Livro de magistrados mostra que a crônica aproxima-se da poesia

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Por Redação — Jornal Opção

Livro de magistrados mostra que a crônica aproxima-se da poesia

Itaney F. Campos

É um momento muito gratificante este, em que nos reunimos em torno do nascimento público de um livro. Uma coletânea de narrativas de magistradas e magistrados goianos. É o segundo volume da obra “Não Consta dos Autos”. Um livro de crônicas, de livre temário.

A crônica é, me parece, um formato  delicado da escrita literária. Carlos Drummond de Andrade, poeta maior e cronista exemplar, dizia que na crônica se estabelece “um diálogo leve com o leitor, onde o poeta desce do pedestal para comentar com ironia, ternura ou melancolia os pequenos acontecimentos urbanos”. Ou da nossa vivência, digo eu.

A crônica, com efeito, aproxima-se, em espírito, da natureza da poesia. Quando um magistrado (a) escreve uma crônica, ele(a) se livra da toga e veste uma camisa polo, sobre uma bermuda. E este evento é um “acontecimento” para todos nós que nos unimos e possibilitamos a aparição desta coletânea, como uma pequena estrela na órbita gigantesca do tribunal.

Para mim em especial, que, com o colega Altamiro Garcia, apoiados pelo Bruno Rocha, contribuí na sua organização, é motivo de muito regozijo. Ainda mais que daqui a pouco estarei me despedindo deste austero tribunal. Talvez por isso pediram que eu me pronunciasse. Sem dúvida, um livro coletivo merece celebração. Sim!

Leva-se mais tempo para gestar um livro do que para gestar um homem. Ninguém disse isso, parece, mas o afirmo agora. É a expressão da verdade. Poderiam argumentar que, para se fazer um homem, é preciso nascer, crescer e amadurecer biologicamente, resultando o novo ser da conjunção de um homem e uma mulher.

O livro dos magistrados seguirá seu curso. É fruto de uma tessitura complexa, em que se justapõem e se entrelaçam variadas narrativas pessoais, todas jungidas por um tear único: o contexto do entregador da jurisdição, mas fora da aspereza da função

Mas também o livro exige a junção da inteligência e da sensibilidade, somados à disciplina da escrita. Vezes há em que nem toda uma vida é suficiente para se escrever um livro. E como os filhos, os livros, após frutificados, deixam de ser nossos, porque, como disse o poeta, vêm através de nós, mas não de nós, e refletem a ânsia da vida.

Roland Barthes teorizou sobre o tema: o livro publicado já não pertence ao autor mas aos leitores e ao mundo.

E este que agora se traz a público teve uma gestação longa e difícil, reconheça-se, mas com o seu advento dissipam-se os aborrecimentos, as dores e os contratempos. Ele seguirá o seu curso, construirá a sua história e dentro dela a nossa história, porque é fruto de múltiplo artesanato, uma tessitura complexa, em que se justapõem e se entrelaçam variadas narrativas pessoais, todas elas jungidas por um tear único: o contexto do entregador da jurisdição, mas fora da aspereza da função.

São recortes da vida, retalhos que não constam dos autos. Reúnem-se neste livro relatos inéditos dos membros deste tribunal, homens e mulheres que se dedicaram à difícil e delicada tarefa de aplicar a lei, mas não só aplicá-la, e sim fazendo justiça, ou o que se tem por justiça, reverenciando a dignidade qualificadora de toda pessoa humana.

São eles os depositários da confiança de que há na justiça terrena, mesmo que esta seja fruto das circunstâncias históricas. Há neste livro um pouco da alma de cada um de seus cronistas: momentos de alegrias e de pesar, de esperança e desalento; de satisfação e desgosto; de arroubos e paciência; ainda que mal revelados ou delineados nas sombras da autocensura.

Há também narrativas de medo e perplexidade e solidão, porque, na tarefa de julgar, nem sempre se pode compartilhar as hesitações, os temores e os erros que podem refletir como tragédias nas vidas alheias.

São narrativas de episódios sensíveis na carreira de cada um de nós; são os bons juízes os que sofrem sob o peso da obrigação de julgar. Falar fora dos autos pode contribuir para reduzir as neuroses e revelar que o magistrado não é um burocrata insensível, mas um ser humano sujeito, como todos, às vicissitudes da vida.

Nossas fraquezas, confessadas, nos fortalecem; expostas ao sol, podem estiolar-se; isso nos faz próximos àqueles que buscam pela prestação da justiça; e revelam a nossa humanidade.

Para parafrasear os Evangelhos, benditos os que saciam aqueles que têm fome e sede de justiça. Com a mesma balança com que julgardes, sereis julgados, lembremo-nos sempre.

