Aliados de Flávio Bolsonaro temem avanço das investigações do caso Master
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – O avanço da crise no Supremo Tribunal Federal (STF) tem sido encarado com otimismo por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que conseguiu transformar o embate entre ministros em um dos principais eixos de sua campanha presidencial e deslocar parte das atenções das investigações do caso Master. Nos bastidores, porém, aliados do candidato adotam uma postura mais cautelosa e acompanham com apreensão o surgimento de novos elementos relacionados ao banco, aconselhando o parlamentar a moderar o discurso sobre a Corte, segundo reportagem do jornal O Globo.
O alerta em relação ao tom ganhou força após a agenda do candidato em Juiz de Fora (MG). Na ocasião, Flávio acusou o presidente Lula (PT) de tentar vencer a eleição “no tapetão”, afirmou que o governo estaria instrumentalizando a Polícia Federal para perseguir adversários e atacou diretamente o ministro Flávio Dino por ter determinado a volta de Andrei Rodrigues ao comando da corporação. “O ex-ministro do Lula, que é o Flávio Dino, dá uma canetada completamente contra os precedentes históricos do Supremo, contra a lei, tentando interferir no processo judicial”, declarou Flávio.
O candidato também cobrou publicamente uma intervenção do presidente do STF, Edson Fachin. Disse esperar que ele tomasse uma decisão, começando pela suspensão da liminar concedida por Dino, e convocasse imediatamente uma sessão do plenário da Corte. “O Brasil precisa saber que quem tem que resolver as eleições é o povo brasileiro, não é o Supremo”, disse.
Posteriormente, Fachin derrubou as decisões de Dino e André Mendonça sobre Andrei Rodrigues e manteve o diretor-geral da PF no cargo.
A avaliação de aliados é que Flávio deve continuar criticando decisões e ministros, sobretudo Dino e Alexandre de Moraes, mas precisa evitar que a ofensiva seja interpretada como um ataque indiscriminado à Corte ou como uma antecipação de revanche caso seja eleito. Pessoas próximas ao candidato têm aconselhado moderação e defendem a preservação de canais institucionais com o Supremo, em especial num momento em que cobra de Fachin uma saída para o impasse.
A preocupação contrasta com a leitura favorável que a própria campanha faz da crise. O conflito entre Moraes, Mendonça e Dino deslocou o debate para a atuação do STF e abriu espaço para Flávio explorar um tema que mobiliza sua base eleitoral. Ao mesmo tempo, integrantes do entorno avaliam que exagerar no confronto pode colidir com a tentativa recente do candidato de se apresentar como alguém que não chegará ao Planalto disposto a promover uma vingança contra a Corte. Em entrevista concedida no último domingo (6), Flávio afirmou que o STF “não precisa ter medo” de uma eventual vitória sua e rejeitou a imagem de um “presidente da vingança”.
Receio sobre o sigilo e desdobramentos do caso Master
A cautela se estende ao caso Master. Nos bastidores, aliados acompanham com atenção a possibilidade de novas revelações nas investigações. A avaliação é que Flávio já apresentou sua versão sobre a relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, mas pessoas próximas à campanha reconhecem que não é possível antecipar quais novos elementos ainda podem surgir.
Essa preocupação ganhou força diante da discussão, dentro do governo, sobre uma eventual quebra ampla do sigilo das investigações do caso Master. A ideia já vinha sendo ventilada entre integrantes do Planalto que defendem uma saída para pacificar a crise no Supremo e veio a público após Lula defender a abertura completa das apurações.
“Diante da gravidade do maior crime financeiro da história do Brasil, o povo brasileiro precisa de explicações e medidas imediatas para enfrentar a crise institucional que tomou conta do Poder Judiciário”, escreveu Lula nas redes sociais. “Por isso, é urgente a quebra completa do sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master, seja quem for, doa a quem doer”, completou o presidente.
Integrantes da campanha de Flávio, porém, avaliam que uma abertura integral do sigilo dificilmente deve acontecer. Na leitura deles, a defesa pública da medida seria uma forma de Lula se posicionar na crise do Supremo e cobrar transparência sem assumir um alinhamento mais radical com nenhum dos lados do embate entre os ministros. A avaliação é que o presidente busca demonstrar que defende o esclarecimento dos fatos, mas sem comprar integralmente a briga em torno de Moraes ou se comprometer com uma solução específica para a crise.
Ainda assim, a possibilidade deixa auxiliares de Flávio em alerta. O caso Master já alcançou diferentes grupos políticos, com investigações envolvendo nomes como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL), aliado de Flávio. Nenhum deles foi denunciado, e ambos negam irregularidades. O receio, afirmam pessoas próximas ao presidenciável, não é baseado em informações de que exista uma nova acusação contra o candidato, mas na constatação de que eles não sabem o que ainda pode aparecer com o avanço das apurações.
Publicamente, pessoas próximas ao presidenciável demonstram confiança na versão apresentada por ele. Nos bastidores, porém, há uma lembrança que impede uma tranquilidade completa. Quando questionado anteriormente sobre uma eventual relação com Vorcaro, Flávio negou ter ligação com o banqueiro. Posteriormente, após a divulgação de mensagens, admitiu o contato e passou a explicar sua participação nas tratativas relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”.
Transferências financeiras e delação homologada
A crise também produziu novos elementos no próprio caso relacionado ao filme. Segundo revelado na imprensa, o operador do mercado financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, confirmou à Procuradoria-Geral da República (PGR) ter feito sete transferências para o fundo Havengate, que totalizaram US$ 12,3 milhões, a pedido de Vorcaro. O fundo, administrado pelo advogado Paulo Calixto, próximo de Eduardo Bolsonaro, foi usado para o financiamento de “Dark Horse”. O acordo de delação premiada de Mineiro foi homologado pelo ministro André Mendonça.
As apurações apontam que a Polícia Federal e a PGR investigam se os repasses poderiam ter servido também para financiar o autoexílio de Eduardo nos Estados Unidos. Trata-se de uma linha de investigação, e não de uma conclusão sobre a finalidade dos recursos.
O novo capítulo veio quando Flávio já tentava tratar o episódio como página virada. Após o caso afetar seu desempenho nas pesquisas, o candidato havia prometido detalhar as contas do filme, mas depois mudou o discurso e passou a tentar se desvincular do assunto.
A investigação apareceu ainda na decisão de Dino que reintegrou Andrei Rodrigues ao comando da PF. Ao justificar a medida, o ministro afirmou ser necessário preservar a efetividade das diligências relacionadas ao caso “Dark Horse” e prevenir interferências externas que pudessem comprometer as investigações. Dino fez a ressalva de que não estava atribuindo caráter doloso à conduta de qualquer agente público, mas afirmou que a interrupção dos trabalhos de direção das investigações interessa, sobretudo, aos investigados.
Fonte: Brasil 247