Memórias de um foca nos anos de chumbo
Por Luis Pellegrini — Brasil 247
Cerca de 18 horas no dia 28 de março de 1968, no Rio de Janeiro, o estudante secundarista Edson Luis de Lima Souto foi baleado e morto durante uma manifestação no Restaurante Calabouço, ponto de encontro de estudantes no Centro da cidade. Os estudantes protestavam contra os altos preços e a péssima qualidade da comida servida no local.
Havia grande alarido no local quando as tropas da Polícia Militar chegaram para reprimir o protesto estudantil e invadiram o restaurante, disparando contra os jovens. Um tiro perfurou o coração de Edson, que morreu poucos instantes após o disparo.
Minutos depois o telefone tocou na redação dos Diários Associados, onde eu dava início à minha carreira de repórter, na Rua do Carmo, a poucas quadras do Calabouço: era alguém comunicando o atentado. Eu já tinha encerrado meu expediente e me preparava para ir embora quando ouvi a voz do Leo Guanabara, nosso chefe de redação: “Luis, Luis, você precisa ir ao Calabouço, a polícia acaba de matar um estudante”. Fui chamado porque todos os outros repórteres já tinham ido embora. A rigor, não seria trabalho para um foca quase sem nenhuma experiência como era o meu caso. Tinha só 23 anos, e há apenas uma semana conseguira o emprego. Mas fui para lá, a pé, correndo, um tanto atordoado, sem saber que aquela seria minha prova de fogo no jornalismo.
No restaurante, ao chegar, instalara-se um clima de pânico e revolta. Os estudante sabiam que, se a polícia ficasse com o corpo de Edson Luis, o crime certamente seria abafado, as evidências seriam destruídas e ele, como tantos outros antes, e também depois, seria transformado em um “desaparecido” ou o caso seria distorcido pelas autoridades.
Para impedir que a polícia sumisse com o corpo, os estudantes agiram rapidamente: eles recolheram Edson do chão do restaurante antes que o local fosse totalmente isolado. Carregaram o corpo nos braços e iniciaram uma passeata espontânea pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro. O destino final foi o palácio da Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara (Alerj). Os estudantes invadiram o local carregando o cadáver e exigiram que o velório fosse realizado ali mesmo, em espaço público, para garantir a segurança e impedir a intervenção do regime militar.
Acompanhei tudo isso, arrastado pelos acontecimentos. Consegui que o gerente de um bar nas proximidades me permitisse usar o telefone. Liguei para a redação algumas vezes e ditei, palavra por palavra, todas as informações que conseguira obter. Ainda não estávamos na era dos celulares e dos computadores. Foi minha primeira reportagem verdadeira, e também minha primeira lição de como e o quanto regimes autocráticos podem ser violentos, injustos e assassinos.
A rotina, nos meses que seguiram, foi a mesma: passeatas, protestos, manifestações que tornaram o Rio, e também São Paulo e outras cidades brasileiras em verdadeiras praças de guerra. No dia 31 de julho daquele mesmo ano eu fazia um duplo expediente no jornal O Paiz. O diretor, Newton Rodrigues, que gostava de mim e decidira se tornar meu guru no jornalismo tomou a decisão de me mandar para a cidade de Corumbá, no Mato Grosso, fronteira com a Bolívia. O ex-presidente Jânio Quadros acabara de ser confinado lá pelos militares.
E lá fiquei eu, durante três meses e meio, hospedado no Hotel Santa Mônica, onde também estavam Jânio, sua esposa Dona Eloá, mais uma pequena comitiva de amigos e jornalistas encarregados de cobrir o confinamento. Todos os dias, ao final da tarde, fazíamos fila para usar o mesmo telefone para ditar notícias aos seus respectivos jornais.
Na metade de novembro me mandaram finalmente de volta para casa, no Rio. E retomei minhas atividades na reportagem geral dos dois jornais, O Paiz e o Diário de São Paulo. No dia 13 de dezembro explode a bomba autoritária que iria mudar – para pior – o destino da nação: o Ato Institucional Número 13. E com ele todo um séquito de atrocidades começaram quase imediatamente. No dia 15 a redação de O Paiz foi invadida e empastelada por um destacamento militar. Destruíram móveis, utensílios, máquinas de escrever. Por sorte não mataram nem prenderam ninguém.