Agora que o fruto literário é colhido, celebremos essa comunhão de crônicas, regozijemos com a Comissão de Cultura, com o respeitado Judiciário goiano e com o povo  simples, respeitável e respeitoso do nosso Estado.

O livro aí está! Perfeito ou não, aí está, para o deleite de quem souber usufruir dos frutos que ele oferece, do seu sumo, do seu mel, e da sua acidez, que também disso se haurem lições. Lembrem-se: Não há criatura humana perfeita. Mas todas tem os seus dons e seus talentos.

Também não há livro perfeito. Neste haverão de encontrar equívocos, contudo espera-se que as suas virtudes superem as suas falhas e defeitos. Sejam complacentes com ele, amigos. Escutem suas confidências ou meras reminiscências, com a simpatia das grandes almas. Há, nos seus subterrâneos, sangue e lágrimas, e por mais forte que pareça, a expressão é verdadeira.

Um preso queria o meu relógio. Gostei muito do seu relógio, quero ele para mim, disse o preso. E eu perguntei o que ele tinha para dar em troca do meu relógio. E ele respondeu que tinha a aliança que usava. E fizemos a troca, assinala Gilberto Marques

Uma das histórias mais candentes foi aquela narrada pelo desembargador Gilberto Marques Filho, relativa ao episódio da rebelião dos presos do Cepaigo, durante a visita ao presídio do presidente do tribunal, desembargador Homero Sabino, com um grupo de juízes e juízas, inclusive ele, Gilberto, então diretor do Foro da capital.

Relato de Gilberto Marques sobre rebelião

“Acabamos sendo dominados pelos presos. A rebelião, que durou sete dias [em 1996], foi comandada pelo preso Leonardo Pareja e teve repercussão internacional. Ficamos reféns dentro do presídio por uma semana, de quinta a quinta.

“Foram momentos de tensão e agonia. Sete dias sem dormir. Para nos alimentarmos, comíamos batata  que ficava dentro de um latão. Não sabíamos o que acontecia lá fora do presídio e nem nossas famílias recebiam informações sobre o nosso Estado. Tive que usar de muita sabedoria para driblar as dificuldades e enfrentar as situações difíceis que passamos ali dentro do presídio.

Gilberto Marques Filho: desembargador que foi sequestrado | Foto: Divulgação

“Por exemplo, num momento estava eu e o presidente do TJGO à época, desembargador Homero Sabino, quando chegou um preso e falou que queria o meu relógio. ‘Gostei muito do seu relógio, quero ele para mim’, disse o preso. E eu perguntei o que ele tinha para dar em troca do meu relógio. E ele respondeu que tinha a aliança que usava. E fizemos a troca. E o desembargador Homero falou que eu não deveria ter feito a troca. E eu respondi que nós estávamos ali, reféns, mas eles tinham a gente como autoridade, e que não poderíamos fraquejar e nem demonstrar fraqueza, porque senão eles acabariam conosco. Tínhamos que usar da psicologia no trato com eles, respondi ao desembargador.

“Num outro episódio, apareceu um preso que eu o havia condenado a 30 anos de prisão quando era juiz em Trindade. Apenas eu e esse preso num corredor pequeno e ele com um chucho batendo na grade e me ameaçando. Ele batia e me ameaçava falando que eu o condenei com muitos anos de cadeia: ‘Pois é, doutor, o senhor me condenou com muitos anos de cadeia, mas agora você está na minha mão’, dizia o preso. No mesmo instante, chega o Leonardo Pareja, líder da rebelião, e chama a atenção do preso, dizendo: ‘Você está doido, se mata um juiz desse aqui a polícia invade e mata todo mundo!’ E Pareja conseguiu tirar o preso dali no mesmo instante.”

Gilberto Marques foi o último a ser liberado, e o foi em Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso, para onde fora levado como refém, num veículo conduzido pelos presidiários.” No veículo foram ele e mais cinco presos. Coisa de cinema, mesmo. Os colegas passaram por verdadeiros momentos de terror.

Este livro é também uma forma de reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelos julgadores deste Estado, uma maneira de preservar a sua história, que se entrelaça à memória institucional, parte da trajetória histórica do Poder Judiciário goiano, na altura de um século e meio de existência deste Sodalício. Para quem tiver sensibilidade para ler, será o testemunho de dramas e triunfos. Na ribalta, o movimento dos protagonistas, dos companheiros de jornada, dos tempos de fartura e também de vacas magras, ou seja, as estações  percorridas pela alma humana. Que a leitura deste livro proporcione enlevo e  entretenimento aos leitores, de agora e do futuro. E seja um laço afetivo e cultural que permanecerá na memória dos que dele, de qualquer forma, participaram.

Itaney F. Campos, desembargador, poeta e crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.

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Fonte: Jornal Opção

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