Programa naval de Lula avança com início da construção de navios da Petrobras no RS

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Por Otávio Rosso — Brasil 247

247 – A retomada da indústria naval brasileira ganhou uma nova etapa nesta quinta-feira (15), com o início da construção do primeiro navio destinado ao transporte de combustíveis encomendado pela Petrobras ao Estaleiro Rio Grande, no Rio Grande do Sul. A iniciativa integra o programa de investimentos do terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca recuperar a capacidade produtiva dos estaleiros nacionais, ampliar a frota própria da estatal e gerar empregos no setor.

Segundo informações da Folha de São Paulo, a cerimônia marcou o avanço de um projeto que enfrenta atrasos desde sua concepção. Quando a Transpetro, subsidiária de logística e transporte da Petrobras, lançou a licitação em 2024, a previsão era colocar a primeira embarcação no mar em junho de 2026. A contratação dos navios, entretanto, demorou mais do que o planejado, refletindo os obstáculos financeiros e operacionais enfrentados pelos estaleiros brasileiros.

A encomenda faz parte de um conjunto de 16 navios licitados pela Transpetro durante o atual mandato de Lula, sendo oito destinados ao transporte de combustíveis e outros oito ao transporte de gás de cozinha. Desse total, 13 embarcações foram contratadas com o Estaleiro Rio Grande, controlado pelo grupo Ecovix, enquanto três tiveram sua construção encomendada na China.

Os contratos conquistados pelo estaleiro gaúcho representam aproximadamente R$ 15 bilhões, consolidando a unidade como uma das principais beneficiárias do programa de recuperação da indústria naval.

Durante a cerimônia, o diretor de Transporte Marítimo da Transpetro, Jones Soares, destacou a importância da iniciativa para a estratégia de renovação e ampliação da capacidade operacional da companhia.

“A construção desses navios representa um marco na retomada dos investimentos da Transpetro em sua frota própria”, afirmou.

Estaleiro supera recuperação judicial e retoma produção

O início da construção também representa uma mudança significativa na trajetória do Estaleiro Rio Grande, que enfrentou dificuldades financeiras nos últimos anos e precisou passar por um processo de recuperação judicial.

A situação econômica das empresas do setor foi um dos principais entraves às licitações promovidas pela Transpetro. A baixa concorrência foi atribuída, sobretudo, à dificuldade dos estaleiros em oferecer garantias financeiras suficientes para obter os empréstimos necessários à execução dos contratos.

Para viabilizar a primeira encomenda, o Estaleiro Rio Grande precisou estabelecer uma parceria com o estaleiro Mac Laren, que reunia condições de apresentar as garantias exigidas para o financiamento da construção.

A situação mudou em julho de 2025, quando a unidade gaúcha deixou a recuperação judicial. A partir de então, passou a reunir condições para disputar individualmente as demais encomendas da Transpetro.

O CEO da Ecovix, Robson Passos, ressaltou o significado da nova fase para a empresa.

“O dia de hoje concretiza a força e a capacidade do Estaleiro Rio Grande”, declarou durante o evento.

Atualmente, o estaleiro emprega aproximadamente 500 profissionais, que trabalham desde abril no processamento do aço utilizado na primeira embarcação.

A cerimônia realizada nesta quinta-feira corresponde ao chamado batimento de quilha, uma etapa tradicional da construção naval que simboliza formalmente o início da montagem do navio. Após essa fase, a embarcação passa por outras etapas de construção até ser lançada ao mar, quando são realizados os acabamentos necessários antes da entrega ao contratante.

Petrobras prevê R$ 30 bilhões em encomendas para a indústria naval

A construção dos navios no Rio Grande do Sul integra uma estratégia mais ampla da Petrobras para estimular a produção nacional de embarcações e recuperar a infraestrutura industrial ligada ao setor de petróleo e gás.

O programa de investimentos da estatal prevê aproximadamente R$ 30 bilhões em encomendas, abrangendo diferentes categorias de embarcações utilizadas nas operações de transporte marítimo e exploração de petróleo.

O planejamento inclui 20 navios de cabotagem, 18 barcaças, 18 empurradores e 40 embarcações de apoio às plataformas de petróleo.

A cabotagem corresponde ao transporte marítimo realizado entre portos de um mesmo país, atividade estratégica para a movimentação de combustíveis e outros produtos ao longo do litoral brasileiro.

Já as embarcações de apoio desempenham funções essenciais nas operações marítimas de petróleo, incluindo o transporte de equipamentos, materiais e suprimentos para as plataformas.

Das embarcações de apoio previstas no programa, 30 já foram contratadas, distribuídas entre estaleiros da Bahia e de Santa Catarina.

O Estaleiro Enseada, localizado na Bahia, recebeu encomendas para seis unidades, enquanto outras 24 foram destinadas a estaleiros catarinenses. Santa Catarina concentra atualmente o principal polo brasileiro de fabricação desse tipo de embarcação.

A primeira unidade desse conjunto foi entregue em setembro de 2026. As demais têm entregas previstas entre 2027 e 2030, estabelecendo uma carteira de projetos de médio e longo prazo para os fabricantes nacionais.

Retomada da indústria naval enfrenta desafios financeiros

A política de reativação dos estaleiros brasileiros foi uma das promessas apresentadas por Lula durante a campanha presidencial. O objetivo é recuperar uma cadeia produtiva que enfrentou forte retração, paralisação de projetos e dificuldades financeiras em empresas de grande porte.

No início desta década, parte da indústria naval brasileira ainda convivia com obras inacabadas e companhias submetidas a processos de recuperação judicial, situação que limitava a capacidade de disputar novas encomendas.

As dificuldades se refletiram nas licitações da Transpetro. Mesmo com a perspectiva de contratos bilionários, a ausência de garantias financeiras suficientes restringiu a participação de potenciais concorrentes.

O caso do Estaleiro Rio Grande ilustra esse cenário: embora tenha conquistado a maior parte das encomendas de navios da subsidiária da Petrobras, a empresa precisou inicialmente recorrer a uma parceria para assegurar as condições financeiras exigidas.

A saída da recuperação judicial, em 2025, permitiu ao estaleiro ampliar sua autonomia nas disputas por novos contratos.

Além dos 13 navios contratados pela Transpetro, a carteira atual de atividades da unidade gaúcha inclui serviços de desmonte de plataformas da Petrobras.

Fundado em 2010, o Estaleiro Rio Grande atua na construção de embarcações e plataformas de petróleo, reparos navais, atracação de navios e movimentação de cargas. Entre seus concorrentes estão o Estaleiro Atlântico Sul, o Estaleiro Enseada, o Estaleiro Jurong Aracruz e o Estaleiro Brasfels.

Programa naval retoma projetos associados a governos anteriores de Lula

A recuperação da indústria naval ocupa um lugar importante na política industrial defendida por Lula, que já havia apostado na expansão dos estaleiros brasileiros durante seus primeiros mandatos.

Naquele período, tanto Lula quanto a ex-presidente Dilma Rousseff participaram de cerimônias de início de construção e lançamento de embarcações, eventos utilizados para marcar a ampliação dos investimentos no setor.

No terceiro mandato, o presidente participou de solenidades de assinatura de contratos e visitas a obras, mas ainda não acompanhou o lançamento ao mar de um navio produzido dentro do novo programa.

Com o calendário atual de construção, a possibilidade de Lula participar de uma cerimônia desse tipo dependerá de sua permanência na Presidência após as eleições de outubro.

Fonte: Brasil 247

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