Mensagens internas da Meta revelam falhas que prejudicaram Lula e favoreceram Flávio nas redes sociais
Por João Paulo Alexandre — Jornal Opção

Mensagens internas de funcionários da Meta, empresa responsável pelo Instagram, Facebook e WhatsApp, revelam falhas que prejudicaram a campanha do presidente Lula da Silva (PT) e deram maior visibilidade a perfis ligados ao senador Flávio Bolsonaro (PL) durante a disputa presidencial. As informações foram divulgadas pela jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, nesta sexta-feira, 16, com base em conversas internas obtidas pelo jornal.
Segundo a apuração, a conta de Lula no Instagram ficou impedida de impulsionar publicações do próprio perfil por quase 24 horas, em 9 de outubro. A restrição ocorreu durante a campanha para o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro.
Embora a equipe do petista ainda pudesse promover anúncios criados separadamente das publicações do perfil, conhecidos como dark posts, não conseguia ampliar o alcance de conteúdos publicados diretamente no feed. A campanha estima que aproximadamente 1,3 milhão de pessoas deixaram de visualizar os anúncios em razão do problema.
Nas mensagens obtidas pela Folha, um funcionário reconheceu que a conta de Lula estava em condição desfavorável em comparação à de Flávio Bolsonaro. O episódio também gerou preocupação interna com a possibilidade de questionamentos judiciais.
A justificativa apresentada pela Meta foi a ocorrência de problemas técnicos no sistema de gerenciamento de anúncios. Entretanto, conforme a reportagem, funcionários demonstraram insatisfação com a demora da equipe de engenharia em solucionar a falha, apesar da urgência de um problema envolvendo a campanha presidencial.
Perfil de Flávio apareceu em recomendações proibidas pelo TSE
Além das dificuldades enfrentadas pela campanha petista, a investigação jornalística identificou irregularidades nas recomendações de perfis e canais políticos.
De acordo com as mensagens, o perfil de Flávio Bolsonaro aparecia entre as sugestões de busca do Instagram, enquanto a conta de Lula não era exibida adequadamente nem mesmo quando usuários pesquisavam seu nome completo.
Funcionários da Meta reconheceram internamente que o perfil do candidato do PL não deveria aparecer entre as recomendações automáticas, conforme as regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Situação semelhante foi identificada no WhatsApp. Ao pesquisar pelo canal “Exército do Lula”, administrado pelo deputado André Janones, usuários recebiam sugestões que incluíam o canal “Tropa do Flávio”, ligado a apoiadores do candidato bolsonarista.
A legislação eleitoral restringe a recomendação algorítmica de contas de candidatos, permitindo que sejam encontradas por meio de buscas específicas. A medida busca impedir que os sistemas das plataformas favoreçam determinadas candidaturas.
Segundo a Folha, a empresa atribuiu parte das inconsistências a dificuldades técnicas relacionadas ao tamanho do nome de Lula e informou que o problema havia sido corrigido.
Campanha de Flávio também enfrentou bloqueios
As conversas internas reveladas pela jornalista Patrícia Campos Mello também registram problemas enfrentados pela campanha de Flávio Bolsonaro.
Em 23 de setembro, contas dos dois presidenciáveis tiveram dificuldades para publicar anúncios durante aproximadamente uma hora, após o sistema identificar equivocadamente atividades suspeitas.
Já em 1º de outubro, anúncios da campanha do candidato do PL foram bloqueados pela plataforma devido à suspeita de utilização de inteligência artificial em período de restrição estabelecido pela Justiça Eleitoral.
A campanha de Flávio negou ter utilizado a tecnologia de maneira irregular e afirmou à Folha que não sofreu problemas capazes de comprometer o funcionamento de seus perfis e canais.
Os registros mostram que falhas atingiram ambas as candidaturas, embora em situações e circunstâncias diferentes.
Meta nega favorecimento político
Procurada pela Folha de S.Paulo, a Meta rejeitou as acusações de que estaria interferindo no processo eleitoral brasileiro ou beneficiando algum dos candidatos.
A empresa sustentou que os episódios identificados tiveram origens distintas, incluindo falhas técnicas de alcance global, erros pontuais e a aplicação das regras eleitorais brasileiras.
A plataforma também afirmou que não oferece tratamento preferencial a candidatos, partidos ou correntes políticas.
Apesar das mensagens revelarem preocupação de funcionários com os efeitos dos problemas técnicos sobre a disputa eleitoral, a reportagem da Folha ressalta que não há, nas conversas analisadas, admissão de interferência deliberada da Meta nas eleições.
O material registra, principalmente, discussões internas sobre a gravidade das falhas, a demora para solucioná-las e os possíveis desdobramentos jurídicos.
A campanha de Flávio Bolsonaro, por sua vez, afirmou ao jornal que cumpre as determinações do TSE e as regras das plataformas digitais.
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Fonte: Jornal Opção