Garimpo na Amazônia, um mal desnecessário

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Por Flavia CoimbraSUMAÚMA

Uma pausa para desesquecer que esquece do milagre

Qual o remédio para quem tem febre de exploração?
Qual o médico que trata a dor de desmatamento?
Quem pega urbanização sente o quê?

Depois de ‘mandar à merda esta vida de merda’, o autor de ‘Macunaíma’ navegou os rios Amazonas e Madeira ‘até dizer chega’. No diário de viagem transformado em livro, o sentimento transborda e a Natureza arrebata

Agente da Funai destrói um motor usado para extração criminosa de ouro na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, no mês de abril de 2026. Foto: Bruno Mancinelle

Apesar de os defensores da mineração ilegal afirmarem sua importância para a economia de Roraima, estudos revelam que os indicadores financeiros e sociais melhoraram depois que o governo Lula combateu o crime na Terra Indígena Yanomami

Previsões econômicas apocalípticas para sustentar uma posição imoral no debate público não são nenhuma novidade. Diante da demanda de reconhecimento de direitos sociais básicos ou pela implementação de políticas públicas mais inclusivas e progressistas no Brasil, elas sempre aparecem. A abolição da escravidão é um exemplo clássico. No século 19, houve quem defendesse que a escravidão era um “mal necessário” para garantir a estabilidade econômica do país. Não faz muito tempo, argumentos semelhantes foram mobilizados para se contrapor à regulamentação do trabalho doméstico, e, no último ano, mais uma vez, esse discurso foi adotado no debate sobre o fim da escala 6×1.

Em Roraima, no extremo norte do Brasil, o terrorismo econômico foi empregado por parte da elite local para defender a manutenção do garimpo ilegal no território Yanomami, depois que o atual governo anunciou que cumpriria as decisões judiciais que determinavam a desintrusão da Terra Indígena. Mesmo com toda a comoção que as imagens de crianças desnutridas e doentes de malária provocaram na opinião pública, figuras como o ex-governador Antonio Denarium (Republicanos), inelegível por abuso de poder político e econômico durante a campanha de 2022, se prestaram a defender publicamente o garimpo no território do povo originário. Argumentavam que a economia do estado era dependente da atividade e que uma repressão rigorosa à prática criminosa teria impactos negativos graves sobre as finanças de Roraima.

A Polícia Federal apontou o envolvimento de familiares do ex-governador Antonio Denarium com o financiamento do garimpo ilegal. Foto: Roque de Sá/Agência Senado

Não foi assim. Passados três anos da intervenção do governo federal, que tem muitas boas lições para deixar (como é o caso da criação da Casa de Governo), chegamos a um bom momento para testar a hipótese da falência de Roraima em decorrência do combate ao garimpo. Testar e refutá-la de vez. Isso mesmo desconfiando que os defensores da mineração ilegal nunca tenham de fato acreditado que ele poderia ser realmente o motor econômico da região, mas sim que o seu objetivo sempre foi aumentar a margem de negociação junto ao governo federal.

Em janeiro de 2026, foram divulgados dados importantes sobre a exploração mineral na TI Yanomami. Segundo o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), entre março de 2024 e janeiro de 2026, a abertura de novas áreas pelo garimpo (comparando com 2022) foi reduzida em 99%. É o resultado de mais de 9 mil operações, sobretudo no entorno da Terra Indígena, fiscalizando postos de combustível, estradas e aeródromos que davam suporte ao garimpo e demais crimes, como o tráfico de drogas e de pessoas.

Os dados governamentais, por sua vez, coincidem com o monitoramento autônomo produzido pelas organizações indígenas. Por meio de análise e interpretação de imagens de satélite de alta resolução, de sobrevoos e de um sistema de monitoramento colaborativo, atestaram a efetiva redução do número de invasores. Hoje, o garimpo está restrito a alguns grupos fragmentados que operam de noite, longe dos grandes rios e em pequenos acampamentos escondidos na floresta. Muitos grupos também passaram a operar em outros países, como a Venezuela e a Guiana.

