Delação de ex-dono da Reag relata propinas de Vorcaro para autoridades públicas
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – O empresário João Carlos Mansur, ex-dono da Reag, afirmou em delação premiada fechada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) que fundos de investimento administrados pela gestora teriam sido usados para esconder o pagamento de propinas de Daniel Vorcaro, do Banco Master, a autoridades públicas. As informações foram reveladas pela Folha de São Paulo.
A colaboração foi enviada na última semana ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e ainda depende de validação. A Polícia Federal participou do início das negociações, mas não deu sequência às tratativas.
De acordo com pessoas que tiveram acesso aos termos da colaboração, Mansur descreve a participação da Reag e de fundos sob gestão da empresa no suposto esquema ligado ao Master. Ele também relata a atuação de pessoas que, segundo a delação, operavam como laranjas de Vorcaro.
A delação reforça elementos que já vinham sendo apurados desde o ano passado em investigações sobre suspeitas de fraudes financeiras envolvendo Vorcaro e a Reag. O novo acordo, porém, acrescenta detalhes sobre a forma como as operações teriam sido estruturadas, a localização de recursos enviados ao exterior e os caminhos para tentar recuperar esses valores.
Boa parte do dinheiro investigado no caso Master estaria fora do Brasil, em offshores, empresas registradas em outros países, muitas vezes em paraísos fiscais. Segundo investigadores, a colaboração pode facilitar a devolução desses recursos ao país sem depender, em algumas situações, de acordos com autoridades estrangeiras. Isso evitaria que outros países retivessem parte dos valores recuperados.
Para fechar o acordo, Mansur também se comprometeu a pagar multa. Conforme revelou o UOL, o valor é de R$ 40 milhões.
Procurada pela Folha, a defesa de Vorcaro afirmou que ainda não teve acesso aos anexos da colaboração e, por isso, não poderia se manifestar. A defesa de Mansur também foi procurada, mas não se pronunciou.
A Reag já foi uma das maiores gestoras independentes do país, sem vínculo exclusivo com um único banco. Mansur deixou a presidência do Conselho de Administração da companhia em setembro de 2025, em meio à crise aberta pela operação Carbono Oculto, que investigou a infiltração do PCC em atividades da economia formal. A gestora foi apontada como um dos principais alvos da apuração, sob suspeita de ter abrigado recursos de origem criminosa em fundos administrados pela empresa.
Desde o fim do ano passado, Mansur discutia a possibilidade de um acordo de colaboração. As primeiras conversas ocorreram com o Ministério Público Federal em São Paulo, mas não avançaram. Depois, houve tratativas com o Ministério Público de São Paulo.
Em janeiro deste ano, o empresário foi alvo de buscas na segunda fase da operação Compliance Zero, voltada a escândalos relacionados ao Banco Master. Ele não chegou a ser preso. Posteriormente, o Banco Central decretou a liquidação da Reag, citando “comprometimento da situação econômico-financeira da corretora” e “graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do SFN [sistema financeiro nacional]”.
As investigações da Polícia Federal apontaram Mansur como suspeito de ter utilizado fundos da gestora para ocultar o pagamento de propina em imóveis a Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB). Paulo Henrique também tentou negociar uma delação premiada, mas as conversas não prosperaram. Ele está preso no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha, o mesmo local onde Vorcaro está detido.
A negociação entre Mansur e a PGR começou em fevereiro e foi concluída apenas em agosto. O empresário tentou fechar o acordo de forma simultânea a Vorcaro, que teve duas propostas de colaboração rejeitadas pela PF e pela PGR. À época, ambos eram representados pelo advogado José Luís Oliveira Lima, conhecido como Juca. Depois, Mansur trocou de defesa e passou a ser representado por Aloisio Lacerda Medeiros, especialista em crimes contra o sistema financeiro.
A delação de Mansur se soma a outro acordo fechado pela PGR em agosto, com Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro. Ele é dono da empresa que teria sido usada por Daniel Vorcaro para enviar recursos destinados ao financiamento de “Dark Horse”, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Próximo de Vorcaro, Mineiro foi alvo de busca e apreensão na mesma fase da operação que atingiu Mansur.
Em sua colaboração, Mineiro afirmou que atuava em remessas financeiras e na obtenção de dinheiro vivo para Vorcaro. Segundo ele, os valores eram, em algumas ocasiões, entregues em malas devido ao volume.
Investigadores avaliam que as delações de Mansur e Mineiro reduzem a margem de negociação de Vorcaro em uma eventual nova tentativa de colaboração. Essa leitura teria sido reforçada após depoimento prestado por Vorcaro ao gabinete de André Mendonça, no fim de agosto.
Na avaliação de integrantes da investigação, Vorcaro voltou a se apresentar como vítima do sistema e como alvo de perseguição do Banco Central. O entendimento desses investigadores é que, até o momento, o ex-banqueiro não demonstrou disposição real para colaborar nem sinais de reconhecer como crimes as suspeitas de fraudes atribuídas ao Banco Master.
Fonte: Brasil 247