‘Overman’ leva humor ácido de Laerte dos quadrinhos para as telas de cinema

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A Gazeta

Caco Ciocler no set de filmagens de 'Overman', em que vive personagem da cartunista Laerte

Caco Ciocler no set de filmagens de ‘Overman’, em que vive personagem da cartunista Laerte
Felipe Chueng/Divulgação
“Todo o desejo dele é virar um filme da Marvel”, diz Caco Ciocler sobre Overman, o super-herói criado por Laerte nas tiras da Folha em 1998. “Mas ele tem que lidar com problemas daqui, com supervilões que peidam.”

Desempregado, endividado e morador de uma pensão, o personagem é a figura central de “Overman”, comédia dirigida por Tomás Portella que estreia nesta quinta-feira.

O protagonista recebe uma proposta de emprego do governador, interpretado por Otávio Müller, para atuar na Secretaria de Segurança Pública. Aceita a oportunidade de recuperar o prestígio, mas precisa dividir o trabalho com Pâmela, a Mulher Cachorro.

A eficiência da nova parceira de Overman e a atenção que ela recebe agravam a insegurança de um homem que já não consegue administrar a própria vida.

A adaptação mantém uma contradição do personagem de Laerte: Overman tem poderes para salvar outras pessoas, mas não resolve seus problemas mais comuns. Para os realizadores, o desafio foi fazer desse sujeito o protagonista de um longa-metragem sem transformá-lo em uma versão nacional dos heróis de Hollywood.

“É um cara que é super inseguro, mas fica fingindo o tempo inteiro que é super seguro”, afirma Portella. O diretor vê no personagem um exagero das dificuldades masculinas de lidar com as regras sociais. Também identifica uma sátira ao próprio país: alguém com grande potencial que acaba empregando suas forças de maneira equivocada, às vezes contra si mesmo.

O projeto é da produtora Iafa Britz, da Migdal Filmes. “Tem como grande inimigo a burocracia, tem como grande inimigo uma certa preguiça, a lei do menor esforço”, diz Britz. “E, ao mesmo tempo, é adorável, porque ele é muito transparente.”

Segundo Britz, Laerte participou de momentos decisivos, como a leitura de um tratamento do roteiro, mas preferiu manter uma atuação discreta.

O humor, diz o diretor, continua baseado na incapacidade de Overman de compreender as próprias atitudes. Ele se vê como herói exemplar, mas frequentemente se mostra preguiçoso e arrogante.

Já o humor político, acrescenta Portella, também procura seguir Laerte. O filme faz piadas tanto com a direita e o capitalismo quanto com a esquerda.

Para Ciocler, o problema era dar existência física a um personagem que até então se expressava em desenhos. “A tirinha não tem voz, não tem nariz. Eu tenho um baita de um nariz”, diz. O ator precisou encontrar o tom de voz e os movimentos adequados a um corpo exageradamente musculoso, moldado por um figurino de enchimentos.

Ciocler conta que, ao rever o longa, identifica cenas em que ainda procurava o personagem. Ele só encontrou o caminho quando percebeu que, como Overman, tentava corresponder a um modelo que não dominava. “Eu tô passando a mesma coisa que o personagem tá passando.”

Foi quando decidiu incorporar a própria hesitação à interpretação. A insegurança deixou de ser apenas uma característica escrita no roteiro e passou a orientar a maneira como ele representava o herói.

Houve dificuldades práticas. A máscara original não funcionava como esperado, problema já relatado pelo ator à Folha durante as filmagens, em 2023. A equipe encontrou uma explicação dentro da história para substituí-la.

O traje musculoso também tornava as diárias desconfortáveis -era quente, precisava ser seco para não aparecer molhado de suor e levava tanto tempo para ser retirado que o ator evitava até beber água.

Se Overman já tinha dificuldades de convívio nos anos 1990, a presença de uma colega competente apresenta uma situação especialmente constrangedora. Interpretada por Karina Ramil, Pâmela trabalha, enfrenta os problemas e recebe o reconhecimento que ele gostaria de monopolizar.

“Ela não quer ensinar nada. Ela quer ali fazer o dela”, afirma a atriz. “Não é uma competição.” Para Ramil, a tentativa de tratar os personagens como pessoas, mesmo dentro do absurdo, foi decisiva para impedir que a adaptação se resumisse a uma sucessão de caricaturas.

A discussão sobre reconhecimento aparece de outra maneira na personagem Poline Pilsen, influenciadora digital interpretada por Maria Lucas. A atriz vê nas redes sociais uma continuação das questões de vaidade e exposição que Laerte já explorava antes do surgimento dessas plataformas.

“Somos todos ‘over’ de alguma forma”, diz. Lucas, que faz seu primeiro longa-metragem, destaca ainda a presença de atores negros e de uma atriz trans em papéis de pessoas comuns, não de super-heróis.

Já Ésquilo, interpretado por Victor Lamoglia, dispensa a reverência que o protagonista procura nos outros. Dividindo um quarto na pensão, ele conhece o super-herói longe do espetáculo de suas façanhas. “Para a galera você é o Homem-Aranha, para mim você é o cara que mora aqui comigo”, diz o ator, resumindo a perspectiva de seu personagem.

Os realizadores dizem ter buscado a lógica da comédia brasileira, em vez de reproduzir a escala dos filmes americanos. “A gente não tem US$ 250 milhões para fazer um filme”, afirma Portella.

Para o diretor, disputar o público infantil dos grandes lançamentos de super-heróis com as mesmas ferramentas seria uma escolha sem sentido. O diferencial de “Overman” está no humor adulto, na crítica social e nas piadas escrachadas.

Britz, a produtora, espera atrair leitores de Laerte, fãs de quadrinhos e interessados num super-herói brasileiro. Ela recupera uma definição de Portella: “Quando Deadpool encontra Macunaíma”.

A preocupação com o público levou a equipe a organizar sessões de teste com espectadores jovens durante a montagem. Segundo ela, foram convidados adolescentes e pessoas com menos de 20 anos, que responderam a formulários e discutiram o que funcionava.

Os comentários fizeram a produção repensar escolhas que poderiam agradar apenas aos próprios realizadores.

Ciocler gostaria que a história continuasse em outros filmes ou mesmo em uma série. Ele diz que o universo das tiras contém vilões que não couberam neste primeiro longa. Antes de pensar em novas aventuras, porém, espera que o público aceite um herói bem distante dos padrões americanos.

“Eu queria que as pessoas ficassem nesse lugar também de achar tosco e bom ao mesmo tempo”, diz. “E rissem sem saber direito do que é que estão rindo.”

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Fonte: A Gazeta

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