Campanha de Lula apresenta relatório sobre interferência da Meta no processo eleitoral

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Por João Antonio Cunha — Brasil 247

247 – A equipe digital da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elaborou um relatório técnico que reúne denúncias de possíveis irregularidades na atuação da Meta durante as eleições de 2026. O documento aponta episódios envolvendo o Instagram, o Facebook e o WhatsApp que, segundo a campanha, podem ter provocado tratamento desigual entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa presidencial.

Intitulado “Relatório técnico sobre interferência da Meta no processo eleitoral brasileiro”, o material reúne registros de bloqueios de ferramentas de publicidade, diferenças de engajamento entre os candidatos, problemas na contabilização de visualizações, restrições à circulação de publicações e possíveis assimetrias nos sistemas de recomendação da empresa. A campanha também apresenta denúncias recebidas de usuários e estudos de organizações da sociedade civil.

O documento sustenta que os episódios precisam ser examinados em conjunto para verificar se houve aplicação desigual das regras da plataforma e prejuízo à igualdade de condições entre as candidaturas.

Entre os principais desdobramentos citados está uma decisão de 15 de outubro do ministro Marco Aurélio Bellizze, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que determinou medidas para assegurar tratamento isonômico às campanhas, sob pena de multa diária de R$ 500 mil, e encaminhou à Presidência da Corte a avaliação de uma fiscalização extraordinária do Plano de Conformidade da empresa.

Bloqueio de anúncios e diferença no engajamento

Um dos episódios relatados ocorreu em 23 de setembro, quando a conta de anúncios da campanha de Lula foi desativada, a 11 dias do primeiro turno. A Meta posteriormente reconheceu que a suspensão decorreu de erros no tratamento de restrições anteriores e afirmou que a conta foi reativada pouco mais de uma hora depois da desativação.

Segundo o relatório, a justificativa apresentada inicialmente pela empresa era genérica e não identificava claramente qual regra teria sido violada. Para a campanha, mesmo uma suspensão temporária poderia prejudicar a estratégia de publicidade eleitoral em um período decisivo.

Outro ponto envolve o desempenho dos perfis oficiais dos dois candidatos no Instagram. Na comparação entre publicações de 1º a 7 de outubro, o perfil de Flávio Bolsonaro tinha 13,6 milhões de seguidores, contra 16,4 milhões de Lula, mas registrava média de curtidas e comentários por publicação quase três vezes maior.

Nos Reels, as visualizações médias do candidato do PL chegavam a 15,64 milhões, ante 5,91 milhões nas publicações de Lula. A taxa de interação em relação ao número de seguidores era de 10,23% para Flávio e 2,86% para o presidente.

A campanha argumenta que essas diferenças justificam uma investigação sobre os critérios de distribuição e recomendação de conteúdo. Os números, isoladamente, não demonstram que a plataforma tenha manipulado deliberadamente o alcance dos candidatos.

O relatório também descreve interrupções na contagem de visualizações do Instagram em 7 de outubro e um bloqueio temporário do impulsionamento de publicações do perfil de Lula entre a manhã de 9 de outubro e as primeiras horas do dia seguinte.

Inteligência artificial e recomendações nas plataformas

Outro conjunto de episódios envolve a Meta AI. Segundo os testes apresentados pela campanha, solicitações semelhantes para gerar imagens de bandeiras brasileiras com as inscrições “Lula 13” e “Flávio 22” tiveram resultados diferentes: a ferramenta recusou a imagem associada a Lula e produziu a relacionada a Flávio Bolsonaro.

A campanha também questiona os resultados de busca de canais no WhatsApp. Ao procurar pelo canal “Exército do Lula”, a plataforma apresentava, entre os resultados relacionados, o canal “Tropa do Flávio”, ligado a apoiadores do candidato do PL. No sentido inverso, a pesquisa por “Tropa do Flávio” não apresentava canais relacionados a Lula ou ao PT, segundo o documento.

O relatório ainda reúne relatos sobre diferenças na exibição de Stories e sobre a recomendação de conteúdos produzidos por integrantes do campo político adversário, incluindo o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). A campanha pede que esses episódios sejam examinados para verificar se houve tratamento desigual na distribuição de publicações.