Mas se o garimpo enquanto fenômeno econômico foi significativamente reduzido na TI Yanomami, o que será que os indicadores econômicos de Roraima nos dizem sobre a performance recente do estado? Caso o ex-governador (Antonio Denarium, Republicanos) estivesse correto, seria possível verificar o impacto do endurecimento da fiscalização. Ainda que não tenhamos disponíveis os dados já consolidados do Produto Interno Bruto (PIB) do estado nos últimos anos, os indicadores e estudos que estão acessíveis sugerem que Roraima seguiu uma trajetória econômica de crescimento – e não o contrário. Projeções para 2024 e 2025 feitas pelo Banco Santander indicam que possivelmente Roraima teria observado um crescimento no PIB da ordem de 4%, enquanto a média nacional projetada foi de 2%.

Os dados sobre o mercado de trabalho e sobre o setor de serviços e comércio também são positivos. Estudos da Secretaria de Planejamento e Orçamento de Roraima sugerem que, em setembro de 2025, o estado apresentou um recorde histórico de empregos formais e, no acumulado, em relação ao percentual de crescimento de empresas, Roraima ocupou a segunda colocação no ranking nacional.

Naturalmente, há limitações nessa análise e seria preciso um estudo mais aprofundado para chegar a conclusões mais contundentes sobre o real impacto econômico do combate ao garimpo na economia de Roraima como um todo. Entretanto, ainda assim, esse pequeno exercício é bastante útil para verificar a fragilidade da hipótese do colapso econômico associado ao fim do garimpo.

Além disso, essas observações vão na mesma direção de outros estudos baseados em evidências. Eles demonstram que o garimpo produz muito mais custos do que benefícios para os territórios onde está presente. Utilizando os dados do Índice de Progresso Social (IPS) para a Amazônia, por exemplo, os autores Antonio Oviedo e Victor da Silva Araújo demonstram que os municípios sobrepostos às Terras Indígenas impactadas pelo garimpo apresentam indicadores significativamente inferiores em comparação com as cidades que não têm garimpo em seu território: 20,6%, na média, inferior à média do Brasil.

Mesmo que os estudos e a análise dos dados econômicos nos apontassem para outra direção, ainda assim seria imoral defender o garimpo em Terra Indígena diante dos horrores revelados pela crise Yanomami. No entanto, nem mesmo os indicadores econômicos conseguem sustentar tal posição, revelando assim não apenas a obscenidade dos defensores da mineração ilegal, mas também a sua desonestidade. O ouro do garimpo das Terras Indígenas não possui nem lastro ético nem econômico.

O Brasil deve celebrar a desintrusão do território Yanomami e aprender. A presença do Estado, por meio de uma articulação inteligente de diferentes agências de fiscalização, é o caminho para combater não apenas o garimpo ilegal, mas todo o ecossistema do crime que avança sobre a Amazônia. E é só com o controle das atividades ilícitas que novas economias não predatórias podem prosperar. Quem sabe assim poderemos finalmente reformular os termos do nosso debate público e, enfim, construir um futuro de fato virtuoso para os Indígenas, os roraimenses e o Brasil.

*Estêvão Benfica Senra é geógrafo e doutor em desenvolvimento sustentável pela Universidade de Brasília. Atua em parceria com os povos da TI Yanomami desde 2013. É analista do Instituto Socioambiental.

A invasão garimpeira e o abandono da saúde pelo governo Bolsonaro causaram desnutrição, doenças e mortes no território Yanomami. Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

Reportagem e texto:  Estêvão Benfica Senra
Edição: Eliane Brum
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem: Soraia Joffely
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Montagem de página e acabamento: Flávia Coimbra
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de redação: Eliane Brum

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Fonte: SUMAÚMA

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