Todos pagaríamos a conta de um eventual e indesejável desgoverno da extrema-direita
Por Milton Rondó — Carta Capital
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Diplomata
O que traz alento neste momento tão dramático é o engajamento dos jovens
“Quem trabalha e mata a fome não come o pão de ninguém. Quem ganha mais do que come sempre ganha o pão de alguém” – Provérbio português
Estamos diante de uma eleição em que todos pagaremos a conta do eventual, indesejável e terrificante desgoverno da extrema-direita.
A hipótese pavorosa da chegada do fascismo ao poder resultará em mais mortes de aposentados (pois haverá desindexação entre aposentadorias e salário mínimo), fim do Bolsa Família, desidratação do SUS e entrega das riquezas nacionais como a Petrobras, a Embraer, a Floresta Amazônica — inclusive as terras raras e as demais riquezas minerais que ela encerra — para governos e capitais estrangeiros.
Temos menos de uma semana de luta, mas há uma clara ascensão das mobilizações populares, seja nas redes sociais, seja nas ruas de todo o País.
Em Porto Alegre, ganharam as praças mais de 150 mil pessoas, equivalente a um décimo da população da capital gaúcha, para recepcionarem Lula e celebrarem o triunfo futuro da democracia sobre a barbárie.
Ao lado disso, Lula e sua família abriram seus sigilos bancários e telefônicos, ao contrário do que fez o candidato da extrema-direita.
Com efeito, para se aferir o grau de corrupção da família Bolsonaro basta comparar seus ingressos e os bens amealhados: só em imóveis, 107, dos quais 53 comprados com dinheiro vivo… Com o salário de senador, Flávio Bolsonaro demoraria 15 anos para pagar a mansão que adquiriu em Brasília, no valor de mais de 6 milhões de reais, a qual rapidamente quitou.
Por coincidência, o Banco Regional de Brasília, sob as ordens do aliado Ibaneis Rocha, então governador do Distrito Federal, alocou mais de 2 bilhões de reais no falido Banco Master.
O que traz alento neste momento tão dramático é o engajamento dos jovens.
Há muito não se viam tantos, liderando as passeatas, criando símbolos, inovando linguagens escritas, visuais e corporais.
Em Pele Negra, Máscaras Brancas (editora Ubu), Frantz Fanon recorda: “…na verdade o que é necessário é libertar o homem”. Entretanto, a extrema-direita visa exatamente o contrário: escravizá-lo, para que satisfaça os desejos apenas de uma minoria, violenta, armada e predadora do trabalho humano e bens comuns, como o ar, as águas e as terras; incorporando para si o que pertence a todos.
Não foi à toa que Jair Bolsonaro liberalizou a compra de armamento e o candidato Flávio apoiou um projeto de lei para permitir a raspagem dos números das armas e das munições, de sorte a dificultar a identificação da autoria de disparos, mormente os criminosos.
Autêntico libertário, Fanon vai mais longe naquela obra e afirma: “Não se deve tentar fixar o homem, pois seu destino é ser liberto”.
Mas só pode gozar da liberdade aquele que não trabalha seis dias por semana, razão pela qual o presidente Lula apoiou a proposta de emenda constitucional — apresentada pela deputada Erika Hilton — para reduzir de seis para cinco os dias semanais trabalhados, sem perda salarial.
Em outra obra, Os condenados da terra, Fanon alude à importância de uma geração assumir seu papel histórico: “No interior de uma relativa opacidade, cada geração deve descobrir sua missão, cumpri-la ou traí-la”.
Pois bem, está claro que a atual geração descobriu sua tarefa — e não a abandonou.
Um enorme alento para aqueles que, como eu, já temos a cabeça branca e não víamos sinais claros de renovação na luta.
A angústia do próximo pleito foi aliviada por essa originalidade, combatividade e alegria demonstrada pelas novas gerações, em momento tão delicado para a nação.
A complexidade destas eleições pode ser aquilatada por mais esta reflexão de Fanon, em Pele Negra, Máscaras Brancas:
“Os psicanalistas dizem que não há nada mais traumatizante para a criança pequena do que o contato com o racional. Pessoalmente, eu diria que, para um homem que só tem a razão como arma, não há nada mais neurótico que o contato com o irracional”.
Em grande parte, é disso que se trata: temos de lidar com o irracional, seja o medo do comunismo seja dos banheiros unissex.
Daí a dificuldade em dialogar com o que escapa à razão e se aloja em um campo mais próximo da crença cega, do misticismo supérfluo, da instrumentalização da religião com finalidade política.
No entanto, se a religiosidade pode ser instrumentalizada para o mal, também é possível tê-la como potentíssima aliada do bem.
Com efeito, ainda naquela obra Fanon cita Aimé Césaire, seu conterrâneo da Martinica, que irá mesclar o espírito do Cristo com a generosidade latino-americana, em cuja fonte também beberia o Che Guevara.
Reflete o deputado Césaire: “Em qualquer lugar do mundo não há desgraçado linchado ou torturado que não seja eu também assassinado e humilhado”.
Assim deveremos votar no dia 25: pelos linchados, torturados, pelas mulheres vítimas de feminicídio, pela população LGBTQIAPN+, pelas pretas e pretos, idosos, empobrecidos, deficientes, todos aqueles e aquelas à margem da sociedade, para que a exclusão de toda, todo e tode seja sentida como se fosse de todos nós.
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Fonte: Carta Capital