Sobra energia, falta preço
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Baterias
Pedro Rodrigues
10/9/2026 15:01
Impossível dizer que hoje as baterias são uma promessa, elas são realidade. O custo despencou na última década e, num mundo cada vez mais faminto por eletricidade, elas têm papel e lugar. No Texas, a frota do ERCOT descarregou mais de 13 mil MW numa noite de agosto, quando o sol se punha e a demanda subia. Não há nada de errado com a tecnologia, já globalmente difundida e usada. Aqui no Brasil o problema, quase sempre, é o desenho.
O leilão brasileiro, marcado para 2 e 4 de dezembro, nasce para remendar um erro de planejamento. Construímos um parque renovável formidável e uma rede que não dá conta dele. Em 2025, mais de 20% de toda a energia eólica e solar disponível foi cortada, cerca de R$ 6 bilhões jogados fora. O país da energia limpa e abundante, que deveria ser barato, é cara. E agora precisa contratar baterias para resolver a sobra que ele mesmo criou.
E assim, chegamos à pergunta predileta do setor elétrico brasileiro: quem paga a conta? A Lei 15.269/2025 determinou que o custo do armazenamento seja rateado apenas entre os geradores, dispositivo que não constava da proposta original e entrou no meio da tramitação. Sem critério na lei, a batata quente caiu no colo da Aneel, cujos técnicos propõem escalonar o encargo conforme a flexibilidade de cada usina, de 25% a 100%. Hídricas e térmicas alegam não ter dado causa ao problema, as renováveis não querem pagar sozinhas e os advogados já preparam as petições. Como resumiu um executivo ao Brazil Journal, “ou coloca o consumidor pra pagar, ou coloca o gerador intermitente”. O leilão mais esperado dos últimos anos corre o risco de ser abatido no ar.
É o nosso teorema do impossível: queremos energia limpa, segura, abundante e barata, tudo ao mesmo tempo, sem escolher. Todos querem ir para o céu, mas ninguém quer morrer. Como ninguém decide, a conta é empurrada para o elo mais fraco, aquele que menos reclama. Em geral, ela tem nome e sobrenome: Conta de Desenvolvimento Energético. A CDE saiu de menos de R$ 22 bilhões em 2020 para R$ 52,7 bilhões em 2026, dos quais R$ 47,8 bilhões vêm da tarifa. Só os descontos às fontes incentivadas somam R$ 19,6 bilhões. E, se a conta ficar mesmo com o gerador, ela volta pelo caminho de sempre: preço de contrato, reajuste, “fato do príncipe”. No fim da linha estão a dona Maria e o seu José.
Antes que o time das renováveis reaja, a crítica não é ao armazenamento. É ao atalho. Existe saída de mercado, e ela tem dois nomes: preço horário e retirada dos subsídios que apagam o sinal de preço.
O PLD já é horário desde 2021, mas o sinal morre ali. Não chega à tarifa do consumidor cativo nem à compensação da geração distribuída, que vale o mesmo ao meio-dia e às sete da noite. Quem coloca um painel no telhado usa a rede como bateria gratuita e subsidiada, e não tem incentivo algum para acoplar armazenamento à placa. E quem quisesse comprar barato às 13h para vender caro às 19h não encontra do outro lado um preço que remunere isso. No Chile e no Texas, o armazenamento avança sem leilão dedicado porque o preço horário paga por ele. É o preço que resolve o curtailment, não o edital.
Se o preço dissesse a verdade, que energia às 13h vale quase nada e às 19h vale muito, boa parte dessas baterias seria contratada por quem de fato precisa delas, e não por portaria. Enquanto isso não acontece, seguimos criando encargo para corrigir distorção criada por encargo.
A tecnologia está pronta. A conta é que segue sem dono. E, no setor elétrico brasileiro, conta sem dono sempre acha o mesmo endereço.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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Fonte: Congresso em Foco