Chamas na UFPE destroem 40 anos de pesquisas para tratamento do câncer
Por Adriana Amâncio — Revista Pesquisa Fapesp
Victor Ferreira, doutorando em ciências fisiológicas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), estudava para uma prova junto com uma colega na antiga sede da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine) da universidade por volta das 18h30 do último dia 7. Dois seguranças bateram no vidro da janela pedindo que os pós-graduandos se retirassem, pois havia um princípio de incêndio. Do lado de fora, acompanharam as movimentações com a esperança de que as chamas seriam contidas rapidamente. “O sentimento foi mudando, até a gente entender que o incêndio teria um impacto catastrófico”, recorda ele.
De fato, as chamas avançaram rapidamente, a ponto de consumir toda a estrutura. O prejuízo total estimado é de R$ 100 milhões, dos quais R$ 50 milhões correspondem a um repositório com 20 mil moléculas, fruto de 40 anos de pesquisa para aperfeiçoamento de diagnóstico e produção de fármacos mais eficientes para diversos tipos de câncer.
Essa era uma das linhas de investigação do Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica (Nupit), coordenado pelo professor Moacyr Rego. O núcleo também atuava na área clínica, com um biorrepositório de amostras de pacientes com diversos tipos de câncer, entre pâncreas, vesículas biliares, bexiga e pulmão, além de amostras de 900 pacientes com Chikungunya, que eram monitorados pela equipe havia três anos.

Lucas Emanuel/UFPE Ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luciana Santos, em visita ao local do incêndio. Ela anunciou apoio de R$ 40 milhões Lucas Emanuel/UFPE
O laboratório também realiza monitoramento de trabalhadores da cana-de-açúcar, nas regiões das zonas da Mata Sul e Norte, e do Polo Gesseiro, localizado no Sertão do Araripe. As atividades envolvem exposição a agrotóxicos, fuligem e outras condições insalubres. O trabalho é feito em parceria com o Ministério Público do Trabalho de Pernambuco.
“O dano material a gente consegue reconstruir, mas o causado pela perda das amostras dos pacientes e do banco de moléculas a gente não tem como recuperar”, lamenta o coordenador Moacyr Rego, que já vislumbra uma parceria com o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco para o recrutamento de pacientes que possam doar material para a reconstrução do conjunto de amostras de material genético.

Lucas Emanuel/UFPE Exaustores do ar condicionado na lateral da parede do primeiro andar do antigo NIDE, local apontado como possível ponto onde as chamas começaram Lucas Emanuel/UFPE
Com uma área construída de 2.967 metros quadrados e dois andares, o antigo DINE sediava também o Departamento de Educação Física e o Laboratório de Biossegurança nível 3 (NB3). Toda a estrutura foi destruída. A causa do incêndio não foi revelada. Em nota a Pesquisa FAPESP, a Polícia Federal de Pernambuco declarou que um inquérito sobre o desastre está em andamento. Já o Corpo de Bombeiros informou à reportagem que o controle das chamas contou com oito viaturas e que a causa das chamas será apurada por meio de perícia técnica.
Mais de 90 pesquisadores de mestrado e doutorado e outros 20 de iniciação científica trabalham no Nupit. Passado o choque em relação à tragédia, o professor diz que os esforços estão sendo canalizados para a realocação desses pesquisadores e a retomada de seus projetos. “Tanto o Ministério da Ciência e Tecnologia quanto a Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] se dispuseram a nos ajudar com ações de mobilidade, pagando para que os estudantes tenham acesso a outros laboratórios, tanto no Brasil quanto no mundo”, afirma. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Capes e a Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe), órgãos que fomentavam pesquisas no prédio destruído, já prorrogaram as bolsas de estudo.
Para Rego, a mobilização da comunidade científica em prol dos afetados pelo incêndio traz algum alívio. “Uma das coisas mais bonitas que aconteceram a partir dessa tragédia foi a solidariedade. A gente não para de receber ligações de professores de diversas instituições do Brasil, oferecendo os seus laboratórios”, diz ele.

Arquivo pessoal/Michelle Melgarejo Área de pesquisa sobre casos de suicídio entre policiais rodoviários, cujas amostras foram completamente destruídas Arquivo pessoal/Michelle Melgarejo
Entre os pesquisadores que atuavam na área incendiada estava a neurocientista Michelle Melgarejo, que investigava como a combinação entre o estresse no ambiente de trabalho e variações genéticas favorecia casos de depressão e suícidio entre os policiais rodoviários de Pernambuco. Trata-se de um problema crescente no Brasil. De acordo com a mais recente edição do Anuário de Segurança Pública, 110 policiais tiraram a própria vida no país em 2025. De 2017 até aqui, esses suicídios cresceram 37%.
Com a catástrofe, Melgarejo perdeu 20 amostras de sangue de policiais que eram acompanhados. A pesquisa tinha perspectivas de ser ampliada para outros grupos populacionais. Os primeiros dias após o incêndio, conta Michelle, foram marcados pela perplexidade e pelo abalo emocional. “Eu comecei a receber hoje pela manhã mensagens dos estudantes dizendo que só agora pararam para pensar em como o projeto vai continuar. As perdas não envolveram apenas equipamentos, amostras, reagentes, mas histórias que estavam sendo contadas.”

Arquivo Pessoal Victor Ferreira perdeu parte dos dados do doutorado sobre o impacto da pandemia da Covid-19 no desempenho escolar de crianças Arquivo Pessoal
Já o doutorando Victor Ferreira estava prestes a defender a sua tese, desenvolvida no Departamento de Educação Física. Parte dos dados produzidos em oito anos de pesquisa com estudantes dos Ensinos Fundamental I e II do município de Lagoa do Carro viraram cinzas em minutos.
O trabalho teve início com análises de desempenho cognitivo dos estudantes. Com a chegada da pandemia, o pesquisador direcionou a investigação para o impacto dela no desempenho escolar dos avaliados. A partir de então, passou a combinar análises da performance acadêmica, pelos resultados da prova do Sistema de Avaliação da Educação Profissional (Saep), com a do desempenho cognitivo, usando técnicas que mediam o nível de atenção dos estudantes.
Os resultados das análises foram salvos, mas as informações obtidas nas análises de atenção, que estavam escritas em papel, foram destruídas por completo. “Como a gente não tinha tabulado os dados ainda, uma parte do trabalho, que seria a devolutiva dos dados para a população, fica comprometida”, explica.
Rafael dos Santos, diretor de Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação da UFPE, lamenta a perda. “É um projeto que provocou mudanças sociais dentro do município. Criação de praças, parques, implementação de aulas de educação física, várias outras coisas que foram derivadas de resultados do projeto e que impactam diretamente no desempenho acadêmico.”
O laboratório, localizado nas salas do andar inferior do prédio, tinha vínculos com a Secretaria de Ciência e Tecnologia do governo estadual, por meio de um Programa de Rede de Inovação da Facepe. Alguns dos equipamentos estavam em locais externos, como quadras de esporte, razão pela qual não foram danificados. O grupo tinha projetos nas áreas de envelhecimento, infância e juventude, bem como monitoramento de performance física em práticas de dança, como o tradicional frevo. A captura desses movimentos para análise envolvia equipamentos como câmeras tridimensionais de captação detalhada e fotocélulas.
Fonte: Revista Pesquisa Fapesp