Grupo de Vorcaro acessou sistemas do MPF para obter dados sigilosos e monitorar adversários, revela PF
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – Um grupo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro obteve acesso recorrente e ilegal a dados de processos protegidos por segredo de Justiça por meio de consultas registradas nos logins funcionais de servidores do Ministério Público Federal (MPF), informa a Folha de São Paulo.
As constatações constam em relatório enviado pela Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal (STF). O documento teve o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça, a pedido do presidente da Corte, ministro Edson Fachin, no âmbito do desdobramento de investigações relacionadas ao Banco Master e ao BRB.
De acordo com a PF, as informações sigilosas eram repassadas a Vorcaro por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário (e identificado como Felipe Mourão nas conversas). Ele integraria a “A Turma”, uma suposta milícia privada financiada para monitorar, coagir e intimidar pessoas consideradas adversárias do ex-banqueiro ou associadas às investigações contra suas instituições. Sicário recebia R$ 1 milhão por mês para realizar acesso a dados sigilosos, coação e produção de dossiês. Mourão cometeu suicídio na cela da Superintendência da PF em Minas Gerais em 4 de março, dois dias após sua prisão.
As mensagens recuperadas pelos investigadores mostram que Mourão oferecia buscas completas sobre alvos de interesse. Em junho de 2024, ele enviou uma lista de pessoas e empresas, orientando que Vorcaro inserisse outros nomes “pra puxar os sigilosos”. Ao ser questionado sobre quais documentos gostaria de obter, o ex-banqueiro respondeu: “Todos, obviamente”. No dia seguinte, Sicário afirmou ter “acesso total e ilimitado” aos sistemas do MPF.
A perícia identificou que parte do material partiu do acesso ao sistema sob a conta de uma servidora do MPF. Em outro episódio, registrado em 23 de julho de 2024, foi realizada uma busca pelo CPF de Vorcaro no login funcional de outro servidor, identificando 15 procedimentos — dos quais 11 eram sigilosos. A PF investiga se os servidores realizaram as consultas voluntariamente, se cederam credenciais ou se os acessos foram feitos mediante invasão. O relatório ressalta que não há confirmação de participação consciente dos titulares das contas e cita indícios de tentativa de ocultação da identidade do responsável por uma das buscas.
Em julho de 2025, novas mensagens demonstram o interesse direto sobre o cruzamento “BRB AND MASTER”. Diante do envio da consulta por Mourão, Vorcaro ordenou: “Quero tudo. Atenção total”, recebendo como resposta que o aliado iria “puxar geral”.
O relatório detalha ainda o uso de documentação com a logomarca do MPF para finalidades privadas. Em janeiro de 2025, após Vorcaro relatar que um helicóptero havia sobrevoado sua residência na Bahia por 40 minutos, Mourão sugeriu descobrir quem havia alugado a aeronave para “pedir para a turma ir em cima”. Na sequência, Mourão apresentou a minuta de um ofício classificado como “URGENTE/SIGILOSO”, ostentando o brasão do MPF e direcionado a uma empresa de táxi aéreo para exigir dados de passageiros, roteiros e horários, sob a justificativa de necessidade de investigação.
Mesmo sem assinatura digital ou manuscrita, a empresa de serviços aéreos respondeu à requisição no dia 16 de janeiro, confirmando o recebimento da demanda e fornecendo itinerários e contratantes dos voos. Para a PF, a resposta atesta que o documento fraudulento de fato circulou e cumpriu seu objetivo de coleta de informações para o grupo.
A divulgação dos relatórios faz parte do levantamento de sigilo sobre 14 procedimentos vinculados ao caso, determinado pelo STF. A PF concluiu que o grupo operava uma rede estruturada de vazamento e extração ilegal de dados em sistemas públicos.
Fonte: Brasil 247