na disputa eleitoral ao blindá-lo do caso Dark Horse, atacar Moraes e envolver o Palácio do Planalto no chumbo trocado entre “datas vênias”.

Acuse-o de qualquer coisa, menos de incoerência: ministro da Justiça ou do STF, continua achando feio o que não é bolsonarismo.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Gustavo Freire Barbosa

Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Coautor de “Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução”.

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Fonte: Carta Capital

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