Resistência no Sul Global: Pepe Escobar conecta a bravura do Iêmen à encruzilhada democrática no Brasil
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – Em uma das análises geopolíticas mais profundas e abrangentes do programa Pepe Café, o jornalista e correspondente internacional Pepe Escobar traçou um paralelo revelador entre as linhas de frente do Sul Global: a resistência anticolonial do povo iemenita no coração do Oeste Asiático e a batalha decisiva que o Brasil trava nas ruas e nas urnas pela preservação de sua soberania.
Escobar começou desconstruindo a própria terminologia imperialista, rejeitando a designação eurocêntrica de “Oriente Médio” e resgatando as origens dos acordos coloniais franco-britânicos (como a partilha Sykes-Picot após a queda do Império Otomano). Foi dessa arquitetura imperial imposta por Londres e Paris que nasceram os dois pilares contemporâneos de sustentação da hegemonia ocidental na região: o Estado de Israel e a monarquia da Casa de Saud na Arábia Saudita.
Em contraposição a essas construções estatais artificiais, o jornalista destacou o Iêmen como uma das civilizações fundadoras da história árabe — um povo ancestral que hoje, sob a liderança do movimento Ansarallah, desafia abertamente o bloco militar capitaneado pelos Estados Unidos e seus prepostos no Golfo.
O colapso do cerco: Iêmen e a doutrina “refinaria por refinaria”
Ao detalhar a guerra deflagrada há anos pela coalizão liderada por Riade contra o Iêmen, Escobar ressaltou que a agressão saudita — financiada e armada pelo complexo industrial-militar do Ocidente — fracassou miseravelmente em subjugar a população iemenita. Mais do que isso: provocou uma resposta militar e tecnológica de proporções estratégicas inimagináveis para os planejadores do Pentágono e do comando militar norte-americano (CENTCOM).
Com operações cirúrgicas de drones e mísseis balísticos de alta precisão contra os nós vitais da economia saudita — atingindo terminais da petrolífera estatal Aramco, oleodutos e complexos aeroportuários em Riade —, o Ansarallah impôs o que Escobar define como a doutrina da dissuasão simétrica:
“Os iemenitas estabeleceram uma equação cristalina para os monarcas do Golfo e seus patrocinadores em Washington: aeroporto por aeroporto, refinaria por refinaria. Quem impõe bloqueio, fome e bombardeios contra um povo soberano não pode esperar que seus centros petrolíferos permaneçam intocados.”
Escobar sublinhou que essa retaliação atinge a espinha dorsal de todo o arranjo monetário ocidental: a estabilidade do petrodólar. Ao expor a vulnerabilidade militar da Arábia Saudita — incapaz de se proteger mesmo operando sistemas de defesa antiaérea bilionários dos Estados Unidos —, a resistência do Iêmen acelera o desgaste das velhas rotas de submissão ao império.
A fragilidade de MBS e a armadilha do Eixo da Resistência
O analista também dedicou atenção à instabilidade interna enfrentada pelo príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman (MBS). Para Escobar, as tentativas de Riade de cooptar potências regionais como Turquia e Paquistão — utilizando os locais sagrados de Meca e Medina como escudo político-diplomático — revelam o desespero de um regime acuado por divisões palacianas, pela insatisfação de tribos historicamente marginalizadas e pelo fracasso de suas aventuras bélicas.
Do outro lado desse tabuleiro ergue-se o Eixo da Resistência, articulado pelo Irã, pelo Hezbollah libanês, por forças populares no Iraque, pela resistência palestina em Gaza e pelos combatentes do Iêmen. Longe de ser uma aliança de conveniência momentânea, Escobar define o bloco como uma resposta histórica consolidada contra séculos de humilhação colonial, opressão militar e espoliação de riquezas energéticas.
A ponte com o Brasil: a encruzilhada entre a soberania e o entreguismo
É no desfecho dessa leitura global que Pepe Escobar estabelece a ligação direta com a realidade brasileira. Para o correspondente, o confronto visto no Oeste Asiático não é um acontecimento isolado, mas a manifestação aguda da mesma polarização de classes e projetos de poder que tensiona a América Latina e, em especial, o Brasil.
Segundo Escobar, o Brasil enfrenta sua própria trincheira contra uma elite rentista, financista e descaradamente entreguista — representada pela extrema direita e personificada em figuras que buscam rifar o patrimônio do país para atender aos ditames de Washington e Wall Street.
“O que está em disputa no Iêmen e o que está em disputa no Brasil é rigorosamente a mesma coisa: o direito de um povo autodeterminar o seu próprio destino. De um lado, estão as forças que defendem o desenvolvimento nacional, a soberania energética, a universidade pública e a dignidade das classes populares; do outro, as velhas oligarquias dispostas a vender a Petrobras, desmontar a educação e atuar como feitoras coloniais dos interesses do Império.”
Ao abordar a mobilização espontânea que tomou as universidades federais e os movimentos populares nas últimas semanas em defesa da democracia brasileira, Escobar enfatizou que a batalha política nas ruas e a busca por cada voto e por cada abstenção representam a vanguarda da resistência no Sul Global.
Para o analista, assim como os povos do Oeste Asiático vêm demonstrando que o poderio bélico e financeiro do Ocidente não é invencível, a classe trabalhadora brasileira carrega nos ombros o papel histórico de barrar o fascismo e pavimentar, ao lado das nações soberanas do planeta, a construção definitiva de um mundo multipolar.
Fonte: Brasil 247