Por Rodrigo Martins — Carta Capital

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Iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, da UFMG e do IEPI. Monitora grandes questões e elementos relativos às eleições e aos processos eleitorais. Contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros no financiamento e na divulgação

O Nordeste ainda pode dar mais votos a Lula no segundo turno, mas a aritmética mostra que a região sozinha não fecha a conta

Por Luciana Santana*

Em “Os limites da hegemonia”, publicado em CartaCapital no fim de agosto, argumentei que o Nordeste presidencial, fortemente lulista, convivia com um Nordeste estadual cada vez mais autônomo, e que a eleição de 2026 poderia revelar não o fim da hegemonia de Lula (PT) na região, mas seus limites. O primeiro turno confirmou as duas faces desse diagnóstico.

De um lado, Lula venceu nos nove estados, de 70,99% dos votos válidos no Piauí a 54,73% em Alagoas, e somou 21,5 milhões de votos, ou 63,77% dos válidos nordestinos. De outro, perdeu participação em todos eles em relação a 2022, com queda de quase cinco pontos no Maranhão e de mais de três na Bahia, no Piauí e no Rio Grande do Norte, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) alcançou 30,85% na região, acima dos 27% obtidos por seu pai quatro anos antes. A hegemonia resistiu, mas encolheu.

O contexto nacional dá peso a esses números. Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% contra 45,16% de Lula, cerca de 2,2 milhões de votos à frente. Não por acaso, a campanha petista definiu duas prioridades para o dia 25: ampliar a votação no Nordeste e reduzir a abstenção. A pergunta, portanto, é objetiva: quanto Lula ainda pode crescer na região?

As primeiras pesquisas do segundo turno indicam algum espaço. A pesquisa Datafolha realizada entre 13 e 15 de outubro registra Lula com 66% dos votos válidos no Nordeste, contra 34% de Flávio, depois de 63% a 37% na rodada anterior. A Quaest de 10 a 13 de outubro aponta 61% a 32% em votos totais, o que equivale a algo próximo de 65% dos válidos. As duas convergem para um patamar em torno de 66%, cerca de dois pontos acima do primeiro turno.

O dado mais revelador, porém, está na distância entre os dois candidatos. No primeiro turno, ela foi de 32,9 pontos; no Datafolha atual, é de 32. Ou seja, o crescimento de Lula vem sobretudo da redistribuição dos cerca de 1,8 milhão de votos dados a outros candidatos, que se dividem entre os dois finalistas sem alterar de forma significativa a vantagem petista. Os recortes regionais têm margem de erro maior que a nacional, mas a tendência é a mesma nos dois institutos.

A aritmética ajuda a dimensionar o teto. O Nordeste teve cerca de 33,7 milhões de votos válidos no primeiro turno, e cada ponto de diferença entre os candidatos vale aproximadamente 340 mil votos. A vantagem de Lula na região foi de 11,1 milhões. Se o presidente repetisse o desempenho do segundo turno de 2022, quando chegou perto de 69% dos válidos nordestinos, a margem subiria para algo em torno de 12,8 milhões, um ganho de cerca de 1,7 milhão de votos.

Trata-se de um cenário otimista, que exigiria recuperar praticamente tudo o que foi perdido desde 2022, e ainda assim ficaria abaixo dos 2,2 milhões que separam os candidatos. Com Flávio ampliando sua vantagem no Sudeste, como sugere o próprio Datafolha, o Nordeste se confirma como condição necessária, mas não suficiente, para a reeleição.

A abstenção é a outra alavanca, e também tem alcance limitado. O Nordeste já teve a menor taxa do país, 18,36%, contra 21,08% na média nacional, com o Ceará abaixo de 16%. Num eleitorado de cerca de 43 milhões de votantes, reduzir a abstenção em dois pontos traria pouco mais de 850 mil eleitores às urnas. Se votarem na proporção atual, o saldo líquido para Lula ficaria na casa de 300 mil votos.

É relevante numa eleição apertada, mas é uma conta de centenas de milhares, não de milhões. E há um obstáculo adicional: em oito dos nove estados os governos foram decididos no primeiro turno. Sem disputa estadual em jogo, prefeitos, deputados e lideranças locais que organizam a mobilização no interior têm menos incentivos próprios para levar o eleitor de volta às urnas. A rede territorial que, como argumentei em agosto, sustenta as candidaturas estaduais agora precisa trabalhar por uma eleição que não é a sua.

O mapa estadual reforça essa leitura. Os estados onde Lula tem mais espaço para crescer são justamente aqueles em que a política estadual mostrou maior autonomia. Em Alagoas, seu pior resultado na região, JHC (PSDB) derrotou Renan Filho (MDB), aliado do presidente, e Flávio tem como vice o alagoano Alfredo Gaspar (PL). Em Pernambuco, Raquel Lyra (PSD) se reelegeu sobre João Campos (PSB). No Maranhão, onde a queda de Lula foi maior, Eduardo Braide (PSD) venceu com folga. Já no Piauí, na Bahia e no Ceará, onde PT e aliados venceram, Lula está próximo de seu teto histórico.

Não há, porém, correspondência mecânica entre resultado estadual e voto presidencial: Alagoas teve uma das menores perdas de Lula, e a Bahia, governada pelo PT, uma das maiores. É mais um sinal de que o eleitor nordestino distingue as duas escolhas.

O Rio Grande do Norte é a exceção que confirma a regra. Único estado da região com segundo turno para governador, coloca Cadu de Lula (PT), que incorporou o nome do presidente à urna, contra Allyson Bezerra (União Brasil), em empate técnico segundo a Quaest (45% a 42%). Ali, e somente ali, a nacionalização da disputa estadual será testada diretamente no mesmo dia. Uma vitória de Cadu indicaria capacidade de transferência. Uma derrota mostraria que nem a coincidência de palanques garante o alinhamento entre o Nordeste presidencial e o estadual.

O quadro, portanto, é de um piso sólido e um teto próximo. Lula pode chegar a 66% ou 67% dos válidos nordestinos, talvez mais se a mobilização funcionar, mas o ganho líquido de margem dificilmente passará de um ou dois milhões de votos.

O Nordeste segue sendo o que impede Flávio de abrir distância, não o que garante a vitória de Lula. O segundo turno será decidido no Sudeste, sobretudo em Minas Gerais e São Paulo. Na região, o desafio do presidente é menos crescer do que não perder o que já tem. A hegemonia permanece, mas seus limites, agora, são também os limites de sua reeleição.

*Luciana Santana é professora da Universidade Federal de Alagoas, onde também atua no programa de pós-graduação em Ciência Política. É também docente do programa de pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Piauí. Lidera o Grupo de Pesquisa Instituições, Governos, Comportamento Político e Democracia (CNPq) e integra a Red Politólogas, a Rede de Pesquisa em Política Subnacional da América Latina e a INCT: Representação e Legitimidade Democrática (ReDEM). Email: lucianasanta@ics.ufal.br.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


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Fonte: Carta Capital

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