Xi Jinping e Trump se preparam para uma vitória de Lula
Por Gustavo Tapioca — Brasil 247
Faltam 25 dias para a eleição presidencial brasileira. Enquanto Lula e Flávio Bolsonaro disputam votos, Marco Rubio percorre a América do Sul para consolidar a aliança dos governos de direita com os Estados Unidos e conter a presença da China no continente.
Nesta quinta-feira, 10 de setembro, o Peru anunciou sua entrada no Escudo das Américas, coalizão criada por Donald Trump e formada principalmente por governos latino-americanos de direita. O anúncio ocorreu depois do encontro de Rubio com a presidente Keiko Fujimori, em Lima, última escala de uma viagem que passou também pela Colômbia e pelo Equador.
A ofensiva é apresentada como uma aliança contra o narcotráfico e a imigração. Mas possui uma dimensão geopolítica mais ampla. A viagem de Rubio procura reforçar a presença militar e política dos Estados Unidos e conter o avanço chinês na América Latina.
Pequim respondeu antes mesmo de Rubio desembarcar em Lima. Na terça-feira, a Embaixada da China no Peru declarou que o Hemisfério Ocidental não é o “quintal” de ninguém e afirmou que os países latino-americanos têm o direito soberano de escolher livremente seus parceiros.
Trump diz: “Este hemisfério é nosso.”
A China responde: o hemisfério não pertence a ninguém.
É nesse confronto que ocorrerá a eleição brasileira de 4 de outubro. Se Flávio vencer, Trump e Rubio conquistarão um aliado no maior país da América Latina. Se Lula for reeleito, o cerco norte-americano encontrará, no centro do continente, um governo que rejeita a submissão a Washington, fortalece os BRICS e preserva a parceria estratégica com a China.
Xi Jinping e Trump já se preparam para essa possibilidade.
O que Pequim teme
Xi já entrou em cena. Em 27 de julho, conversou por telefone com Lula. No comunicado oficial, registrou que o Brasil atravessava uma “importante agenda política interna” — referência diplomática à eleição de outubro.
O presidente chinês defendeu o fortalecimento da coordenação estratégica, a cooperação nos BRICS e o apoio ao Brasil na defesa da soberania e contra a interferência externa. Não pronunciou o nome de Flávio Bolsonaro, não declarou apoio eleitoral a Lula, não pediu votos nem ameaçou autoridades brasileiras.
O South China Morning Post descreveu a eleição como uma disputa entre Lula, parceiro de Pequim, e Flávio, candidato preferido de Washington. Segundo analistas ouvidos pelo jornal, uma vitória de Flávio poderia produzir o alinhamento automático do Brasil com os Estados Unidos.
Em abril, Jamil Chade revelou que diplomatas, autoridades e acadêmicos chineses perguntavam a interlocutores brasileiros sobre os cenários eleitorais. Para fontes ouvidas por ele em Pequim, a eleição brasileira é um dos acontecimentos políticos mais importantes de 2026 entre os países em desenvolvimento.
A preocupação chinesa concentra-se em três áreas: as rotas e estruturas estratégicas de comércio, entre elas o Porto de Santos; os minerais críticos, disputados por Washington; e a inteligência artificial, campo no qual os Estados Unidos procuram impedir a adoção de tecnologias chinesas na América Latina.
Em entrevista publicada em 9 de setembro pelo Brasil 247, Sabino Vaca Narvaja, ex-embaixador argentino na China, classificou como “sem precedentes” a interferência norte-americana na região. Segundo ele, a nova Doutrina Monroe procura expulsar China e Rússia e ataca os BRICS porque o comércio em moedas próprias ameaça a hegemonia do dólar.
Para Vaca Narvaja, o Brasil de Lula oferece o modelo oposto ao de Milei: relaciona-se com China, Estados Unidos e Europa a partir do interesse nacional. “O Brasil está sendo um exemplo de soberania”, afirmou.
Isso não significa que a China abandonaria o Brasil se Flávio vencesse. Desde 2009, é o principal parceiro comercial brasileiro e compra soja, minério de ferro, petróleo e outros produtos essenciais à sua segurança alimentar, energética e industrial.
Um presidente pode submeter-se politicamente a Washington. Não pode apagar por decreto uma relação econômica construída durante décadas.
Trump empurra o Brasil para a China
A aproximação entre Brasília e Pequim não é produzida apenas por Xi. Também é acelerada por Trump.
Em artigo publicado pelo Atlantic Council, os ex-diplomatas norte-americanos James Story e Ricardo Zúñiga advertiram que tarifas, sanções e outras medidas coercitivas transformam os Estados Unidos num parceiro imprevisível e empurram o Brasil para a China.
No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 13%, para US$ 17,4 bilhões. No mesmo período, a participação chinesa nas vendas externas do Brasil subiu de 28,9% para 31,5%.
A China não precisa empurrar o Brasil para Pequim. Trump faz isso por ela.
Em julho, o presidente norte-americano impôs novas tarifas de 25% sobre numerosos produtos brasileiros. Somadas às taxas anteriores, as alíquotas chegaram a 37,5% em alguns setores.
Em Brasília, existe a suspeita de que Trump evitará, antes da eleição, qualquer concessão capaz de fortalecer Lula. Se isso ocorrer, a tarifa deixará de ser apenas instrumento comercial e passará a integrar o arsenal político favorável a Flávio.
