Goiás registra 4,9 mil casos de doença de Chagas em cinco anos; 1.021 tiveram comprometimento cardíaco

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Por Raunner Vinícius Soares — Jornal Opção

Goiás registra 4,9 mil casos de doença de Chagas em cinco anos; 1.021 tiveram comprometimento cardíaco

Nos últimos cinco anos, Goiás registrou 4.921 casos notificados de doença de Chagas.  A enfermidade é tradicionalmente associada ao meio rural, mas que vem ganhando, cada vez amis, espaço em áreas urbanas. A presença do inseto transmissor próximo a residências está ligada a mudanças ambientais, como o desmatamento e a retirada da vegetação nativa, que alteram seu habitat natural e suas fontes de alimento.

Ao Jornal Opção, a Secretaria da Saúde de Goiás (SES-GO) informou que o estado de Goiás registrou 4.921 casos notificados de doença de Chagas entre os anos de 2022 e 2026. Desse total, 1.021 diagnósticos foram classificados na forma cardíaca, manifestação caracterizada pelo comprometimento das funções do coração.

Os dados anuais apontam 586 notificações em 2022, sendo 307 com acometimento cardíaco; 741 em 2023, 130 cardíacos; 772 em 2024, 199 cardíacos; 1.692 em 2025, 212 cardíacos; e 1.130 registros parciais em 2026, 173 cardíacos. A pasta esclarece que esses indicadores referem-se às notificações segundo a forma clínica e não correspondem, necessariamente, ao total de pessoas que atualmente apresentam complicações cardíacas decorrentes da enfermidade.

Segundo a SES-GO, o tratamento antiparasitário específico para a doença de Chagas é realizado com os medicamentos benznidazol e nifurtimox, disponibilizados gratuitamente pelo SUS | Foto: Reprodução

O cenário acompanha o aumento de registros do vetor em Goiânia, onde a presença do inseto transmissor tem se tornado mais frequente. O número de barbeiros identificados em Goiânia entre janeiro e setembro de 2026 superou em 45% o total contabilizado ao longo de todo o ano anterior, somando 29 insetos nos primeiros nove meses contra 20 em 2025, conforme relata a Secretaria Municipal de Saúde (SMS).

Em abril deste ano, a SMS confirmou a primeira identificação na capital de um barbeiro com infecção natural pelo Trypanosoma cruzi, parasita causador da enfermidade. O achado foi atestado pelo Laboratório Estadual de Saúde Pública Dr. Giovanni Cysneiros (Lacen-GO), embora a presença do parasita no vetor não confirme a ocorrência de transmissão para moradores.

No passado, a doença prevalecia nas áreas rurais

Ao Jornal Opção, o cardiologista Giuliano Serafino Ciambelli analisou a permanência da doença como um desafio atual da saúde pública. “A doença de Chagas era muito mais prevalente no passado porque tínhamos uma população que morava predominantemente na zona rural, em casas de pau a pique, local onde o vetor, conhecido como barbeiro, costumava se abrigar”, disse.

Cardiologista Giuliano Serafino Ciambelli | Foto: Acervo Pessoal

“As contaminações ocorriam com mais frequência nessa época, mas ainda mantemos uma incidência ativa no território brasileiro devido ao surgimento de outras vias de infecção, como a ingestão de alimentos contaminados, a exemplo do açaí. Houve, portanto, uma mudança no perfil epidemiológico da doença”, explicou.

O médico detalhou o percurso da infecção e as diferentes manifestações clínicas que o paciente pode desenvolver ao longo do tempo. “A doença é transmitida pelo vetor barbeiro e, a partir do momento em que o indivíduo é infectado, o organismo pode apresentar três comportamentos distintos. O paciente pode permanecer a vida toda na forma indeterminada, sem qualquer comprometimento sistêmico, ou a doença pode afetar dois sistemas principais: o cardiovascular e o trato digestório, englobando o esôfago e o intestino”, afirmou.

