No SBT, Lula tenta calibrar discurso sobre crise no STF e ameaças à reeleição
Por Fabio MuraKawa — JOTA
A entrevista do presidente Lula (PT) ao SBT nesta quinta-feira (10/9) teve menos o caráter de prestação de contas e mais o de uma tentativa de responder aos principais problemas que passaram a pressionar sua candidatura à reeleição. Em uma emissora aberta de forte apelo popular, Lula falou da crise no Supremo, Banco Master, custo de vida, ajuste fiscal, segurança pública, bets e pesquisas , em boa parte dos casos com uma nova abordagem . O conjunto sugere um esforço para reagir ao momento mais difícil de sua campanha .
O movimento mais importante ocorreu no terreno em que Lula esteve mais acuado nos últimos dias. Disse que se Alexandre de Moraes ou André Mendonça tiverem cometido irregularidades devem pagar, elogiou o presidente da Corte, Edson Fachin, por “colocar um pouco de ordem na casa” e sustentou que tudo deve ser apurado para que o STF recupere credibilidade .
Ao mesmo tempo, Lula deixou claro onde vê hoje o maior problema político. Repetiu as críticas aos “vazamentos seletivos” atribuídos a Mendonça e afirmou que um juiz não pode escolher informações de um processo para divulgar conforme seu interesse. A linha do Planalto ficou mais nítida. Lula tenta se afastar da imagem de defensor de Moraes, ao mesmo tempo em que tenta colar em Mendonça a imagem de um juiz parcial que está a serviço de seu principal rival na eleição, Flávio Bolsonaro (PL).
A defesa de mandato para ministros do Supremo também chama atenção . Lula afirmou que ninguém deveria permanecer 40 anos na Corte e defendeu uma nova reforma do Judiciário. A bandeira coincide com uma discussão que ganhou força dentro do PT. Nesta quinta, o partido reuniu sua direção e aliados em caráter emergencial para discutir uma reação ao avanço de Flávio Bolsonaro e ao impacto da crise do STF.
Entre as ideias debatidas estão uma campanha mais assertiva e propositiva, mudanças no Judiciário e maior ênfase em segurança pública. Não significa que uma nova estratégia esteja pronta, mas mostra que a necessidade de correção de rumo deixou de ser apenas uma percepção de bastidor .
Ao responder sobre a sua queda nas pesquisas, Lula disse que elas não o abalam, mas servem como retrato para orientar o que fazer dali para a frente. A declaração ocorre justamente quando campanha e aliados discutem ritmo, discurso e prioridades depois de uma sequência de levantamentos que apertou a disputa e colocou Lula e Flávio em empate técnico em diferentes simulações de segundo turno. O presidente disse que só perde voto quando a urna é aberta, mas reconheceu que as pesquisas servem para indicar onde estão os problemas.
Indicadores econômicos
Na economia, Lula fez outra admissão relevante. Disse ficar triste ao perceber que, apesar da melhora de indicadores econômicos durante seu governo, parte da população continua insatisfeita. É o reconhecimento mais claro do problema do bolso dos brasileiros . A inflação pode cair sem que os preços voltem ao nível anterior, e a melhora estatística nem sempre se converte em sensação de alívio para o eleitor.
A estratégia de Lula foi comparar a alta dos alimentos durante seu governo com a observada na gestão de Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Além disso, recorreu à agenda tradicional, citando a valorização do salário mínimo, o Bolsa Família, investimentos na educação e inclusão social.
Quando provocado sobre as contas públicas, atacou a Faria Lima e recorreu ao histórico fiscal de seus dois primeiros governos para rejeitar a acusação de irresponsabilidade . Ao dizer que “a Faria Lima só chora”, ele tenta recolocar a discussão em um terreno mais confortável, o contraste entre responsabilidade fiscal e proteção social , em vez de aceitar a escolha entre uma coisa e outra.
Segurança pública
Ele também teve que se posicionar sobre a segurança pública, tema em que o governo sabe estar vulnerável e que passou a ganhar espaço nas discussões da própria campanha. Lula voltou a defender mais investimentos na Polícia Federal e na Polícia Rodoviária Federal, a criação de uma Guarda Nacional e o reforço do sistema penitenciário, com a transformação de 138 unidades em presídios de segurança máxima.
Parte dessa agenda depende de medidas ainda em discussão, como a PEC da Segurança. Politicamente, porém, Lula tenta demonstrar que segurança não será um terreno entregue à oposição e aproximar sua campanha de uma preocupação concreta do eleitorado.
Resposta às bets
As bets entram na mesma lógica . Lula evitou antecipar a decisão do governo e disse que pretende ouvir a sociedade antes de bater o martelo. Nos últimos dias, porém, já havia endurecido o discurso ao afirmar que, pessoalmente, acabaria com as apostas e defender uma resposta mais drástica diante do endividamento, da dependência e dos impactos sobre as famílias.
Uma proibição total continua sendo uma saída difícil no curto prazo, mas o tema oferece à campanha uma bandeira com forte apelo popular e permite a Lula falar diretamente sobre dinheiro, dívida e problemas cotidianos .
A entrevista ao SBT, portanto, não significa que Lula tenha encontrado uma nova estratégia eleitoral pronta. Mas oferece um esboço dela. O presidente reforçou que aceita investigação de Moraes, endureceu contra os vazamentos de Mendonça, reconheceu o desconforto com o custo de vida, reafirmou responsabilidade fiscal e tentou ocupar segurança pública e endividamento.
A própria definição que deu às pesquisas talvez resuma o momento. Mais do que um retrato de quem está ganhando, elas passaram a indicar que muita coisa na postura do candidato Lula e nos rumos da sua campanha precisa mudar daqui para a frente.
Fonte: JOTA