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Publicado em 20 de Outubro de 2026 às 04:05

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Assisti, com profundo sentimento de desalento, ao debate ocorrido na noite de domingo (18) entre os dois candidatos à presidência da República.

Um espetáculo dantesco se descortinou por cerca de duas horas diante de nossos olhos, mostrando que a capacidade humana de produzir absurdos continua pródiga e carregada de sementes ainda a germinar.

A distopia, o caos, o deboche e o desrespeito explícito são a representação de um novo paradigma que começa a ser compartilhado por muitos, na medida em que é aceito, não questionado e naturalizado.

Por mais fértil que fosse minha imaginação ao projetar o que poderia acontecer naquela noite, jamais poderia imaginar que chegaríamos ao ponto do absurdo do ilusionismo que fomos constrangidos a presenciar, em que realidade e ficção eram de tal forma apresentadas que já não éramos capazes de distinguir entre o que fazia parte do mundo físico, palpável, objetivo, autêntico ou real e a fantasia mítica de um mundo imaginário.

A falta de conexão entre perguntas e respostas foi absoluta. Na prática, é como se o formulador da questão a fizesse em português e o respondente, que não falasse e não compreendesse a língua, respondesse qualquer outra coisa em húngaro, língua de matriz urálica, sem qualquer liame com a estrutura linguística de matriz latina como o português.

Ao público, perplexo, restava quedar-se incomodado, desrespeitado e paralisado, sem qualquer capacidade de justificar o tempo perdido, esperando que algo pudesse acontecer para restaurar a racionalidade perdida.

Alguns, mais determinados e rápidos a sair do estupor, desligaram a televisão, na expectativa de acordar do pesadelo. Não imaginavam eles que o pesadelo talvez pudesse acompanhá-los, na medida em que se pusessem, no travesseiro, a pensar nos riscos decorrentes do resultado das eleições.

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Imagino, compadecida, a situação dos jornalistas que conduziam o espetáculo, sem qualquer controle do palco e da plateia, sonhando, certamente, com a conclusão do debate a fim de que pudessem bater o martelo e anunciar que o tempo havia se encerrado e que o debate, tortura mental vivenciada, estava concluído.

Se a imprensa, a televisão em especial, uma das estruturas de poder mais consolidadas, chegou a estabelecer as regras de civilidade, respeito e integridade que não foram seguidas, não há o que esperar do futuro e da democracia.  O intolerável já foi tolerado e passa a se constituir o novo normal.

A pergunta que se impõe a nós neste momento é se estaremos nós, pobres mortais, assistindo aos estertores finais, indicativos da morte da razão, da verdade e das luzes, retrocedendo a tempos anteriores à Idade das trevas, quando a modernidade e a ciência ainda não haviam nos ajudado a iluminar a escuridão da ignorância, da estupidez e da ausência de senso ético/político e jurídico. 

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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