APIB reúne 56 candidaturas indígenas dos territórios para “aldear a política” nas eleições de 2026
Por NINJA — Mídia NINJA
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Campanha Indígena articula lideranças indicadas pelas organizações regionais e quer levar dos territórios aos espaços de decisão um projeto político construído pelos povos
Por Vinicius Francisco
As eleições de 2026 registram uma presença indígena histórica nas urnas. Em atualização enviada à reportagem, a Campanha Indígena contabiliza 194 candidaturas de pessoas indígenas, de 67 povos identificados. Dentro desse universo, um grupo menor tem uma característica particular: 56 nomes formam a Bancada Indígena articulada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).
Entender essa diferença é essencial para compreender a iniciativa. As 56 candidaturas não foram escolhidas para dizer quem é ou não indígena. Elas formam um recorte político construído pelo movimento, a partir de indicações feitas pelas organizações regionais que integram a APIB e conhecem de perto as trajetórias das lideranças e as disputas de cada território.
“A ideia é que a escolha tenha vínculo com as bases e seja construída a partir de quem já participa das lutas dos povos em cada região”, explica Alana Manchineri, coordenadora da Campanha Indígena. Cada organização regional tem autonomia para fazer suas indicações. Para ela, “o que diferencia essas candidaturas é justamente esse compromisso político coletivo”.
A Bancada reúne 56 candidaturas de 39 povos, distribuídas por 19 estados, sendo 27 de mulheres. Há nomes concorrendo às assembleias legislativas, à Câmara dos Deputados, ao Senado, ao governo estadual e à suplência do Senado. Mais do que apresentar candidaturas, a Campanha Indígena tenta conectá-las a uma estratégia comum, construída a partir das pautas defendidas pelas organizações de base.
Esse apoio não significa que a APIB faça campanha individual pedindo votos para cada nome. Alana explica que a atuação é política e coletiva: os canais da iniciativa apresentam as candidaturas, suas trajetórias e informações aos eleitores, enquanto o pedido direto de voto fica sob responsabilidade de cada campanha, seguindo as regras eleitorais. Ao mesmo tempo, a articulação pressiona os partidos para que essas candidaturas tenham condições reais de competir.
É aí que aparece uma das desigualdades mais concretas da disputa eleitoral. Fazer campanha em territórios extensos, muitas vezes distantes dos grandes centros, exige deslocamento, comunicação e recursos que nem sempre chegam de forma equilibrada. Para Alana, o acesso desigual ao financiamento eleitoral e às estruturas partidárias continua sendo uma das principais barreiras para candidaturas indígenas.
“A campanha busca enfrentar esse cenário cobrando dos partidos recursos e condições adequadas e defendendo que essas candidaturas sejam reconhecidas como parte de uma estratégia política nacional do movimento indígena, além de uma presença simbólica”, afirma.
As mulheres também ocupam cada vez mais espaço nessa construção. Entre as 194 candidaturas mapeadas pela campanha, 87 são de mulheres. Alana relaciona esse crescimento ao fortalecimento feminino dentro das próprias organizações indígenas e aos processos de formação política desenvolvidos nos últimos anos. Mas chegar às urnas não elimina os obstáculos: violência política de gênero, racismo e menor acesso a recursos e estruturas partidárias acabam se somando, principalmente para quem parte de territórios afastados dos grandes centros.
A estratégia eleitoral faz parte de uma ambição maior, resumida pela APIB em uma expressão que atravessa a campanha: “aldear a política”.
Para Dinamam Tuxá, coordenador-executivo da APIB, isso não significa simplesmente colocar mais indígenas no Congresso. “Aldear a política é ocupar todos os espaços de tomada de decisão. É participar não só como ouvinte, mas de forma estratégica”, afirma.
Na prática, ele defende que a presença indígena não fique restrita aos órgãos diretamente relacionados aos povos, como o Ministério dos Povos Indígenas, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai). A proposta é chegar também a estruturas como Fazenda, Casa Civil e outros espaços onde são tomadas decisões sobre economia, orçamento e políticas que atingem toda a população.
A ideia é romper com a lógica de que indígenas só devem participar das decisões sobre os chamados “assuntos indígenas”. Para Dinamam, aldear a política significa participar também das escolhas sobre os rumos do país.
Essa visão está organizada no “Nosso Território, Nossa Vida”, projeto lançado pela APIB em agosto e apresentado pelo movimento como uma proposta de país construída a partir das experiências dos povos e dos territórios. O documento reúne discussões sobre democracia, economia, clima, participação política e direitos indígenas, colocando a demarcação e a proteção das Terras Indígenas como compromissos centrais. A própria APIB estabeleceu como objetivo a demarcação de todas as Terras Indígenas até 2030.
Dinamam resume a proposta em uma frase: “Nós apresentamos um projeto de país, não um projeto de poder.” Para ele, a política territorial permanece entre os pontos inegociáveis do movimento. Isso significa defender o reconhecimento oficial das terras tradicionalmente ocupadas pelos povos e rejeitar mudanças que, na avaliação da APIB, enfraqueçam direitos garantidos pela Constituição.
Mas a estratégia não termina na urna. Um dos desafios discutidos pelo movimento é como manter as lideranças eleitas conectadas às organizações e aos territórios depois que assumem seus mandatos. Dinamam cita experiências anteriores de parlamentares que continuam levando demandas indígenas ao Congresso e participando das mobilizações do movimento, mas reconhece que essa relação de acompanhamento e cobrança ainda pode ser fortalecida.
O “Nosso Território, Nossa Vida” deve funcionar também nesse momento. A proposta é que o documento continue sendo discutido e atualizado pelas bases e acompanhe quem chegar às assembleias e ao Congresso, mantendo abertas as pontes entre os espaços institucionais e os territórios. Segundo a APIB, o projeto foi pensado para ultrapassar o calendário eleitoral e funcionar como instrumento permanente de articulação.
A construção vem de antes. Em 2022, a Bancada Indígena articulada pelo movimento reuniu 30 candidaturas. Em 2026, são 56. A Campanha Indígena também ampliou sua atuação e hoje trabalha em quatro frentes: formular propostas para o país, fortalecer candidaturas, construir alianças com outros movimentos e ampliar a formação política dos povos.
Para a APIB, portanto, aumentar o número de indígenas nas urnas é apenas uma parte da disputa. “Aldear a política” significa fazer com que os povos não estejam apenas cobrando decisões do lado de fora, mas também ocupem os espaços onde essas decisões são tomadas, levando consigo as demandas e os projetos construídos nos territórios.
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Fonte: Mídia NINJA