Por João Lister — Brasil 247

O espírito golpista que mobilizou o bolsonarismo depois da derrota eleitoral de 2022 não desapareceu. A responsabilização de seus protagonistas foi indispensável, mas não dissolveu automaticamente as convicções, os interesses e as redes de apoio que tornaram possível aquela tentativa de ruptura. É com essa memória que precisamos olhar para o segundo turno de 2026.

A questão central é a disposição de aceitar a soberania popular quando ela contraria o projeto de poder de um movimento político. Em 2022, essa disposição faltou a Bolsonaro e aos participantes da trama destinada a impedir a alternância de governo. A condenação do núcleo central pelo Supremo Tribunal Federal confirmou a gravidade do que esteve em curso.

Minha avaliação é que essa cultura autoritária permanece presente no bolsonarismo e em parcelas de seus adeptos e apoiadores. A passagem do tempo e a participação em uma nova eleição não constituem garantias de conversão democrática. Quem considera legítima apenas a própria vitória conserva aberta a possibilidade de romper com as regras quando perde.

Esse é o ponto de partida para compreender o perigo atual. A conjuntura de 2026 pode alimentar, nesses setores, uma percepção de força e de oportunidade. E a percepção de contar com respaldo institucional, econômico e internacional é um dos fatores capazes de estimular uma aventura golpista.

Em 2022, Bolsonaro estava na Presidência e procurava permanecer no poder. Agora, o bolsonarismo disputa o retorno por meio de Flávio Bolsonaro. A posição mudou, mas o objetivo de conquistar o Estado pode continuar acompanhado, entre seus setores mais radicalizados, da recusa em admitir uma derrota.

A atual direção do Tribunal Superior Eleitoral entra nessa leitura política. Nunes Marques preside a Corte e André Mendonça ocupa a vice-presidência. Ambos foram indicados ao Supremo por Jair Bolsonaro. Isso não demonstra participação em conspiração nem autoriza atribuir antecipadamente aos ministros uma intenção fraudulenta. Mas é necessário perguntar como essa composição é interpretada dentro do campo bolsonarista.

Minha preocupação é que ela seja percebida por setores desse movimento como sinal de maior receptividade ou de menor resistência às suas pretensões. Mesmo que essa expectativa não corresponda à conduta dos ministros, pode produzir efeitos políticos: encorajar pressões, alimentar ousadias e sustentar a crença de que haverá espaço institucional para contestar uma derrota.

A isso se soma uma diferença internacional decisiva: Donald Trump voltou à Casa Branca.

O trumpismo oferece à ultradireita uma referência de poder que combina confronto político, pressão econômica e disposição para intervir em outros países. A operação militar norte-americana que capturou Nicolás Maduro em território venezuelano, em janeiro de 2026, mostrou até onde essa disposição pode chegar. Trump anunciou que os Estados Unidos conduziriam o país até uma transição.

O sequestro de Maduro — expressão política que traduz a captura e a remoção forçada do governante — ultrapassa o episódio venezuelano em seu significado. Transmite à região a mensagem de que Washington admite empregar sua força para determinar o destino político de outro Estado.

Na Colômbia, o apoio público de Trump a Abelardo de la Espriella levou Gustavo Petro a denunciar ingerência na eleição. No Peru, Rafael López Aliaga, identificado com o trumpismo, anunciou que não reconheceria os resultados eleitorais. São episódios diferentes, mas revelam um ambiente regional de pressão externa e de contestação da legitimidade das urnas.

Não é necessário supor uma direção única de todos esses acontecimentos para reconhecer seu efeito político. Uma ultradireita que observa aliados internacionais confrontando instituições pode sentir-se mais autorizada a fazer o mesmo. O exemplo, o respaldo e a expectativa de proteção também mobilizam.

No Brasil, essa conexão internacional inclui interesses econômicos e estruturas de articulação política. A Rockbridge Network, co-fundada por J. D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, e Chris Buskirk, foi mencionada em pedidos apresentados pelo PT ao STF para apurar possíveis vínculos com a campanha de Flávio Bolsonaro.

As suspeitas abrangem recursos, serviços e operações digitais. Outra manifestação pediu a investigação de anúncios publicados por perfis estrangeiros em apoio a Flávio. Os pedidos estão documentados; a existência de financiamento ilícito ainda precisa ser demonstrada. A gravidade política está precisamente na necessidade de esclarecer se interesses externos participam da disputa pelo poder no Brasil.

