“A gente perdeu a habilidade de se desconectar”, diz ator e apresentador Marcos Veras
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Publicado em 10 de Setembro de 2026 às 09:00
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Em meio a notificações, vídeos curtos e estímulos constantes, um dos desafios atuais na vida on-line é recuperar a capacidade de se desconectar para viver também a plenitude do off-line . A percepção é de um profissional que aprendeu a transitar e atuar em multiespaços, o ator, humorista e roteirista Marcos Veras.
Apresentador do EducarES 2026 , evento que reuniu mais de 1,5 mil estudantes em Vitória na última semana, ele observa que a velocidade das telas também mudou a forma como consumimos entretenimento e nos relacionamos com o outro. Para essa reflexão, traz a experiência de uma carreira que passa por TV, teatro, cinema, rádio e internet. Na compreensão do ator, escuta, atenção e originalidade são fundamentais tanto para o trabalho artístico quanto para quem busca encontrar a própria voz em um ambiente cada vez mais influenciado por algoritmos e tendências.
Na entrevista a seguir, para a Revista EducarES 2026, Veras fala sobre os efeitos da conexão permanente, a força de uma boa história e os caminhos para fazer escolhas sem se tornar refém das métricas.
Como é prender a atenção de uma plateia hoje em dia, quando as pessoas estão acostumadas a checar o celular a cada cinco minutos?
É um desafio cada vez maior. Isso é um movimento global e tem a ver com ansiedade, com a velocidade das coisas, a velocidade do próprio entretenimento, das séries, das peças de teatro, dos filmes, a velocidade da própria vida.
A gente está o tempo inteiro conectado e perdeu a habilidade de se desconectar um pouco das telas, do on-line, do Wi-Fi; de se conectar com o outro, com a pessoa que está almoçando ou jantando com você, com o filme que você está vendo.
É um desafio cada vez maior. O entretenimento e a cultura vêm se adaptando a isso, talvez não fazendo conteúdos tão longos, mas isso não é uma regra.
Acho que seria muito importante a gente fazer o movimento contrário: começar a se conectar com outras coisas e desconectar de algo que nos deixa conectados 24 horas por dia. Isso não é saudável.
O que o trabalho de ator lhe ensinou sobre escutar o outro de verdade, sem a interferência do “ruído” ao redor?
O trabalho do ator é, essencial e primordialmente, praticar a escuta. A nossa profissão é feita do outro, seja o outro o público, seja o outro o parceiro ou parceira de cena. Então, a escuta, a vulnerabilidade de nós, seres humanos, é muito potencializada no ator, no artista.
O ator é um observador da vida, um observador do cotidiano. Então, acho que a escuta, o olhar, a atenção, o silêncio fazem parte do meu trabalho de ator, e disso não abro mão.
O humor nas redes sociais é marcado pela rapidez e pela fragmentação. Como dosar a linguagem rápida da internet sem perder a profundidade e a graça de uma história mais longa?
Acho que há espaço para todo tipo de história. A história tem de ser boa. Sendo fragmentada, rápida ou um pouco mais longa, ela tem de ser boa.
É claro que uma história fragmentada, rápida, feita em frames, em flashes, comunica mais rápido, mas tem mais dificuldade de aprofundar. É um desafio maior.
Uma história mais longa, se ela for boa, também tem seu desafio, mas acho que o prazer de quem está ouvindo essa história e de quem está contando é maior também, porque isso exercita a escuta, a paciência e o exercício de contar uma história com nuances, com qualidade, com riqueza de detalhes. Se a gente consegue fazer isso prendendo a atenção do outro, aí é só vitória.
Mas é claro que o humor nas redes sociais também tem o seu valor, tem a sua potência de fazer algo de forma rápida, direta, que comunica muito mais rapidamente.
Como o jovem pode usar a criatividade para se destacar no mercado sem virar refém das métricas e das tendências efêmeras do algoritmo?
Eu já fui vítima disso. O Mark Zuckerberg [cofundador e CEO da Meta – empresa proprietária do Instagram, do Facebook e do WhatsApp, entre outras plataformas], a cada 15 dias, muda o algoritmo. O que funciona? Agora o Reels funciona. Depois é o carrossel que está fazendo mais sucesso.
Eu deixei de virar refém disso, porque acredito muito no conteúdo original. Acho que a originalidade é uma palavra importante. Mesmo que você se baseie em outro conteúdo, a gente é formado por inspirações, por outros ídolos, pelas nossas referências. Então, é claro que a gente carrega isso no nosso trabalho.
Para usar a criatividade hoje, o jovem não precisa necessariamente ficar refém das mudanças semanais que o algoritmo impõe, porque isso poda a criatividade, limita a criatividade. Se eu pudesse dar um conselho para os jovens, seria: continue fazendo o seu conteúdo, o que você gosta, o que você acredita. Isso é o essencial.
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