Depois da operação militar que capturou Nicolás Maduro, o Departamento de Estado resumiu a nova política de Washington: “This is OUR hemisphere” — “Este hemisfério é nosso”. Rubio explicou que os Estados Unidos não permitiriam que concorrentes utilizassem o Hemisfério Ocidental como base de operações nem explorassem seus recursos.
É a velha Doutrina Monroe transformada em política explícita de poder. Cuba é nossa. A Venezuela é nossa. A América Latina é nossa. O Brasil será o grande teste dessa doutrina.
Outro 8 de Janeiro?
A ameaça não virá apenas de fora.
Flávio voltou a levantar suspeitas infundadas sobre as urnas eletrônicas. Segundo a Agência Lupa, seus ataques alcançaram a maior média de visualizações dos últimos seis meses entre as mensagens sobre fraude eleitoral.
A Agência Pública identificou influenciadores investigados por desinformação e pelas tentativas golpistas de 2022 e 2023 novamente ativos na campanha de 2026.
Em 1º de setembro, a Reuters informou que o TSE recebera 19 casos envolvendo inteligência artificial nos primeiros 11 dias de campanha. Pesquisa do ITS Rio constatou que sete dos chatbots mais usados no país indicaram ou ordenaram candidatos em 90% das respostas analisadas, apesar da proibição da Justiça Eleitoral.
Ainda não há prova de preparação operacional para a violência. Mas reaparece a narrativa que criou o ambiente político para o 8 de janeiro: se o bolsonarismo perder, será porque as urnas foram fraudadas.
Se a vitória de Lula for contestada pela extrema direita e os Estados Unidos se recusarem a reconhecer o resultado, a primeira resposta chinesa provavelmente será política. Xi poderá felicitar Lula, reconhecer imediatamente a decisão proclamada pela Justiça Eleitoral e buscar o respaldo dos BRICS, da ONU e do Sul Global contra a interferência externa.
Esse reconhecimento não impediria sozinho uma tentativa de ruptura. Mas elevaria seu custo político e dificultaria a legitimação internacional de um governo nascido do golpe.
A resposta chinesa não será militar
Se uma nova vitória de Lula for respondida com tarifas, sanções ou restrições financeiras, a China não enviará soldados ao Brasil. Sua reação será econômica, tecnológica e diplomática.
Pequim poderá ampliar mercados para produtos brasileiros, acelerar operações em reais e yuans, antecipar investimentos em infraestrutura, energia, inteligência artificial e minerais e apoiar o país nos BRICS, no Novo Banco de Desenvolvimento e nos organismos multilaterais.
Isso não tornará o Brasil imune à pressão norte-americana. A China defenderá seus interesses antes de defender Lula e evitará um confronto direto com os Estados Unidos que ameace sua própria estabilidade. Sua reação será calculada, gradual e pragmática.
Pequim não eliminou os efeitos do bloqueio contra Cuba nem impediu a intervenção norte-americana na Venezuela. Mas poderá ampliar a margem de resistência brasileira e elevar o custo de qualquer tentativa de estrangulamento.
A China não defenderá Lula com armas. Poderá ajudar o Brasil a impedir que a coerção externa anule a decisão das urnas.
Nem Washington, nem Pequim
Uma vitória de Lula não entregará o Brasil à China.
O próprio presidente deixou isso claro ao tratar das terras raras. Afirmou que empresas norte-americanas, chinesas, alemãs, japonesas ou francesas poderão participar de sua exploração, desde que as riquezas sejam processadas e industrializadas no Brasil.
Lula não ofereceu exclusividade a Pequim. Também recusou entregar os minerais a Washington.
A ministra Esther Dweck resumiu a estratégia brasileira: “Nossa preocupação é justamente ampliar a nossa soberania para não estar sujeito a nenhum país, nem à China, nem aos Estados Unidos.”
Esse é o ponto que separa os dois projetos apresentados ao eleitor.
Flávio oferece a Trump e Rubio petróleo, minerais, alinhamento diplomático e acesso às decisões estratégicas do governo brasileiro. Lula procura negociar com Estados Unidos, China, Europa e Sul Global sem transferir a nenhum deles o direito de decidir pelo Brasil.
Não se trata de substituir uma dependência por outra. Trata-se de recusar todas elas.
Se Lula ganhar
Se Lula vencer, a China tenderá a reconhecer rapidamente o resultado e procurará transformar sua vitória numa nova etapa da parceria estratégica entre os dois países.
Não haverá bandeiras chinesas no palanque nem declarações de Xi afirmando que ajudou a derrotar Flávio. A reação será discreta e pragmática. Pequim oferecerá mercados, investimentos, tecnologia e coordenação nos BRICS. Em troca, buscará alimentos, petróleo, minerais, espaço para suas empresas e apoio brasileiro à construção de uma ordem multipolar.
A parceria continuará contendo interesses, disputas e assimetrias. A vitória de Lula somente terá significado estratégico se for utilizada para atrair investimentos, internalizar tecnologia e industrializar as riquezas brasileiras.
Trump e Rubio apoiam Flávio Bolsonaro para governar o Brasil por meio dele.
A China não precisa governar o Brasil. Precisa que Washington não o governe.
Lula não oferece o Brasil a Xi Jinping.
É justamente por não oferecer o Brasil a ninguém que sua vitória interessa à China.
Fonte: Brasil 247