A Terra entrou no modo autoforno: aquecimento pode gerar mais 0,4 °C até 2100
Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski
Estudo publicado na Environmental Research Letters mostra que o calor provocado pelas emissões humanas está ativando novas liberações de CO₂ e metano pela própria natureza
Um artigo publicado em 10 de setembro de 2026 na revista científica Environmental Research Letters, da IOP Publishing, traz um alerta particularmente incômodo: as projeções climáticas podem estar subestimando o aquecimento futuro porque muitos modelos ainda não representam adequadamente as emissões de gases de efeito estufa provocadas pelo próprio aumento da temperatura. Intitulado “Projected amplification of global warming by warming-induced greenhouse gas emissions” , o estudo foi produzido por Sam Abernethy, Danielle Monteverde, Christina Schädel, Brian Buma, Philip B. Duffy, Robert B. Jackson, Susan M. Natali, Ilissa Ocko, Brendan M. Rogers e Benjamin Poulter.
O mecanismo analisado é uma típica retroalimentação climática positiva. As atividades humanas emitem dióxido de carbono e metano, a concentração desses gases aquece o planeta e o aumento da temperatura, por sua vez, estimula novas emissões provenientes de fontes naturais. Entre elas estão o degelo do permafrost, as áreas úmidas, lagos e rios e os incêndios florestais. O sistema climático deixa, portanto, de funcionar apenas como receptor das emissões humanas e passa a amplificá-las.
Por outro lado, com base em estimativas produzidas por modelos de processos naturais em três cenários socioeconômicos — SSP1-2.6, SSP2-4.5 e SSP4-6.0 —, a equipe calculou que as emissões de metano induzidas pelo aquecimento, considerando conjuntamente permafrost, áreas úmidas, águas continentais e incêndios, aumentam cerca de 97 milhões de toneladas por ano para cada grau adicional de aquecimento. No caso do dióxido de carbono liberado pelo permafrost e pelos incêndios, o acréscimo estimado chega a aproximadamente 7 bilhões de toneladas anuais por grau nos cenários intermediários analisados.
Ao incorporar essas emissões ao modelo climático MAGICC, os autores estimaram um acréscimo de 0,2 °C a 0,4 °C na temperatura global até 2100. Pode parecer pouco para quem ainda imagina a temperatura planetária como a regulagem doméstica de um aparelho de ar-condicionado, mas esse aumento representaria uma amplificação de 20% a 30% do aquecimento antropogênico posterior a 2020. Em um planeta que já se aproxima perigosamente dos limites estabelecidos pelo Acordo de Paris, algumas frações de grau podem separar impactos graves de transformações potencialmente irreversíveis.
O trabalho também indica que dióxido de carbono e metano contribuiriam em proporções aproximadamente equivalentes para esse aquecimento adicional. Esse resultado reforça a importância de reduzir rapidamente as emissões de metano, cujo tempo de permanência na atmosfera é menor que o do CO₂, mas cujo poder de aquecimento é muito superior no curto prazo. Ao mesmo tempo, mostra que a redução do metano não substitui a necessidade de eliminar as emissões de carbono provenientes dos combustíveis fósseis.
As estimativas carregam incertezas expressivas: os autores calculam uma margem de aproximadamente 0,2 °C para o aquecimento adicional e uma faixa de 10 a 30 pontos percentuais para sua amplificação relativa. O estudo combina resultados de modelos de processos com um modelo climático simplificado, não constituindo uma previsão exata do que ocorrerá. Ainda assim, a incerteza não oferece conforto, pois funciona nos dois sentidos: o efeito real pode ser menor, mas também pode superar a estimativa central.
A principal mensagem do artigo é que os chamados “orçamentos de carbono” talvez estejam sendo tratados com uma precisão que não possuem. Se parte relevante das emissões naturais induzidas pelo aquecimento continua ausente dos modelos utilizados para estimar quanto ainda poderíamos emitir, então o espaço disponível para manter o aquecimento abaixo de 1,5 °C ou mesmo de 2 °C pode ser menor do que se supõe.
O artigo publicado na Environmental Research Letters desmonta definitivamente a confortável fantasia de que ainda dispomos de tempo para uma transição climática lenta, subordinada aos calendários eleitorais e às taxas de retorno dos investimentos. Quanto mais o aquecimento avança, maior se torna a possibilidade de que florestas, solos congelados, áreas úmidas e ambientes aquáticos liberem quantidades adicionais de gases de efeito estufa. Nesse processo, a demora não apenas acumula emissões humanas: ela fortalece mecanismos naturais capazes de tornar o controle do aquecimento ainda mais difícil, caro e incerto.
Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).
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Fonte: Blog do Pedlowski
