Trabalho infantil no país recua 9,2% em 2025, diz IBGE

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Por Otávio Rosso — Brasil 247

247 – O número de crianças e adolescentes submetidos ao trabalho infantil no Brasil caiu para 1,499 milhão em 2025, o equivalente a 4% da população de 5 a 17 anos. Apesar da redução de 9,2% em relação a 2024, quando 1,65 milhão de pessoas nessa faixa etária estavam nessa condição, o levantamento revela a persistência de situações de exploração, jornadas prolongadas e atividades que colocam em risco a saúde e o desenvolvimento dos menores.

Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada nesta sexta-feira (16) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O contingente de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil diminuiu 28,6% desde 2016, quando o país registrava 2,1 milhões de pessoas nessa condição, correspondentes a 5,2% da população da mesma faixa etária.

A redução observada em 2025 ocorre após um período de oscilações. Entre 2016 e 2019, o trabalho infantil havia recuado 15,7%. Em 2022, entretanto, houve crescimento de 7%, associado principalmente aos efeitos da pandemia de covid-19. No ano seguinte, o indicador voltou a cair, com redução de 14,7%, antes de registrar nova alta de 2,1% entre 2023 e 2024.

O pesquisador do IBGE Gustavo Fontes atribui a melhora recente a uma combinação de fatores, incluindo políticas públicas de proteção à infância, programas de transferência de renda e condições mais favoráveis do mercado de trabalho.

“Existem políticas públicas, inclusive do próprio Ministério Público do Trabalho, voltadas para isso [lidar com o trabalho infantil]. O próprio Bolsa Família pode ter contribuído, ao garantir uma renda mínima para essas famílias, para essa queda. São vários fatores, como o mercado de trabalho aquecido. A taxa de desocupação no país tem atingido mínimos históricos. A renda domiciliar per capita em 2025 aumentou, a renda do trabalho aumentou”, explicou o pesquisador.

Mais de meio milhão estão nas piores formas de trabalho infantil

Embora os indicadores gerais tenham melhorado, a pesquisa identificou que 525 mil crianças e adolescentes estavam envolvidos nas chamadas piores formas de trabalho infantil em 2025. Essas ocupações representam situações de risco elevado à integridade física, à saúde e ao desenvolvimento dos menores.

As atividades classificadas nessa categoria estão previstas no Decreto Federal nº 6.481/2008, que estabelece uma lista de trabalhos proibidos para menores de 18 anos. Entre as situações abrangidas estão formas de exploração relacionadas à escravidão, à exploração sexual e ao tráfico de drogas.

O contingente registrado em 2025 corresponde a 1,4% da população de 5 a 17 anos e representa o menor patamar da série analisada. Em 2024, eram 560 mil crianças e adolescentes nessas condições, equivalentes a 1,5% da população. Em 2022, o número chegava a 763 mil, enquanto em 2016 alcançava 919 mil.

Outro dado preocupante diz respeito à duração das jornadas. Entre as crianças e adolescentes submetidos ao trabalho infantil, 36,3% trabalhavam pelo menos 25 horas por semana. Em 21,4% dos casos, a jornada alcançava 40 horas semanais ou mais.

A intensidade do trabalho cresce conforme a idade. Entre adolescentes de 16 e 17 anos, 49,6% enfrentavam jornadas de pelo menos 25 horas semanais, enquanto 29,6% trabalhavam 40 horas ou mais. Apenas 20,4% desse grupo tinham jornadas de até 14 horas.

Bolsa Família registra redução mais acentuada do trabalho infantil

Os dados também mostram uma diminuição expressiva do trabalho infantil entre famílias beneficiárias do Bolsa Família. De 2016 a 2025, o número de crianças e adolescentes nessa situação dentro dos domicílios atendidos pelo programa caiu 41%, percentual superior à redução de aproximadamente 29% registrada no conjunto da população.

Em 2025, 4,4% das crianças e adolescentes de 5 a 17 anos residentes em domicílios beneficiários do Bolsa Família estavam submetidos ao trabalho infantil. Embora o percentual permaneça acima da média nacional de 4%, a diferença entre os dois grupos diminuiu consideravelmente.

