O experimentalismo no cinema de mercado televisivo
Por Felipe Guarnieri — Esquerda Diário
Recentemente, Xuxa voltou aos holofotes com um show que mobilizou fãs em SP e, ao que tudo indica, ocorrerá o mesmo em outros estados. De onde vem tanta nostalgia? Eu apresento a hipótese cinematográfica, no Brasil dos anos 80, onde fazer cinema, definitivamente, não era algo simples.
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O país vinha de uma transição pactuada do regime militar para o democrático, ainda não consolidado. Os anos de governo Sarney foram marcados pela hiperinflação e um mal estar social generalizado, construído também em parte pela jovem direção petista. O ascenso operário do final da década passada havia sido canalizado na figura de Lula, que mesmo enfrentando resistência, começava a sinalizar para as classes dominantes a sua capacidade de administrar o estado capitalista.
O consenso da burguesia nacional, naquele momento, não poderia ser mais covarde, fazendo jus a sua tradição entreguista- aceitar as diretrizes de Washington para ganhar um pouco de fôlego na renegociação da dívida externa. A contrapartida era o início da implementação da agenda neoliberal, o desmantelamento das empresas estatais, criar condições aos acordos comerciais e favorecer a abertura de mercado para as privatizações.
A ausência de poder de compra afastava o público consumidor dos filmes e, consequentemente, resultou no fechamento das salas de cinema (substituídas por lojas e templos religiosos) e no sucateamento intencional da Embrafilmes (Empresa Estatal de produção e distribuição cinematográfica). Mais do que falta de investimento e corrupção, tratava-se de sucumbir a pressão direta do Departamento de Comércio dos EUA, que exigia o fim das medidas protecionistas da indústria nacional, como a Cota de Tela (a obrigatoriedade da exibição de filmes brasileiros em dias específicos). Alguns anos depois, Collor decretou a extinção da Embrafilmes e as distribuidoras de Hollywood abocanharam 90% do mercado no país.
Como diria o ganancioso e fundador da Escola de Chicago, Milton Friedman, a crise de alguns é grande oportunidade para outros e, neste processo, surge o plano da Globo na indústria cinematográfica nacional. A estratégia era simples, apoiar-se nas suas estrelas de Televisão para ampliar o acervo da grade de programação e estimular a projeção no mercado fonográfico da Som Livre (Empresa do Grupo Globo). “Super Xuxa contra o Baixo Astral” (1988) marcou o início desse projeto, com um orçamento de de U$1 milhão, equivalente a quase R$3 milhões, angariado pela Xuxa Produções e contando com toda a estrutura da empresa.
Antes da retomada oficial, a Rainha dos Baixinhos e os Trapalhões, emplacaram sucessos como “O Casamento dos Trapalhões” (1988), “Os Trapalhões na Terra dos Monstros” e “A Princesa Xuxa e os Trapalhões” (1989) e “Lua de Cristal” (1990), batendo inúmeros recordes e levando mais 5 de milhões de pessoas de volta às salas de cinema.
A hipótese cinematográfica da nostalgia deriva, sobretudo, de um sentimento de época, algo que produz uma fonte inesgotável de sentidos pelo acontecimento do novo. Mesmo que, tal criação, seja concebida na superfície da indústria e nos parâmetros do mercado.
Dessa maneira, percebemos a mística ideológica em justificar a falta de variedade das exibições com o argumento de que o povo brasileiro não consome cinema nacional pela sua qualidade. O famigerado complexo de “Vira-Lata” de Nelson Rodrigues, baseado no tudo que é bom vem de fora, utilizado conscientemente para apagar a memória e estigmatizar a vasta produção cinematográfica brasileira, com objetivo de enquadrá-la no seu devido lugar na Nova Era Blockbuster.
No entanto, reduzir a análise ao fator comercial não explica o fenômeno por completo. A hipótese cinematográfica da nostalgia deriva, sobretudo, de um sentimento de época, algo que produz uma fonte inesgotável de sentidos pelo acontecimento do novo. Mesmo que, tal criação, seja concebida na superfície da indústria e nos parâmetros do mercado.
Um pequeno fragmento desse contexto foi resgatado por Kléber Mendonça, que ousou desafiar o apagamento de memória histórica realizado pelo status quo dominante. Demonstrando como os cartazes dos Trapalhões disputavam as sessões com os da Profecia e todos aguardavam com medo a chegada de “Tubarão” (1975- marco inicial dos filmes Blockbuster).
O divisor Agente Secreto promoveu um novo olhar popular do cinema nacional sobre o período da Ditadura Militar, que foi construído no arcabouço estético de filmes como Super Xuxa e no que herdou do período anterior do lançamento de “Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia” (1977). Através, por exemplo, do experimentalismo surrealista, que aproxima a “Perna Cabeluda” do alçar voo de Xuxa em cima da Lagarta, na contraposição das cores saturadas do novo cinema comercial com a estética suja do esgoto (cinema da boca do lixo) e no moralismo didático da fantasia infantil para transmitir uma mensagem, diante da depressão social.
Não se trata de exaltar qualquer valor na criação de um monopólio, que após 10 anos (1998) se consolidou com a criação da GloboFilmes e cumpre sistematicamente sua função em reproduzir o padrão e valores dominantes da sociedade, sendo um dos alicerces da produção e distribuição de filmes do eixo comercial. Mas sim, de comprovar a nossa hipótese, em não subestimar o olhar marginal na projeção imagética, repleto de significados e incapaz de ser ofuscado pela grande indústria cinematográfica.
Publicado originalmente no @plotcomtwist no IG em 20/08/2026 e revisado em artigo para o Portal Esquerda Diário.
Fonte: Esquerda Diário