Quem mora longe também constrói o Brasil
Por Rafael Henrique Zerbetto — Brasil 247
Em momentos de polarização política, como o atual, até mesmo os brasileiros no exterior acabam sendo chamados de “traidores” e têm seu patriotismo e até mesmo seu direito ao voto contestados.
A premissa é quase sempre a mesma: quem saiu deixou de pertencer ao país. Mas às vezes essa lógica é invertida, conforme a conveniência: grupos extremistas têm denunciado eleitores de Lula às autoridades do país onde vivem para que sejam repatriados.
Quem vê a repatriação como punição já demonstra um profundo desprezo pelo próprio país, e querer repatriar o eleitor de Lula é, paradoxalmente, um reconhecimento de que é esse eleitor que pertence ao Brasil; logo, tem o direito de votar e de apoiar candidatos nas eleições brasileiras.
É intuitivo imaginar o brasileiro que emigrou como um desertor, alguém que preferiu o conforto de outra terra à tarefa de construir um Brasil melhor ao lado dos seus. Mas a experiência nos mostra o contrário: muitos brasileiros no estrangeiro fazem muito pelo país e, mais importante, continuam sendo brasileiros — com os mesmos direitos e a mesma legitimidade de quem nunca saiu.
O passaporte fala primeiro
Mas quem vive no exterior sabe: a primeira pergunta que lhe fazem não é o seu nome, mas a sua nacionalidade. O passaporte precede a identidade individual. E o passaporte brasileiro não expira com a distância, nem se torna menos brasileiro por ter sido emitido em outro continente.
Além disso, quem vive no estrangeiro continua sujeito às decisões tomadas no Brasil — da política cambial à previdência, das relações diplomáticas à imagem do país no exterior, que recai sobre cada brasileiro individualmente.
Por isso o voto de quem vive fora tem o mesmo valor do de quem vive no país, e a impressão de que o eleitor no exterior não tem compromisso com o Brasil não sobrevive a uma análise mais profunda. Em diversos aspectos, quem está fora do país é o primeiro a pagar a conta – ou o pato. Mas é justamente esse eleitor que vem sendo tratado como suspeito.
A perseguição ao eleitor brasileiro no exterior
A contestação ao voto de quem vive fora não é um fenômeno isolado: o voto de nordestinos, mulheres e pessoas de baixa renda ou escolaridade também costuma ser contestado.
Após o primeiro turno das eleições de 2026, perfis bolsonaristas mobilizaram campanhas para identificar, expor e ameaçar brasileiros que votaram em Lula, incluindo tentativas de acionar autoridades migratórias contra compatriotas na Coreia do Sul, no Japão, na Bélgica e na Polônia.
O que sustenta esses ataques é o velho preconceito de achar que quem está fora não deveria opinar sobre o Brasil, um preconceito seletivo que só vale para quem tem uma opinião diferente da de quem ataca.
Por trás desse ódio está a lógica das redes sociais, que polarizam a sociedade ao separá-la em grupos antagônicos alimentados por algoritmos, para, a partir daí, fortalecer os sentimentos de pertencimento a um lado e antagonismo ao outro lado.
É perfeitamente válido discordar de alguém, mas questionar o direito ao voto – ou a permanência no país onde vive – de alguém é uma manifestação de intolerância incompatível com a consciência democrática.
O que os brasileiros no exterior fazem pelo Brasil
A contribuição da diáspora brasileira se manifesta não apenas no serviço diplomático e na promoção da cultura e da língua, mas também na facilitação do comércio e da abertura de mercados para os produtos brasileiros, na formação de redes de apoio a compatriotas no estrangeiro e na representação cotidiana do Brasil em ambientes internacionais. Fora de seu país de origem, o brasileiro acaba se tornando um embaixador informal de sua própria cultura — sem cargo, sem salário e sem reconhecimento oficial.
Além disso, a maioria dos brasileiros no exterior mantém vínculos econômicos, afetivos e familiares com seu país de origem. Boa parte deles tem planos de retornar ao Brasil após fazer um pé de meia ou se aposentar, enquanto outros desejam ficar no exterior, mas os que não conseguem obter residência permanente no país escolhido acabam tendo que voltar.
O que podemos aprender com a diáspora chinesa
A China trata sua diáspora como um ativo estratégico. Em vez de questionar a lealdade de quem mora fora, o país criou políticas para atrair seu capital, seu conhecimento e seus círculos de influência.
Essa estratégia deu tão certo que cerca de 60% do investimento estrangeiro direto atraído no início da reforma e abertura veio dos chineses no ultramar, e mais de 70% das empresas com capital estrangeiro no país eram propriedade de chineses no exterior.
A lógica se estendeu aos estudantes e trabalhadores. Programas como o Plano Chunhui, criado em 1996, financiaram o retorno temporário ou permanente de pesquisadores chineses que atuavam no exterior, com mais de 1.300 projetos de cooperação científica apoiados desde 2012.
É interessante notar que este programa tem semelhanças com o Conhecimento Brasil, criado pelo presidente Lula neste seu terceiro mandato para repatriar cientistas brasileiros que emigraram. Não foram poucos os que deixaram o país durante os governos Temer e Bolsonaro, diante dos cortes e incertezas que inviabilizaram suas pesquisas; trazê-los de volta é um chamado à reconstrução do país.
Não precisamos importar o modelo chinês, mas devemos reconhecê-lo como uma experiência exitosa de relacionamento entre um país e sua diáspora e tirar lições disso, pois a diáspora brasileira tem muito a contribuir para o desenvolvimento do Brasil, só está à espera de políticas que viabilizem isso, e Lula está mais próximo de nos dar tal oportunidade que Flávio Bolsonaro.
O Brasil, que sempre celebrou os imigrantes que chegaram — alemães, italianos, japoneses, sírios, libaneses, entre outros —, não consegue estender a mesma generosidade a quem partiu e mantém vínculo. Quando fizer isso, aprenderá o valor estratégico da comunidade brasileira no estrangeiro.
Cidadãos em igualdade
A comunidade brasileira no exterior não é um corpo estranho à nação: é parte dela, com suas contradições, suas diferentes escolhas políticas e sua contribuição concreta. Tratá-la como suspeita em momentos de disputa eleitoral não fortalece o Brasil nem a democracia, apenas transfere para o exterior uma divisão que o país precisa resolver internamente.
Fonte: Brasil 247