“Como laranja amarga”, de Milena Palminteri, traz as cores, sabores e amores da Sicília
Por Redação — Jornal Opção

Mariza Santana
As laranjeiras amargas sicilianas dão frutos que não são agradáveis ao paladar. Entretanto, quando enxertadas com outras variedades, se transformam em verdadeiras “árvores mães”, tornando fortes e viçosas as outras plantas que dela brotam. Essa descrição poética é da escritora italiana Milena Palminteri, natural de Palermo, na Sicília, no final do seu romance de estreia, denominado “Como laranja amarga”.
Na obra, a autora narra a saga de três mulheres da pequena cidade fictícia de Sarraca, na Sicília, – Sabedda, Nardina e Carlota -, cujos destinos estiveram intrinsicamente ligados. Sabedda era uma camponesa simples que foi seduzida pelo jovem nobre Stefano. Sem que o antigo amigo de brincadeiras de infância soubesse, Sabedda engravida, mas não tem condições de criar o bebê. Entra em ação, o guarda rural Dom Calogero, um mafioso da região encarregado de entregar o recém-nascido à mãe de Nardina, moça plebleia casada com o barão Carlos Canglialosi, que precisava de um herdeiro.
Filha natural da indomável Sabedda, adotada por Nardina, Carlotta quando recém-nascida, Carlotta cresce sem saber da trágica história do seu nascimento, mesmo dia em que seu pai adotivo morreu em um acidente de carro cercado de suspeita. Nem sequer desconfia que a babá Sabedda era sua verdadeira mãe. Intrigada com os mistérios que a envolvem, a jovem, agora trabalhando no Arquivo Notarial de Agrigento, tenta buscar as respostas aos seus questionamentos junto ao tio de coração, o advogado Peppino Calascibetta, uma testemunha dos acontecimentos do passado.

Em “Como laranja amarga”, a escritora descreve o cenário siciliano: o calor intenso do verão, a maresia do povoado que fica próximo ao mar, os mafiosos locais que praticam crimes e pequenos delitos, a política nacional marcada pelo início do fascismo e das primeiras ações de Mussolini. Enquanto isso, os personagens, entre eles humildes trabalhadores, o mafioso, os nobres já em decadência, todos seguem o ritmo inexorável do destino, os caprichos do amor e as tragédias diárias. Seguiram vivendo a vida, como ela é.
Mesmo sentindo os efeitos do momento político emergente sob o comando do Il Duce (O líder) Benito Mussolini, oriundo de Roma, os habitantes da Sarraca continuaram levando sua vida de forma singular, ou como qualquer morador insular. “Ninguém tinha entendido que, na ilha, nobres e plebeus, antes de se sentirem italianos, eram todos sicilianos, e Sicília era uma fé”, ressalta Milena Palminter em sua narrativa.
O romance é uma delícia de acompanhar, com seu linguajar siciliano falando sobre sentimentos que possuem características mundiais: amor, ódio, vingança e redenção. Milena Palminteri tem 77 anos de idade. Nasceu em Palermo e vive em Salerno, onde foi diretora dos Arquivos Nacionais da cidade.
Na década de 1980, a escritora deparou-se com a história registrada em um velho dossiê sobre um recém-nascido transportado em uma cesta e de uma mãe acusada de comprar o próprio filho. Foi a ideia que deu origem ao romance “Como laranja amarga”, que se tornou fenômeno editorial na Itália e foi publicado no Brasil este ano.
Mariza Santana é crítica literária. (Email: marizassantana@gmail.com)
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Fonte: Jornal Opção