Há ainda o poder das grandes plataformas digitais. A proximidade de seus proprietários com Trump não é uma abstração: a Meta contribuiu para o fundo de sua posse, e Elon Musk destinou mais de US$ 250 milhões ao esforço para elegê-lo. Essas relações aproximam poder político, dinheiro e controle de importantes canais de comunicação.

Não se pode concluir daí que Trump comande cada decisão dessas empresas. Pode-se, contudo, reconhecer o risco democrático de uma concentração de poder capaz de influenciar o ambiente em que milhões de pessoas formam suas opiniões.

A campanha de Lula levou ao TSE denúncias de tratamento desigual pela inteligência artificial da Meta, apontando restrições a solicitações relacionadas ao presidente enquanto pedidos favoráveis a Flávio Bolsonaro eram atendidos. A empresa negou favorecimento de candidatos em suas plataformas. Esse confronto exige esclarecimento técnico, preservação de registros e investigação independente.

É a combinação desses fatores que preocupa: a persistência de uma cultura golpista, a expectativa de receptividade em posições institucionais, o respaldo internacional da ultradireita e o poder de empresas que organizam a circulação da informação.

Nenhum desses elementos, isoladamente, comprova uma nova conspiração. Reunidos, porém, justificam uma avaliação política firme: há condições que podem encorajar setores bolsonaristas a tentar novamente ultrapassar os limites democráticos.

Uma eleição apertada pode funcionar como detonador.

A pesquisa Quaest divulgada em 14 de outubro apontou Flávio Bolsonaro com 46% e Lula com 44%, em empate técnico dentro da margem de erro. Esse cenário não antecipa o resultado, mas indica a possibilidade de uma disputa decidida por diferença estreita.

Se o resultado final for muito próximo, considero plausível uma nova tentativa de impedir sua aceitação por setores que já demonstraram desprezo pela alternância democrática. A reação pode envolver pressão sobre autoridades, mobilização intimidatória, fabricação de suspeitas ou uso de procedimentos institucionais para tentar frustrar a vontade popular. Essa é uma avaliação de risco, não o anúncio de uma operação já comprovada.

A hipótese de manipulação de números também deve ser enfrentada por meio de fiscalização efetiva. Uma margem estreita não facilita tecnicamente a adulteração, mas aumenta o impacto que qualquer irregularidade teria sobre o resultado. Por isso, a conferência precisa ser preparada antes da eleição.

O PT e sua coligação devem organizar uma fiscalização rigorosa da apuração e da totalização, com fiscais capacitados, equipes jurídicas e profissionais aptos a analisar os dados. Precisam recolher e preservar boletins, conferir resultados por seção e documentar qualquer divergência.

A apuração ocorre na própria urna; a totalização soma os resultados das seções. O Boletim de Urna permite confrontar o registro local com os dados divulgados pela Justiça Eleitoral. Esse mecanismo oferece uma base concreta para verificar o resultado e sustentar questionamentos, caso sejam necessários.

A fiscalização deve alcançar também o financiamento da propaganda, as operações digitais e a liberdade do eleitor. Defender a eleição exige acompanhar tanto o registro dos votos quanto as condições em que eles são conquistados e exercidos.

O erro seria imaginar que a derrota do golpe anterior tornou impossível outra tentativa. A responsabilização de seus protagonistas precisa ser acompanhada de vigilância sobre as forças e os interesses que continuam ativos.

O espírito golpista de 2022 é o centro da preocupação de 2026. Diante de uma conjuntura que pode alimentar sua confiança, a resposta democrática deve ser preparação, fiscalização e firmeza institucional.

O voto popular precisa prevalecer sobre qualquer pressão interna ou estrangeira. E sua defesa deve começar antes que uma nova tentativa de ruptura saia da intenção e se transforme em ação.

Mas o golpe também pode vir de fora do País. Se a derrota bolsonarista ocorrer por margem estreita e for seguida por uma insurreição dos derrotados, Trump poderá explorar a contestação e recusar-se a reconhecer a eleição de Lula, oferecendo apoio político, econômico e diplomático à tentativa de deslegitimar o resultado. O Brasil correria, então, o risco de ser colocado no mesmo status de vulnerabilidade em que a Venezuela já esteve, submetido a ataques, ameaças e agressões permanentes de um presidente norte-americano disposto a interferir diretamente no destino político de outro país.

Fonte: Brasil 247

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