A doença pode desencadear duas complicações caso atinja o coração

No que tange às alterações diretamente ligadas à estrutura cardíaca, o cardiologista destacou as duas principais apresentações da enfermidade. “Na parte cardiovascular, a doença pode acarretar duas complicações primárias: a insuficiência cardíaca, caracterizada pelo aumento do tamanho do coração e perda de sua força de bombeamento, e as doenças arrítmicas, que provacam bloqueios elétricos no coração e podem levar à necessidade de implante de marcapasso”, disse.

A evolução assintomática da enfermidade e os métodos indiretos de identificação também foram abordados durante a entrevista. “É totalmente possível apresentar sorologia positiva sem manifestar sintomas na parte cardiovascular ou digestória. Nesses casos, o diagnóstico é frequentemente descoberto por acaso, como no triagem de doações de sangue, momento em que o rastreio sorológico identifica a presença da infecção”, apontou.

“Uma outra forma comum de descoberta ocorre durante consultas de avaliação cardiológica de rotina, quando identificamos bloqueios no eletrocardiograma e solicitamos a dosagem sorológica para confirmação. Vale ressaltar que existem pessoas que passam a vida inteira com o teste positivo sem nunca desenvolver comprometimento orgânico”, esclareceu.

A respeito dos sinais clínicos que exigem atenção imediata e acompanhamento especializado, o cardiologista listou as manifestações mais frequentes nos quadros cardíacos. “Tanto a insuficiência cardíaca quanto as formas arrítmicas costumam emitir sinais de alerta, tais como falta de ar, palpitações no tórax, dor no peito e episódios de desmaio, a depender do nível de bloqueio elétrico existente”, disse.

“Além disso, mesmo na ausência de sintomas, achados como o bloqueio de ramo direito no eletrocardiograma ou alterações no ecocardiograma, como o aneurisma de ponta, indicam a necessidade de uma investigação médica mais detalhada”, ressaltou.

Nem todas as pessoas vão desenvolver problemas cardíacos

Ao ser questionado sobre a inevitabilidade das complicações, Giuliano explicou que o diagnóstico sorológico positivo não implica necessariamente em progressão para lesões no coração. “Nem toda pessoa diagnosticada com a doença de Chagas desenvolverá problemas cardíacos. A forma indeterminada garante que o paciente mantenha a sorologia positiva sem qualquer prejuízo ao sistema cardiovascular ou ao trato gastrointestinal”, reiterou.

Aos indivíduos com histórico de exposição ao vetor em décadas passadas, o cardiologista enfatizou a recomendação de buscar avaliação médica preventiva. “Quem possui um passado epidemiológico com histórico de contato com o barbeiro ou que tenha residido em áreas rurais e casas de pau a pique deve procurar atendimento para realizar o exame sorológico, definindo se há presença da doença e se existe algum grau de comprometimento orgânico”, orientou.

O médico explicou ainda a simplicidade dos testes diagnósticos atuais e as limitações terapêuticas na fase crônica. “O diagnóstico é bastante simples e seguro, realizado por meio de exames de sangue laboratoriais que analisam reações de antígeno e anticorpo. A literatura médica recomenda a realização de dois exames com metodologias diferentes para a confirmação diagnóstica. Confirmada a infecção, torna-se obrigatório o rastreio de complicações cardíacas e digestivas”, disse.

“Hoje contamos com avanços nas terapias direcionadas para o controle dessas complicações, garantindo uma boa evolução clínica. No entanto, é importante ressaltar que não existe um medicamento específico capaz de eliminar o parasita na fase crônica para promover a cura definitiva. Por essa razão, a conduta médica concentra-se no gerenciamento e tratamento das complicações geradas pela doença”, complementou.

A doença pode causar morte repentina em alguns casos

Sobre os riscos de agravamento grave dos quadros arritmogênicos, o cardiologista confirmou a possibilidade de fatalidades repentinas. “Caso a doença afete o coração e evolua para quadros de insuficiência cardíaca severa ou arritmias complexas, existe o risco de morte súbita, considerada uma complicação da cardiopatia induzida pela infecção de Chagas”, alertou.

