Carne bovina brasileira desafia tarifaço dos Estados Unidos e registra salto nas exportações
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – Apesar das severas barreiras comerciais e da imposição de sobretaxas tarifárias por parte do governo dos Estados Unidos, as exportações brasileiras de carne bovina fresca e congelada registraram um crescimento expressivo no mercado norte-americano. O desempenho positivo do setor contrasta com a retração geral das remessas do agronegócio para o país, que sofreram uma queda de 26,7% entre janeiro e agosto, informa reportagem da CNN Brasil com base em dados da Câmara de Comércio Brasil-EUA (Amcham) extraídos do sistema ComexStat.
Enquanto as exportações do agronegócio brasileiro para os demais países cresceram 9,5% no acumulado do ano, as vendas totais de produtos agropecuários para o mercado norte-americano caíram expressivamente. No entanto, as exportações de carne bovina fresca para os Estados Unidos alcançaram US$ 1,46 bilhão de janeiro a agosto, representando uma alta de 62,2% em valor e de 37,2% em volume físico na comparação com o mesmo período do ano anterior.
O desempenho do setor pecuário ganha ainda mais relevância quando observado o cenário macroeconômico global do comércio bilateral. No conjunto de toda a pauta exportadora, os embarques brasileiros para os EUA somaram US$ 24,1 bilhões de janeiro a agosto, retração de 9,7% em valor — equivalente a uma perda de US$ 2,6 bilhões — e queda de 19,3% na quantidade física exportada. Este representou o menor patamar financeiro para o período desde 2023, amenizado apenas por uma alta de 11,8% no preço médio dos produtos.
Disparada no mês de agosto
A discrepância entre o setor de carnes e os demais segmentos ficou ainda mais evidente durante o mês de agosto. Nesse período, as exportações totais brasileiras para os norte-americanos cresceram 12,1% em valor (atingindo US$ 3,19 bilhões), porém amargaram uma queda de 17,3% no volume embarcado. A alta no faturamento ocorreu devido à elevação pontual de 35,7% no preço médio praticado.
Em sentido inverso, as vendas de carne bovina fresca para os Estados Unidos em agosto registraram um salto extraordinário: alta de 385,1% em valor e de 389,8% em quantidade embarcada, totalizando US$ 182,2 milhões. O preço médio do produto apresentou uma leve diminuição de 1%, comprovando que o crescimento do setor foi impulsionado pela expansão real do volume comercializado, e não por especulação de preços.
Além da modalidade fresca, o relatório da Amcham aponta um sólido desempenho das carnes bovinas congeladas. No acumulado de janeiro a agosto, essa categoria somou US$ 1,294 bilhão em vendas para os EUA, o que representa uma expansão de 56,3% em valor e de 32,6% em volume físico, acompanhada de uma alta de 17,8% no preço médio.
Impactos do tarifaço e diversificação de mercados
A resiliência da carne bovina contrasta abertamente com a desaceleração generalizada observada nos principais setores da economia voltados ao mercado norte-americano. Entre janeiro e agosto, o Brasil registrou retração nas vendas para os EUA na indústria de transformação (-4,9%), na indústria extrativa (-28,9%) e na agropecuária (-26,7%). Em contrapartida, quando analisadas as exportações brasileiras para o restante do mundo, esses mesmos três setores apresentaram crescimento de 6,6%, 19,6% e 9,5%, respectivamente.
O estudo da Amcham detalha que o impacto das alíquotas impostas pelos EUA variou conforme a intensidade da tarifação. De janeiro a agosto, as exportações de produtos brasileiros isentos de sobretaxa caíram 8,3%. Já no grupo submetido a alíquotas elevadas, entre 25% e 37,5%, a queda foi expressiva: -29,1%, caindo de US$ 5,14 bilhões para US$ 3,64 bilhões. Nessa faixa mais atingida pelas tarifas, produtos como o sebo bovino (-39,4% em valor), o fumo não manufaturado (-39,9%) e a madeira de coníferas (-55,3%) sofreram grandes perdas.
Entre os dez principais itens exportados pelo Brasil para os norte-americanos, seis apresentaram queda. Contudo, enquanto o recuo no envio de café não torrado e sucos se deveu a gargalos globais de oferta e menor demanda mundial, a carne bovina manteve trajetória de forte expansão no mercado norte-americano.
O movimento ocorre em meio a um esforço do comércio exterior brasileiro para diversificar seus parceiros comerciais. De janeiro a agosto, as exportações globais do Brasil atingiram US$ 250,9 bilhões, avanço de 10,3%. A China consolida-se como o maior parceiro comercial do país, absorvendo US$ 77,1 bilhões (crescimento de 15%), enquanto os EUA permanecem em segundo lugar, mesmo com a queda de 9,7%. Em paralelo, o Brasil expandiu suas remessas para destinos como Índia (+98,4%), Singapura (+18,9%), Alemanha (+15,6%), México (+13,7%) e Canadá (+9,1%).
A expansão da carne bovina no mercado norte-americano, em meio a retração do volume geral de mercadorias brasileiras enviadas aos EUA, indica que fatores como a alta capacidade de oferta do Brasil, a necessidade de abastecimento interno dos Estados Unidos e a competitividade do produto sobrepuseram-se aos efeitos do tarifaço. Especialistas acompanham agora se o movimento representa uma demanda pontual de estoque ou uma alteração permanente na dinâmica do comércio bilateral.
Fonte: Brasil 247