Em 2016, a incidência do trabalho infantil entre beneficiários do programa era de 7,3%, enquanto a média brasileira atingia 5,2%.

“A gente vê uma redução mais acentuada no trabalho infantil entre os beneficiários do programa. Ainda que o percentual permaneça um pouco acima. Entre 2016 e 2025, o contingente de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil entre os beneficiários do programa Bolsa Família caiu 41%”, afirmou Fontes.

A diferença de renda entre os domicílios ajuda a contextualizar os indicadores. Segundo o IBGE, a renda domiciliar per capita média das famílias com crianças e adolescentes que recebiam o Bolsa Família era de R$ 660 em 2025. Entre aquelas que não recebiam o benefício, a média alcançava R$ 1.990.

Para o pesquisador, os números indicam que, “de fato, o programa está focado nos domicílios de menor rendimento”.

O levantamento identificou ainda que 89,8% das crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil residentes em famílias beneficiárias do Bolsa Família frequentavam a escola. No conjunto dos trabalhadores infantis, esse percentual era de 86,9%.

Adolescentes de 16 e 17 anos concentram a maior parcela dos casos

A distribuição por idade mostra que o trabalho infantil é proporcionalmente mais frequente entre adolescentes mais velhos.

Dos 1,499 milhão de crianças e adolescentes identificados nessa condição, 871 mil tinham entre 16 e 17 anos, representando 14,5% da população dessa faixa etária.

Entre adolescentes de 14 e 15 anos, o contingente era de 348 mil pessoas, ou 5,9% do grupo. Já entre crianças de 5 a 13 anos, foram identificados 280 mil casos, equivalentes a 1,1% da população dessa idade.

Os indicadores apresentaram redução em todas as faixas etárias na comparação com 2024. Entre crianças de 5 a 13 anos, a proporção caiu de 1,4% para 1,1%. No grupo de 14 e 15 anos, passou de 6,2% para 5,9%. Entre adolescentes de 16 e 17 anos, recuou de 15,3% para 14,5%.

O IBGE considera trabalho infantil qualquer atividade econômica remunerada ou trabalho para autoconsumo realizado por crianças de até 13 anos.

Para adolescentes de 14 e 15 anos, a legislação permite exclusivamente o trabalho na condição de aprendiz. A partir dos 16 anos, é admitido o trabalho formal, desde que não envolva atividades perigosas, insalubres ou realizadas em horário noturno.

Entre os trabalhadores infantis identificados pela pesquisa, 1,141 milhão exerciam atividades econômicas, enquanto 358 mil realizavam exclusivamente atividades de autoconsumo, destinadas à subsistência familiar.

Norte tem maior proporção de trabalho infantil; Sudeste lidera em números absolutos

As desigualdades regionais permanecem expressivas. O Sudeste concentrava o maior número absoluto de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, com 481 mil casos em 2025. O Nordeste aparecia na sequência, com 408 mil.

Quando considerada a proporção de trabalhadores infantis em relação à população de 5 a 17 anos, entretanto, o Norte apresentava o quadro mais grave, com incidência de 6,3%.

O Sudeste registrava o menor percentual do país, de 3,3%.

Apesar do contingente elevado, o Nordeste apresentou as maiores reduções ao longo do período analisado. Entre 2016 e 2025, o número de crianças e adolescentes submetidos ao trabalho infantil na região caiu 45,6%. Na comparação com 2022, a diminuição foi de 29,2%.

Crianças e adolescentes pretos e pardos são maioria entre trabalhadores infantis

A pesquisa também identificou diferenças importantes relacionadas ao sexo e à cor ou raça.

Os meninos representavam 65,4% das crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, embora correspondessem a 51,2% da população brasileira de 5 a 17 anos.

As meninas respondiam por 34,6% dos casos, participação inferior aos 48,8% que representavam no conjunto da população dessa faixa etária.