Por fim, o médico desfez equívocos comuns que ainda circulam na sociedade sobre a transmissão e a evolução da doença. “Muitas pessoas ainda acreditam que a única forma de transmissão ocorre em ambientes rurais e habitações de pau a pique, quando na verdade existem outras vias ativas hoje. Um outro mito frequente é achar que a doença de Chagas é contagiosa e pode ser transmitida de pessoa para pessoa, o que não é verdade”, disse.

“Da mesma forma, existe a falsa ideia de que a ausência de sintomas garante a ausência da doença. É fundamental combater esses mitos para que possamos avaliar a população de forma completa. A orientação principal é que as pessoas mantenham suas avaliações médicas periódicas em dia, não apenas para investigar a doença de Chagas, mas para identificar precocemente diversas outras condições silenciosas”, concluiu.

Como o SUS trata a doença

Segundo a SES-GO, o tratamento antiparasitário específico para a doença de Chagas é realizado com os medicamentos benznidazol e nifurtimox, disponibilizados gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A indicação do tratamento depende de avaliação médica prévia, que considera a fase da doença, a idade e o estado geral do paciente. Nos casos em que há o comprometimento do coração, a assistência inclui acompanhamento especializado contínuo e tratamentos voltados à gestão das manifestações cardíacas associadas.

Novo estudo na UEG identifica composto promissor contra a doença de Chagas

Pesquisadores da Universidade Estadual de Goiás (UEG) em parceria com o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (Cnpem) identificaram um composto da classe dos cromenos com potencial para combater o Trypanosoma cruzi, protozoário causador da doença de Chagas. O estudo foi publicado no Journal of Medicinal Chemistry no artigo In vivo efficacy and biochemical target engagement of a chromene-based inhibitor of Trypanosoma cruzi lysyl-tRNA synthetase.

Universidade Estadual de Goiás (UEG) | Foto: Wikipédia

A pesquisa demonstrou que o composto denominado compound 5 atua sobre a enzima lisil-tRNA sintetase (LysRS), considerada essencial para a produção de proteínas e para a sobrevivência do parasita. Utilizando técnicas de biologia estrutural, bioquímica e farmacologia, os cientistas conseguiram comprovar a interação molecular entre o composto e a enzima, validando a LysRS como um novo alvo terapêutico para o desenvolvimento de futuros medicamentos contra a doença.

Nos testes laboratoriais, a molécula apresentou atividade contra formas intracelulares do parasita, com EC50 de 0,9 micromolar, além de baixa toxicidade para células hospedeiras. Em estudos com camundongos infectados, o composto administrado por via oral reduziu a parasitemia e a carga parasitária nos tecidos, reforçando as evidências de eficácia em organismos vivos.

Parte fundamental do trabalho foi realizada na linha de luz Manacá, do Sirius, em Campinas, onde técnicas de cristalografia de proteínas e difração de raios X permitiram determinar as primeiras estruturas cristalográficas da LysRS de T. cruzi e identificar o sítio de ligação da molécula. As informações obtidas fornecem bases para o aperfeiçoamento de novos candidatos a fármacos.

Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (Cnpem) | Foto: Agência Brasil

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores destacam que a substância ainda está em fase experimental e não pode ser utilizada como medicamento. Novos estudos serão necessários para avaliar segurança, toxicidade, seletividade, eficácia na fase crônica da doença e viabilidade clínica.

A doença de Chagas continua sendo um importante desafio de saúde pública na América Latina. Atualmente, o tratamento depende principalmente do benznidazol e do nifurtimox, medicamentos desenvolvidos há décadas e que apresentam limitações relacionadas aos efeitos adversos e à menor eficácia em casos crônicos da enfermidade. Nesse contexto, a identificação de novos alvos moleculares e compostos candidatos representa um avanço relevante para a pesquisa de terapias mais específicas e eficazes.

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Fonte: Jornal Opção

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