Carla Beni: “Se negociar com patrão desse certo, não precisava da PEC”
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O debate em torno da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o encerramento da exaustiva jornada 6×1 e a redução da carga horária máxima semanal no Brasil, aprovada pelo Senado, expõe com nitidez a histórica assimetria entre o capital e o trabalho. Em participação no programa Boa Noite 247, da TV 247, a economista Carla Beni desmistificou o discurso catastrófico adotado por entidades patronais e setores conservadores, respaldando-se em números oficiais do Ministério do Trabalho e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) para demonstrar a viabilidade econômica e a urgência social da mudança.
Ao desmontar a tese de que patrões e empregados poderiam definir livremente jornadas sem intervenção constitucional, a economista foi taxativa:
“Se negociar com patrão desse certo, não precisava da PEC. A legislação trabalhista existe exatamente porque a relação é desigual. Deixar o trabalhador mais vulnerável à mercê de uma ‘negociação direta’ é empurrá-lo para a perda total de direitos.”
O mapa real da escala: quem são e onde estão os trabalhadores da 6×1
Carla Beni ressaltou que grande parte do debate público parte de premissas equivocadas sobre o universo dos trabalhadores atingidos. Apoiada em dados do Ministério do Trabalho, ela detalhou que, dos cerca de 50 milhões de empregados formais sob as regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), quase 30 milhões (29,7 milhões) já operam no modelo 5×2.
O foco central da PEC, portanto, recai sobre um contingente de 15 a 20 milhões de brasileiros submetidos a regimes de seis dias de trabalho com apenas uma folga semanal. Esse grupo, sublinhou a economista, é formado pela parcela socialmente mais fragilizada do mercado formal:
- Concentração salarial e escolaridade: A imensa maioria dos profissionais na escala 6×1 possui menor escolaridade e remuneração média inferior a R$ 3 mil mensais.
- Setores intensivos: O regime prevalece fortemente no comércio varejista, serviços de alimentação (bares e restaurantes), hotelaria, transporte aéreo, agropecuária e emprego doméstico.
- Transição necessária: A PEC articula o fim do regime 6×1 com a redução do teto constitucional de 44 horas para 40 horas semanais — com propostas de transição gradual via patamar intermediário de 42 horas —, alinhando o Brasil às práticas modernas de bem-estar laboral.
O estudo do Ipea e o desmonte do mito do “descalabro econômico”
Para rebater as alegações de entidades empresariais que projetam quebradeira generalizada ou inflação descontrolada, Carla Beni evocou recente estudo conduzido pelo Ipea.
A pesquisa aponta que, na indústria e no comércio — setores que juntos concentram mais de 13 milhões de trabalhadores —, a redução da jornada constitucional de 44 para 40 horas semanais acarretaria uma elevação média direta de custos operacionais inferior a 1%.
“O empresariado sempre repete a mesma cantilena desde a abolição da escravidão e da criação do 13º salário: dizem que a empresa vai fechar, que o país vai parar. O Ipea calculou e comprovou: o impacto médio é de menos de um por cento. Isso cabe com tranquilidade na margem operacional e na reorganização de turnos.”
Além de marginal no custo, a economista enfatizou que a transição para a escala 5×2 produz ganhos substanciais de produtividade e economia para as próprias corporações. Em setores onde o modelo já vigora, verifica-se uma queda expressiva nos índices de turnover (rotatividade de pessoal) e no absenteísmo (faltas e licenças médicas por exaustão ou burnout).
“Demissão, recrutamento e treinamento constante de novos funcionários figuram entre os maiores custos invisíveis das empresas brasileiras. Um trabalhador que descansa adoece menos, falta menos e produz melhor”, pontuou.
O perigo do “leilão reverso” e o espelho da Argentina
Durante a conversa, Beni alertou para as tentativas de desfiguração da pauta no Congresso Nacional, especialmente emendas que sugerem atrelar a flexibilização da escala ao pagamento estritamente por hora trabalhada.
Para a economista, importar esse modelo sem travas constitucionais representaria uma cilada que resultaria em um “leilão reverso” na base da pirâmide salarial: o trabalhador empobrecido aceitaria receber cada vez menos por hora para garantir qualquer renda no fim do mês.
Como paralelo de alerta internacional, ela citou o cenário socioeconômico da Argentina, onde a retórica ultraliberal de desmonte da regulação trabalhista e enfraquecimento das garantias do Estado aprofundou a precarização, sem gerar os empregos de qualidade prometidos.
A íntegra da análise de Carla Beni sobre o fim da escala 6×1 e os rumos da economia popular pode ser conferida no canal da TV 247: Assista no YouTube.
Fonte: Brasil 247