Do Recôncavo Baiano aos ‘quilombos modernos’: a trajetória de luta e arte do samba
Por Augusto Diniz — Carta Capital
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Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.
O gênero nasceu da agonia e da resiliência. Sambistas se reúnem neste domingo 18, em São Paulo, para firmar seu papel de luta
A discussão sobre o lugar do samba nas eleições deste ano ganha ares de Fla-Flu, como se o gênero não tivesse uma relação intrínseca com a história do País. Um ato marcado para este domingo 18, às 17h, no Largo da Banana — marco histórico na Barra Funda, em São Paulo —, ratifica o papel histórico de luta do samba em favor dos desfavorecidos.
É preciso rememorar que a gênese da identidade cultural brasileira surgiu dos cantos de trabalho entoados por negros escravizados nas plantações de cana-de-açúcar do Recôncavo Baiano, no século XVIII. À noite, na senzala, ouviam-se os batuques como expressão de agonia, resistência e preservação cultural.
Ao longo do século XIX, o samba passou a retratar em suas letras a dor e a fé da população trabalhadora. No mesmo período, os terreiros de religiões de matriz africana no Recôncavo Baiano entoavam o samba de roda, unindo dança e espiritualidade.
Já no início do século XX, as casas das tias baianas — como a notória Tia Ciata —, no Rio de Janeiro, tornaram-se espaços de sociabilidade para negros e marginalizados na então capital federal. Nesses locais, forjou-se o samba moderno como o conhecemos, elevando o gênero não apenas a um ritmo musical, mas a uma expressão cultural legítima do povo pobre .
As escolas de samba surgiram como ambientes de valorização da arte negra, unindo ritmo e representação estética. Elas contribuíram para a consolidação do gênero, transformando-o em uma manifestação sociocultural de costumes e valores inegociáveis.
Perseguido e criminalizado pelo poder vigente no passado, o samba tornou-se o principal símbolo da brasilidade, influenciando todos os elementos da cultura nacional e outros gêneros musicais desenvolvidos ou instalados no País, da bossa nova ao jazz. Com o tempo, adaptou-se e dialogou com os diversos momentos da história brasileira, conquistando milhões de fãs no País e no mundo — um feito sem igual entre as expressões artísticas nacionais.
Apesar das transformações socioeconômicas, as quadras e as rodas de samba continuam a ser refúgios acolhedores para grupos discriminados pela sociedade, ecoando o papel das antigas agremiações carnavalescas e das casas das tias baianas.
Não por acaso, muitos preferem chamar esses espaços de “quilombos modernos”. Assim como os quilombos do período colonial e do Império, eles exaltam a coletividade, a ancestralidade e o enfrentamento à dura realidade — lembrando que os refúgios históricos abrigavam não apenas negros, mas também indígenas e brancos marginalizados.
Nesse contexto, o samba permanece como uma viva expressão de resistência, devendo ser compreendido e respeitado pela sociedade. Seu passado e seu presente não podem ser apagados por debates polarizados e superficiais.
A trajetória do samba confunde-se com a do próprio Brasil: foi construída sobre a dor e a resiliência, em oposição à exploração e à desigualdade social. Ele segue como o maior símbolo de luta pela liberdade, pelo reconhecimento e pela esperança de uma nação.
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
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Fonte: Carta Capital