Chegamos bem cedo na manhã seguinte, para arrumar a redação e tocar o barco. No jornalismo, como no teatro, o show não pode parar. As 11 horas eu tentava redigir um texto quando o telefone da mesa ao lado da minha começou a tocar. Fui atender. Era a esposa de um colega redator. Queria falar com o marido. “Mas ele ainda não chegou, eu disse. Tinha uma entrevista marcada para as 10 horas. As pessoas que seriam entrevistadas vieram, esperaram uma meia hora, e foram embora”. “Mas ele saiu muito cedo, disse que tinha de ajudar na arrumação e falou dessa entrevista marcada para as 10 horas. Meu Deus, que terá acontecido?”
Marco desapareceu para sempre. Seu carro foi interceptado no bairro do Botafogo, a caminho do Centro. O Fuska foi encontrado abandonado numa rua do bairro. Soubemos depois que o coleguinha fora preso, levado para depor, torturado e, finalmente, levado de helicóptero para o alto mar e atirado às águas, lá de cima, com uma pedra amarrada aos pés para que afundasse mais rápido. Marco deixou viúva e dois filhos pequenos.
E a partir daí, dia após dia, a sarabanda do terror não mais parou. Dois ou três dias depois, Leo Guanabara me chamou na sua sala e perguntou: “Luis, você está envolvido com algum grupo contrarrevolucionário, de ações contra a ditadura? Um repórter que faz a cobertura jornalística dentro do DOPS, a polícia política, bateu os olhos numa lista de jornalistas que serão chamados para depor. Seu nome faz parte dela. E, você sabe, a metade dos que entram lá para depor não saem mais. Não sabemos o que eles estão fazendo com as pessoas. Você corre sério perigo, terá de sair do país o mais rápido possível”. E eu disse a verdade: “Não estou envolvido em nada, Leo. Só no meu trabalho de reportagem. De qualquer forma, tenho passaporte, mas não tenho visto de saída. Você sabe que o visto é o próprio DOPS que dá. Mas se eu aparecer lá e disser que quero viajar posso ser preso na mesma hora”. Leo pensou um pouco e disse: “Já sei, você vai sair de navio. Tenho um conhecido na Polícia Marítima que me deve uns favores, vou pedir a ele que lhe dê o visto. Enquanto eu o localizo, vá buscar o seu passaporte. Siga direto para a Praça XV, procure esse cara, ele já estará sabendo do que se trata.”
E, para encurtar a história, foi isso que fiz. Saí do prédio histórico da Polícia Marítima com meu passaporte com visto carimbado e assinado, e a recomendação do policial amigo do Leo ecoando nos meus ouvidos: “Suba no primeiro navio que puder e desapareça do país. E lembre-se: eu não te conheço e você não me conhece”.
E assim foi: poucos dias depois subi no navio espanhol Cabo de San Roque, com destino a Barcelona. De lá segui para Paris e lá, graças ao jornalista Ney Sroulevitch, diretor do escritório da revista Manchete, consegui emprego.
Só voltei ao Brasil em novembro de 1974, no governo Geisel, quando as coisas estavam mais amenas. Fui me hospedar na casa de uma amiga, em Copacabana. A primeira coisa que ela me disse foi: “Luis, não diga nada, não abra a boca em dois lugares aqui no Rio: dentro dos elevadores, pois quase todos, inclusive os do nosso prédio, tem gravadores para registrar as conversas; mesma coisa dentro dos taxis, boa parte dos taxistas são informantes da ditadura.”
Sim, eu tinha voltado ao Brasil. Continuava, como continuo até hoje, sem saber por que meu nome estava naquela lista de jornalistas que seriam chamados para depor no DOPS. Correndo o risco de virar comida para peixes, no fundo do mar, com um tijolo amarrado aos pés.
Por isso, e muito mais, pense bem antes de votar. No próximo final de semana, não dê seu voto a quem segue a cartilha do pai Jair, aquele que, em alto e bom som, considerou que o Coronel Carlos Brilhante Ustra – o maior e mais cruel torturador da ditadura – é um herói nacional, digno de todas as homenagens e reverências.
Palavra de quem viveu, sofreu e testemunhou os Anos de Chumbo: ser vítima do autoritarismo é a pior coisa que nos pode acontecer.
Fonte: Brasil 247