Mais de 3,2 mil denúncias recebidas pela campanha

O documento incorpora dados do canal Censura Digital, criado pela campanha para receber relatos de usuários sobre restrições, remoções de conteúdo e possíveis perdas de alcance nas redes sociais.

Entre 11 e 16 de outubro, o sistema registrou 3.202 denúncias consideradas válidas, relacionadas a 2.936 perfis. Os dados foram extraídos do painel em 16 de outubro e eram, em sua maioria, declarações dos próprios denunciantes ainda em processo de verificação. Naquele momento, 57 denúncias haviam sido validadas individualmente pela equipe.

O Instagram concentrava 1.863 registros, equivalentes a 58% do total. O WhatsApp aparecia com 391 denúncias, ou 12%, enquanto o Facebook somava 200, correspondentes a 6%. O levantamento também incluía relatos sobre outras plataformas.

Segundo o painel, 84% dos denunciantes não haviam recebido justificativa para a medida relatada. Além disso, 76% afirmavam ter perdido alcance após alguma ação da plataforma. O relatório ressalva que esses números refletem os relatos recebidos e não representam, por si só, a comprovação individual de todas as irregularidades apontadas.

Estudos apontam falhas na fiscalização de anúncios

O relatório também reúne pesquisas de organizações da sociedade civil sobre publicidade eleitoral, conteúdos gerados por inteligência artificial e redes de perfis coordenados.

Um teste da organização Ekō citado no documento identificou que a Meta aprovou 13 de 15 anúncios eleitorais falsos produzidos com inteligência artificial, sem identificação de conteúdo sintético e pagos por uma conta sediada nos Estados Unidos.

Outro levantamento, do VigIA, projeto do Observatório Lupa, identificou 64 conteúdos sintéticos durante o período de restrição do primeiro turno. De acordo com o relatório da campanha, 61 deles continuavam disponíveis na plataforma.

O Instituto Democracia em Xeque, por sua vez, mapeou uma rede de 255 perfis. Já uma pesquisa do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou 1.613 anúncios político-eleitorais pagos do exterior, com até 171,1 milhões de impressões e receita estimada de até R$ 2 milhões para a Meta.

Nesse levantamento, os anúncios contrários a candidatos somavam 1.356, aproximadamente três vezes os 446 anúncios favoráveis. O estudo também apontou dificuldades para identificar os responsáveis pelo financiamento de parte das peças.

Decisão do TSE impõe multa diária de R$ 500 mil

A campanha levou parte das denúncias ao Tribunal Superior Eleitoral. Em 15 de outubro, o ministro Marco Aurélio Bellizze deferiu parcialmente um pedido de tutela de urgência e determinou que a Meta adotasse medidas para garantir tratamento isonômico às candidaturas, sob pena de multa diária de R$ 500 mil até o fim do segundo turno.

Entre as medidas descritas no relatório estão restrições a mudanças na distribuição e na recomendação de conteúdo sem aplicação igualitária das regras, revisão humana prévia para bloqueios de contas de anúncios, providências contra publicidade eleitoral irregular e verificação de conteúdos sintéticos.

A decisão também encaminhou à Presidência do TSE a avaliação de uma fiscalização extraordinária do Plano de Conformidade apresentado pela Meta para as eleições de 2026.

A campanha sustenta que os episódios relatados devem ser avaliados à luz das regras eleitorais e das obrigações assumidas pela própria empresa. A Meta, por sua vez, alegou que falhas técnicas afetaram outros anunciantes e mercados. No caso do bloqueio do impulsionamento, afirmou que uma falha global atingiu mais de 3 mil anunciantes, mas, segundo o relatório, não havia apresentado comprovação dessa alegação até o momento descrito no documento.

O material conclui que a fiscalização deve considerar não apenas a remoção de publicações, mas também os mecanismos que determinam a distribuição, a recomendação e a visibilidade de conteúdos políticos nas plataformas.

Fonte: Brasil 247

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