“O samba não se cala”: escolas, blocos e sambistas ocupam a Lapa em ato por Lula

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Por NINJA — Mídia NINJA

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Mobilização idealizada por Leandro Vieira reuniu baterias, artistas e representantes de blocos de carnaval; Dríade Aguiar conta como nasceu o protesto

Por Vinicius Francisco

As baterias da Mangueira, da União de Maricá e do Império Serrano ocuparam os Arcos da Lapa, no Centro do Rio de Janeiro, nesta segunda-feira (12), durante o ato “O samba não se cala”. Sambistas, ritmistas, artistas e integrantes de blocos de carnaval se reuniram em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e contra a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). Convocada para às 15h, a manifestação seguiu até o início da noite, com apresentações musicais, discursos e palavras de ordem em defesa da democracia.

Entre os participantes estavam Teresa Cristina, Neguinho da Beija-Flor, Arlindinho, Mestre Ciça, Rute Alves e Pixulé. O Cordão do Boitatá também levou sua orquestra de rua à manifestação, que reuniu diferentes gerações do carnaval carioca. Em frente aos Arcos, o público acompanhou as baterias, cantou sambas e protestou contra Bolsonaro. Houve ainda apresentações em pernas de pau e intervenções de artistas ligados à cultura popular.

A ideia do encontro partiu do carnavalesco Leandro Vieira, da Imperatriz Leopoldinense, depois de declarações de Flávio Bolsonaro sobre a Constituição Federal. Em 6 de outubro, durante um evento em Goiânia, o candidato afirmou que uma nova composição do Congresso permitiria alterar a Constituição para, segundo suas palavras, “redemocratizar o país”. Segundo os organizadores, as declarações provocaram indignação entre sambistas e motivaram a realização do protesto.

Dríade Aguiar, cofundadora da Mídia NINJA e uma das articuladoras da manifestação, acompanhou a organização desde o início. Segundo ela, Leandro procurou representantes de outras agremiações e convidou ativistas e produtores culturais para ajudar a colocar o ato na rua. “Ele nos chamou pra perto, pra que a gente compartilhasse essa tecnologia de como fazer o ato”, conta, referindo-se à experiência de organizar manifestações e mobilizar pessoas.

A proposta era reunir diferentes expressões do samba, sem ficar restrita às escolas que desfilam na Sapucaí. “Ele fez uma mobilização ampliada, onde trouxe três eixos do que é o samba no Rio de Janeiro: bloco de carnaval, samba de roda e escola de samba”, explica Dríade. O chamado chegou a músicos, componentes de agremiações, trabalhadores da cultura e coletivos de diferentes regiões da cidade.

Nos dias anteriores ao protesto, cinco ligas do carnaval de rua, Sebastiana, Amigos do Zé Pereira, Coreto, Nova Liga e Carnafolia, anunciaram a adesão de 67 blocos de carnaval, entre eles Carmelitas, Simpatia é Quase Amor, Gigantes da Lira e Orquestra Voadora. Rodas e coletivos como a Feira das Yabás, o Terreiro de Crioulo, o Samba Que Elas Querem e a Roda de Samba da Pedra do Sal também integraram a convocação.

Para Dríade, a aproximação entre escolas, blocos e rodas fazia sentido porque seus integrantes frequentam os mesmos espaços ao longo do ano. “Quem vai em escola de samba também pula bloco, quem vai em bloco também vai em roda”, observa. A escolha da Lapa acompanhou essa ideia. “A ideia de fazer a Lapa é justamente isso, né? Um dos berços de samba do Rio, um lugar onde a música de rua também é muito celebrada.”

“Fomos, ao longo da última semana, aglomerando mais gente em torno dessa mobilização”, lembra Dríade. Na segunda-feira, o encontro reuniu músicos, artistas, ativistas e representantes de diferentes organizações culturais.

No palco, Leandro Vieira conduziu parte da programação e incentivou os participantes a continuar o debate político depois da manifestação. O carnavalesco pediu que as conversas sobre a eleição chegassem também às famílias e aos amigos. Entre as apresentações, o intérprete Zé Paulo, da União de Maricá, defendeu a participação política dos sambistas, enquanto Renato Esteves, carnavalesco do Império Serrano, falou sobre o papel das escolas de samba na preservação da história brasileira.

O ato recebeu ainda integrantes do bloco Filhos da Pública, formado por servidores públicos, que saíram da Rua Joaquim Silva em direção à Lapa acompanhados por representantes do Sindsprev-RJ. Lideranças religiosas também participaram da programação, com falas em defesa da liberdade de crença. Entre os políticos presentes estavam Jandira Feghali (PCdoB), Marcelo Freixo (PT) e Chico Alencar (PSOL).

Na mesma segunda-feira, outra manifestação pela reeleição de Lula ocupou cerca de sete quarteirões da Avenida Atlântica, em Copacabana. Convocado por movimentos estudantis e organizações sociais, o protesto começou ao meio-dia, na altura do Posto 5, e reuniu estudantes, trabalhadores, sindicalistas e famílias. Benedita da Silva (PT), Jandira Feghali (PCdoB), Lindbergh Farias (PT) e Glauber Braga (PSOL) estiveram entre as lideranças presentes. O público também defendeu o fim da escala de trabalho 6×1 e protestou contra a anistia a Jair Bolsonaro. Por volta das 16h, parte dos manifestantes deixou Copacabana e seguiu para a Lapa, onde o encontro dos sambistas já estava em andamento.

Para Dríade, o ato na Lapa recuperou a relação histórica do samba com as comunidades negras e populares, onde a música também encontrou espaço para denunciar desigualdades e expressar as dificuldades da vida cotidiana. Essa história, lembra ela, sempre esteve ligada à festa e às celebrações que fazem parte da cultura popular brasileira.

“O que a gente viu ontem à tarde na Lapa, e aí inclusive mais cedo em Copacabana, foi isso, foi todos esses sambistas explodindo e ecoando o que o samba nasceu pra fazer, que é ser uma música de resistência, de confronto das realidades”, afirma.

Ao lembrar da tarde nos Arcos, Dríade destaca o encontro de pessoas que vivem o samba de maneiras diferentes, mas que decidiram se reunir por uma mesma causa. “Isso foi uma confluência de paixões e desejos”, resume. Para ela, sambistas, músicos, ativistas e políticos se uniram para fazer ecoar a mensagem que deu nome ao protesto: “O samba não se cala.”

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Fonte: Mídia NINJA

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