A desigualdade também aparece na distribuição racial. Crianças e adolescentes pretos e pardos constituíam 67% dos trabalhadores infantis, apesar de representarem 59,7% da população analisada.

Já os brancos, que correspondiam a 39,5% da população de 5 a 17 anos, representavam 32% daqueles submetidos ao trabalho infantil.

Os resultados evidenciam uma incidência proporcionalmente maior entre meninos e crianças e adolescentes pretos e pardos.

Trabalho infantil está associado à menor frequência escolar entre adolescentes

A relação entre trabalho infantil e frequência escolar apresenta diferenças significativas conforme a idade.

Entre crianças de 5 a 13 anos em situação de trabalho infantil, 99,7% frequentavam a escola, percentual próximo da universalização.

A situação se altera entre adolescentes. Na faixa de 14 e 15 anos, a frequência escolar alcançava 98,1% na população total, mas caía para 95% entre aqueles submetidos ao trabalho infantil.

A diferença era ainda mais expressiva entre adolescentes de 16 e 17 anos. Enquanto 89,6% da população dessa faixa etária frequentava a escola, o percentual diminuía para 79,6% entre os trabalhadores infantis.

Isso significa que aproximadamente um em cada cinco adolescentes de 16 e 17 anos em situação de trabalho infantil estava fora da escola em 2025.

Comércio concentra maior parcela dos trabalhadores infantis

A distribuição por atividade econômica mostra que o comércio reunia 29% das crianças e adolescentes submetidos ao trabalho infantil, sendo o setor com maior participação individual identificada no levantamento.

A categoria de outras atividades respondia por 23,1% dos casos, seguida pela agricultura e pecuária, com 16,7%.

A indústria geral concentrava 12,5%, enquanto alojamento e alimentação representavam 12,2%. Os serviços domésticos respondiam por 6,5%.

A informalidade também permanecia elevada entre adolescentes de 16 e 17 anos. Nessa faixa etária, 67% dos ocupados em situação de trabalho infantil estavam em atividades informais.

Entre os informais, 72,9% eram empregados do setor privado sem carteira assinada ou trabalhadores domésticos. Outros 16,3% atuavam como empregadores ou trabalhadores por conta própria sem CNPJ, enquanto 10,8% eram trabalhadores familiares auxiliares.

Apesar do percentual elevado, a taxa de informalidade desse grupo atingiu o menor nível da série histórica. Em 2024, estava em 69,4%, enquanto em 2022 alcançava 76,3%.

Tarefas domésticas atingem 15,9 milhões de crianças e adolescentes

Além das atividades classificadas como trabalho infantil, a Pnad investigou a participação de crianças e adolescentes em tarefas domésticas não remuneradas e no cuidado de outras pessoas.

Entre os 37,8 milhões de brasileiros de 5 a 17 anos, aproximadamente 15,9 milhões, ou 42,1%, realizavam alguma dessas atividades em 2025.

A participação era maior entre meninas, das quais 47,9% desempenhavam tarefas domésticas ou atividades de cuidado. Entre os meninos, a proporção era de 36,6%.

A frequência dessas atividades também aumentava conforme a idade. No grupo de 5 a 13 anos, 32,7% realizavam tarefas domésticas ou de cuidado. Entre adolescentes de 14 e 15 anos, a proporção subia para 60,7%, chegando a 64,6% na faixa de 16 e 17 anos.

Entre crianças e adolescentes que exerciam atividades econômicas, 65,1% também participavam de tarefas domésticas não remuneradas ou do cuidado de pessoas. Entre aqueles que não realizavam atividades econômicas, o percentual era de 41,2%.

A pesquisa constatou ainda que 5,2% das crianças e adolescentes dedicavam pelo menos 25 horas semanais a essas responsabilidades, incluindo 1,9% que destinavam 40 horas ou mais. Considerando jornadas de pelo menos 15 horas semanais, a proporção chegava a 13,6%.

Essas tarefas domésticas, conforme a classificação utilizada pelo IBGE no levantamento, não integram automaticamente as estatísticas de trabalho infantil.

Fonte: Brasil 247

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