Atrair, formar e reter professores para fortalecer a profissão docente
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trajetória profissional
Camila Naufel
Haroldo Rocha
16/10/2026 17:21
Divulgados no final de setembro, novos dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) ajudam a dimensionar os desafios da carreira docente no Brasil, em um mês marcado pelas discussões sobre a valorização dos professores. Entre os docentes dos anos finais do ensino fundamental, 44,3% estão satisfeitos com suas condições de trabalho, ante 68,4% na média dos países da OCDE. A satisfação com os salários é ainda menor: 22,3% no Brasil, contra 38,7% na média da organização.
Outro indicador chama a atenção: em 2022, 10,3% dos professores plenamente qualificados da educação primária e secundária no Brasil deixaram a profissão por aposentadoria ou pedido de demissão. Na média da OCDE, esse percentual foi de 6,4% em 2024/25. Como os períodos de referência são diferentes, a comparação exige cautela. A própria organização destaca que a saída de professores também é influenciada pela estrutura etária da força de trabalho, pelas condições do mercado de trabalho e pela cultura profissional.
Os dados colocam uma questão importante para a agenda educacional: como criar condições para que os profissionais não apenas ingressem na docência, mas também construam uma trajetória profissional e permaneçam nela?
É preciso olhar para a carreira docente como uma trajetória e não como um conjunto de políticas isoladas. Formação inicial, ingresso na profissão, vínculo com as redes de ensino, organização do trabalho, desenvolvimento profissional, remuneração e perspectivas de progressão se articulam ao longo da vida profissional. O desafio brasileiro, portanto, não é apenas formar professores em quantidade suficiente, mas criar condições para que eles possam ingressar, se desenvolver e permanecer na profissão.
Essa trajetória começa antes mesmo da entrada na escola. A formação inicial é fundamental para a construção de um repertório inicial para a atuação na sala de aula. Atrair estudantes para as licenciaturas, garantir uma formação consistente e aproximá-la dos desafios concretos da escola pública são dimensões importantes dessa agenda. Mas o diploma não encerra esse percurso. A passagem da formação para o exercício profissional também precisa ser considerada nas políticas voltadas à docência.
O ingresso na docência exige processos seletivos planejados, com concursos públicos realizados regularmente e número de vagas compatível com as necessidades das redes de ensino.
A adoção de provas práticas, que permitam avaliar o conhecimento pedagógico do conteúdo e as competências necessárias ao exercício da profissão, é fundamental para selecionar professores preparados para os desafios da sala de aula. Após o ingresso, a estrutura da carreira também precisa favorecer a atratividade e a permanência na profissão, com condições adequadas de jornada e remuneração, além de oportunidades de desenvolvimento profissional ao longo da trajetória docente.
A organização do trabalho é outra dimensão dessa trajetória. Uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas com base nos microdados do Censo Escolar 2023, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), aponta que cerca de 20% dos professores da educação básica trabalham em mais de uma escola no Brasil. A proporção é maior entre docentes do ensino médio (36%) e dos anos finais do ensino fundamental (34%), ultrapassando 50% em algumas redes estaduais.
O estudo identificou que a maioria dos professores prefere trabalhar em uma única escola, embora muitos já tenham atuado em mais de uma unidade ao longo da carreira. Entre os fatores associados a essa realidade estão a remuneração, a estrutura dos contratos de trabalho e a organização curricular.
A concentração da jornada em uma única escola pode favorecer melhores condições para o planejamento pedagógico, o desenvolvimento profissional, a colaboração entre docentes e a participação na vida escolar. Nesse sentido, a pesquisa da Fundação Carlos Chagas oferece subsídios para a implementação do Plano Nacional de Educação 2026–2036, especialmente da estratégia que prevê mecanismos para induzir o cumprimento da jornada dos profissionais do magistério em um único estabelecimento de ensino.
A permanência na profissão também está relacionada às condições de trabalho. De acordo com a OCDE, 44,3% dos professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental estão satisfeitos com suas condições de emprego, excluindo a remuneração, enquanto 22,3% estão satisfeitos com seus salários. Os dados indicam que a insatisfação com a carreira não se resume à questão salarial e reforçam a importância de considerar diferentes dimensões das condições de trabalho na agenda de valorização docente – que pede uma visão integrada.
Formação inicial, ingresso, condições de trabalho, desenvolvimento profissional, carreira e remuneração são dimensões que se articulam ao longo da vida profissional do professor. Para o Legislativo e os formuladores de políticas públicas, essa perspectiva ajuda a aproximar temas que muitas vezes são discutidos separadamente. Fortalecer a formação inicial e a atratividade das licenciaturas, aprimorar o ingresso e o acompanhamento dos professores em início de carreira, planejar a força de trabalho das redes, organizar jornadas que favoreçam a atuação em uma única escola, garantir tempo para atividades extraclasse e assegurar oportunidades de desenvolvimento profissional são parte desse percurso. Também é necessário estabelecer condições de remuneração e progressão compatíveis com uma carreira profissional.
Valorizar os professores exige mais do que homenagens e manifestações de reconhecimento. Significa garantir condições para que esses profissionais ingressem na carreira, tenham apoio para enfrentar os desafios da sala de aula e encontrem perspectivas de desenvolvimento e permanência na profissão. Formação inicial, processos de seleção, carreira e condições de trabalho são partes de uma mesma agenda, que precisa estar no centro das políticas públicas de educação. Afinal, reconhecer a importância dos professores também implica criar condições para que possam exercer a docência e seguir na profissão.
Fontes
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Education at a Glance 2026: Brazil. 2026. Disponível em: https://www.oecd.org/en/publications/education-at-a-glance-2026_c0e523a9-en/brazil_d149b552-en.html.
Fundação Carlos Chagas (FCC). Trabalho docente em uma única escola: subsídios para a efetivação do Plano Nacional de Educação 2026–2036. Organização: Gabriela Moriconi. 2026. Disponível em: https://www.fcc.org.br/fcc-relatorios/trabalho-docente-em-uma-unica-escola/.
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Fonte: Congresso em Foco