Produtora de Dark Horse fechou acordo com operador do Banco Master
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – Um ano antes de iniciar os entendimentos para realizar a obra audiovisual sobre Jair Bolsonaro (PL), a responsável pela empresa encarregada do projeto, Karina Gama, firmou um termo de confidencialidade e prospecção comercial com a Master Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários, pertencente ao empresário Daniel Vorcaro, informa reportagem do jornal O Estado de São Paulo.
O termo firmado em novembro de 2021 visava à viabilização de intercâmbio de informações estratégicas para a eventual abertura de frentes de negócios. O instrumento teve a assinatura de Ascendino Madureira Garcia, apontado em apurações levadas a cabo pela Polícia Federal como operador encarregado de movimentar recursos financeiros de Vorcaro alocados em fundos de investimentos.
O registro oficial desmente declarações anteriores da produtora, demonstrando pela primeira vez a existência de um canal formal de aproximação com a instituição financeira de Vorcaro. O contrato em questão estipulava um período de vigência de cinco anos, janela temporal exata em que a obra cinematográfica intitulada “Dark Horse” foi desenvolvida pela empresa Go Up.
Foi ao longo do ano de 2022, pouco tempo após a formalização do pré-acordo com a corretora, que a executiva iniciou tratativas com o ex-secretário de Cultura e atual deputado federal Mario Frias (PL-SP). À época, Frias negociou diretamente com Jair Bolsonaro a cessão dos direitos para a realização da cinebiografia, repassando a condução da produção para a empresa de Karina. No mesmo ano, a produtora prestou serviços para a campanha eleitoral de Frias à Câmara dos Deputados, fortalecendo a aliança entre ambos.
A existência do compromisso formal contrasta com manifestações dadas por Karina em setembro à CNN Brasil, ocasião em que negou qualquer tipo de transação com a instituição ou seu controlador: “Não existiu nenhuma relação da produtora com o Vorcaro. Não existiu nenhuma relação da produtora com as empresas do Vorcaro, não existiu”, disse em setembro.
Entretanto, as remessas financeiras para o financiamento da produção ganharam corpo após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) solicitar aportes diretamente a Daniel Vorcaro. Interceptações e diálogos reunidos pelos investigadores federais revelam negociações que somavam US$ 23 milhões. Deste montante, aproximadamente US$ 10 milhões acabaram transferidos por meio de transações efetuadas por um operador financeiro até um fundo sediado nos Estados Unidos, gerenciado por um advogado ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). A estrutura no exterior ficou encarregada de direcionar o capital para a confecção da obra.
As autoridades policiais identificaram “divergências relevantes” no conjunto documental remetido pela produtora com o intuito de fundamentar e justificar os ingressos de divisas norte-americanas em território nacional.
Atualmente, o enredo é objeto de apuração em dois inquéritos instaurados no Supremo Tribunal Federal. O primeiro deles, conduzido pelo ministro André Mendonça, busca apurar eventual condita ilícita e suspeitas de crimes imputados a Flávio Bolsonaro no trâmite de captação dos valores. A segunda frente, sob a relatoria do ministro Flávio Dino, investiga possíveis desvios de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares destinados a um instituto gerido por Karina Gama, sob a suspeita de que verbas orçamentárias possam ter irrigado a produção audiovisual.
Posicionando-se sobre o caso por meio do advogado Ricardo Sayeg, a defesa de Karina Gama declarou que a apresentação de projetos a agentes do mercado financeiro consiste em prática habitual da atividade cultural e alegou não haver comprovação de repasses originados do referido pacto: “o mencionado suposto acordo de confidencialidade remonta a 2021, quando não havia o mínimo problema com o Banco Master, sendo que Karina sequer se recorda de sua existência ou assinatura. Caso tenha sido celebrado, o que admite apenas para argumentar, inseriu-se exclusivamente nesse contexto de prospecção comercial ao mercado em geral no longínquo ano de 2021, sem qualquer contato direto com a cúpula do Banco Master, muito menos com Daniel Vorcaro, com quem Karina jamais manteve contato pessoal”.
A nota emitida pelo advogado acrescenta ainda: “Karina portanto sempre disse a verdade que não conhece e não tem qualquer tipo de relacionamento com o Daniel Vorcaro”.
A defesa pontuou que “nenhuma captação ou patrocínio resultou daquela iniciativa de 2021” e sustentou que a cliente “também não conhece nem se recorda de Ascendino Madureira, pessoa que sequer seria capaz de reconhecer se a encontrasse pessoalmente”.
Diante disso, o advogado conclui na manifestação oficial que “é absolutamente indevida qualquer tentativa de atribuir ao referido documento de 2021 uma relação negocial efetiva ou vinculá-lo à posterior produção do filme Dark Horse”.
Fonte: Brasil 247