Eleições de 2026: democracia ou barbárie

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Por fernandaestimaFundação Perseu Abramo

A quem interessa a atitude de André Mendonça de decapitar a Polícia Federal (PF) e atrapalhar suas investigações? A questão se impõe diante da tentativa do ministro do STF, indicado por Messias Bolsonaro, de paralisar as ações da PF no escândalo do Banco Master. O episódio criminoso envolve muita gente poderosa no meio empresarial, nos poderes Legislativo e Judiciário. O escândalo afeta o país, prejudica sua população e, de modo profundo, atinge as instituições da república e ameaça a democracia.

Não é preciso muita sabedoria para imaginar a resposta a tal questão. Interessa a todos os envolvidos nas enormes falcatruas de Daniel Vorcaro e de seu Banco Master, maior escândalo financeiro já acontecido na história do Brasil. Portanto, a atitude de André Mendonça é muito grave e faz recair sobre ele muitas suspeitas de tratar de modo desigual os nomes citados no escândalo, protegendo alguns e expondo outros, em uma atitude inaceitável para um ministro do STF, pois ela partidariza o Supremo e o compromete, de maneira ilegal, com a campanha eleitoral.

As últimas atitudes de André Mendonça deixaram evidente que ele pretende barrar as ações e investigações da Polícia Federal, que, no governo Lula, têm desbaratado crimes que afetam e prejudicam a maior parte da sociedade brasileira. Tal comportamento, além de criar sérios problemas para a continuidade e aprofundamento das investigações, como a maior parte da sociedade brasileira deseja, atinge drasticamente a república e pretende implodir a democracia no país, configurando uma nova tentativa de golpe.

Para se ver a gravidade da atitude de André Mendonça, basta lembrar o papel central da PF no desvendamento de escândalos descobertos na operação Carbono Oculto, que revelou a presença de facções do crime organizado infiltradas no mercado financeiro, no assalto aos pagamentos dos aposentados do INSS e nas fraudes gigantescas do Banco Master de Daniel Vorcaro, maior corrupção financeira da história do Brasil, sempre é bom lembrar.

Todos esses e diversos outros crimes e escândalos puderam ser investigados pela Polícia Federal, devido à situação democrática vivida no país e, em especial, a não ingerência do governo federal para impedir investigações, como ocorreu sistematicamente na gestão de Bolsonaro. Na sua gestão, ele trocou inúmeras vezes os dirigentes da PF para bloquear determinadas investigações que atingiam sua família e seus aliados. Aliás, ele declarou isso publicamente, sem nenhum pudor.

Um dos requisitos fundamentais da democracia é tratar os cidadãos de modo equânime e, portanto, acabar com a impunidade dos poderosos, que se utilizam do poder e do acesso às autoridades para impedir que suas falcatruas sejam conhecidas, investigadas e punidas. A impunidade é uma das maiores inimigas da democracia, pois impõe desigualdade aos cidadãos e, assim, coloca acima das leis, alguns privilegiados, em atitude inaceitável, porque não democrática e nada republicana.

Tais investigações da Polícia Federal têm demonstrado como o crime, inclusive organizado, penetrou perigosamente, na atualidade, em esferas do mercado financeiro, da iniciativa privada e em segmentos do Estado, nos seus poderes Legislativo, Judiciário e Executivo. Tal contaminação torna a sociedade refém do crime, fragiliza as instituições republicanas e impede a ampliação e consolidação da democracia no país.

A proliferação do crime nas altas e baixas esferas da sociedade impõe a barbárie e agride as pessoas, destituídas da possibilidade de viverem com liberdade e de se movimentarem sem medo da violência. A invasão da iniciativa privada e do Estado pelo crime gera violência, física e/ou simbólica, em toda sociedade, prejudicando a grande maioria da população, distante da criminalidade. Além disso, turva os horizontes da sociedade, que passa a ter dificuldade de enfrentar as questões sociais mais substantivas para seu futuro, devido a violência que atinge seu cotidiano, ameaça sua vida e exige sua atenção, por questões mesmo de sobrevivência.

O maior perigo das eleições de 2026 é a vitória das forças políticas associadas aos escândalos, ao crime e à violência. A sociedade brasileira precisa que a criminalidade seja investigada e punida, dentro da lei, de modo exemplar, inclusive para acabar com a odiosa desigualdade no tratamento dos cidadãos ainda hoje existentes no país, com a violência que atinge de modo desigual parcelas da população e com a inibição da segurança e da mobilidade das pessoas.

Neste sentido, é fundamental que todos os democratas, independente de posicionamentos político-ideológicos diferenciados, se unam para exigir que Polícia Federal e seus dirigentes possam continuar a realizar suas operações contra o crime em todas as esferas da sociedade e que todos aqueles que querem impedir sua ação sejam denunciados, escanteados e punidos. A sociedade e a democracia brasileiras exigem que todos os crimes, sem exceção, sejam investigados, que os envolvidos sejam punidos e que a transparência seja completa nas investigações, sem que nenhum envolvido seja protegido indevidamente e que todos sejam devidamente julgados.

O escândalo do Banco Master e outros não podem continuar impunes, nem ser utilizados como parte da disputa político-eleitoral. A sociedade brasileira tem direito de saber de todos os envolvidos, dos que se beneficiaram do roubo dos recursos públicos, para que sejam punidos e para que a democracia prevaleça e se aprofunde no Brasil.

O resultado das eleições vai determinar a continuidade ou não das investigações, bem como a superação do crime e da corrupção, que ameaçam as instituições democráticas e a república. Não se pode fingir que não se sabe das relações entre o crime organizado e certas forças políticas atuantes no mundo e no Brasil. É preciso que todas as investigações sejam tornadas públicas para que a sociedade brasileira possa conhecer a situação dos que foram beneficiados por Daniel Vorcaro e seu Banco Master. Só assim teremos eleições efetivamente limpas e democráticas no país.

Em tais condições, cabe aos brasileiros e brasileiras decidir, na disputa de 2026, se desejam aprofundar a democracia, fazendo que ela possa garantir igualdade e direitos para todos, ou se escolhem a barbárie do Estado ser tomado pelo crime organizado, destruindo a civilidade, a república e a democracia.

Antonio Albino Canelas Rubim é pesquisador do CNPq

Fonte: Fundação Perseu Abramo

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